Crítica | Abacus: Pequeno o Bastante Para Condenar

A crise de 2008 continua gerando desconcertantes e enfurecedores frutos sobre o sistema bancário americano e mundial. Trabalho Interno, que levou o Oscar de Melhor Documentário em 2011, é um dos mais significativos e mais amplos exemplos, mas há outros, como o inacreditável A Rainha de Versalhes e o visualmente rico The Flaw. Na seara das obras de ficção, há Margin Call – O Dia Antes do Fim e, claro, A Grande Aposta que é, na verdade, uma espécie de um atormentador prelúdio para o crash.

Abacus: Pequeno o Bastante Para Condenar, título que rima com o do telefilme de ficção baseada na crise de 2008 Grande Demais para Quebrar, olha para o excruciante caso verdadeiro do único banco indiciado criminalmente por fraude hipotecária nos EUA em decorrência da implosão do sistema financeiro. Repararam no que afirmei? Vou repetir: o único banco indiciado criminalmente por fraude hipotecária nos EUA.

Independente do que se ache sobre as causas e as consequências da crise, se ela era inevitável, se o bail-out do governo americano foi justo ou não, é impossível – absolutamente impossível – deixar de coçar a cabeça em incredulidade diante da situação sui generis em questão. O único? Como assim o único? E se é o único, porque não estamos falando de algum mega-banco quaquilionário (sim, essa palavra existe em Patópolis e, portanto, também no meu vocabulário), mas sim do Abacus? E, aliás, falando nisso, o que raios é Abacus?

Pois é…

Abacus é um banco fundado há mais de 30 anos pelo imigrante chinês Thomas Sung e comandado por ele e suas filhas, especializado em empréstimos para a comunidade chinesa em Nova York, historicamente informal e baseada em usos e costumes arraigados e herdados de seu país natal. Um banco familiar voltado para uma comunidade bem específica, com características e necessidades peculiares. Sim, foi esse banquinho encrustado entre lojas de macarrão e de quinquilharias, que a mira dos procuradores distritais da cidade apontaram seus canhões e isso somente depois que o próprio banco fez o expurgo de funcionários que fraudaram alguns clientes. Ou seja, o banco deu a munição para que o estado americano tivesse um bode expiatório que pudesse usar para afirmar, batendo no peito, que alguém foi preso depois da crise.

Alguém que não fosse importante o suficiente, claro. Um banco “pequeno o bastante para condenar”, como o título bem diz, para ser exato.

E não, não acho necessariamente que o Abacus, como instituição, é inocente completamente. Sou o primeiro a desconfiar da boa-mocice aparente da família Sung , mas também sou o primeiro a levantar a sobrancelha para o fato de o Abacus ter sido – até hoje – o único banco que sofreu indiciamento criminal, sem que lhe fosse sequer oferecido o mesmo tipo de penas alternativas que foram oferecidas aos mega bancos, especialmente o pagamento de multas proporcionais.

Toda essa situação, claro, gera um daqueles documentários que, como o inacreditável Ícaro, “se vende sozinho”. E Steve James, veterano documentarista responsável pelo clássico Basquete Blues e pelo ótimo Life Itself – A Vida de Roger Ebert, tem plena consciência disso e constrói um filme que poderia facilmente ser classificado como um thriller de tribunal com pitadas de crítica social, especialmente se o espectador, assim como foi meu caso, não souber o destino do Abacus (e não revelarei aqui, podem ficar tranquilos).

Contextualizando primeiro a comunidade chinesa em Nova York e a fundação do banco com objetivos bem específicos, vemos muito claramente que James não pretende nem de longe esconder de que lado está. O Abacus e a família Sung são quase que santificados ao longo da projeção e a máquina da procuradoria é demonizada e ridicularizada na mesma proporção. Mesmo compreendendo perfeitamente que documentários não precisam – e não  devem – ser isentos, diria que o diretor pendeu demais a balança para os irresistivelmente simpáticos Sung, com o patriarca literalmente mostrando aquela serenidade oriental digna de clichê cinematográfico ao ponto de quase irritar (outra coisa que irrita é ele ter 79 anos e parecer não mais do que 60, confesso…). Suas filhas servem de contraponto à serenidade, sempre agitadas, com a matriarca segurando sentimentos como se fosse uma panela de pressão prestes a explodir, mas o conjunto final é harmônico e, principalmente, unido.

A defesa ferrenha dos Sung teria funcionado um pouco melhor se a procuradoria tivesse recebido um espaço um pouco maior. Sim, os dois principais advogados de lá – inclusive o procurador geral – são devidamente entrevistados e transmitem muito claramente suas opiniões, mas vê-se de forma cristalina que as entrevistas – ou os trechos que nos são mostrados – são para “inglês ver”, já que a pintura dos Sung como anjos é tão ofuscante que não há outra forma de ver os advogados que não como demônios que se associaram ao Al Pacino em Advogado do Diabo. James teria alcançado ainda mais legitimidade se abordasse com um pouco mais de detalhes os argumentos contra o Abacus, desbancando-os em seguida.

No entanto, o que o diretor faz funciona bem e ele se fia na construção de suspense para obter os resultados almejados. Estruturalmente, seu trabalho é, digamos, comum, com um progressão linear de acontecimentos e sem arroubos criativos de câmera, já que ele não precisa disso para tirar leite dessa história. É, diria, um documentário essencialmente jornalístico, na linha de um editorial bem concatenado e esmiuçado de um dos lados. Com isso, aos poucos nos vemos envolvidos na odisseia dos Sung em sua incansável e cara defesa perante o Tribunal, já que Thomas Sung se recusa a declarar-se culpado, gerando uma verdadeira briga de Davi contra Golias.

Abacus: Pequeno o Bastante Para Condenar poderia facilmente ser um filme de ficção. Como não é, a impressão que fica é da mais completa falência de um sistema que, em termos macroeconômicos, estabelece o ritmo do mundo. Se a Crise de 2008 foi assustadora, seus ecos conseguem ser ainda mais chocantes.

Abacus: Pequeno o Bastante Para Condenar (Abacus: Small Enough to Jail, EUA – 2016)
Direção: Steve James
Roteiro: Steve James
Com: Thomas Sung, Vera Sung, Jill Sung, Hwei Lin Sung, Heather Sung, Chanterelle Sung, Polly Greenberg, Neil Barofsky, Ti-Hua Chang,  Cyrus Vance Jr.
Duração: 88 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.