Crítica | American Horror Story – Asylum / 2×01: Welcome to Briarcliff

O internamento seria assim a eliminação espontânea dos ‘a-sociais’.

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Em todos os tempos, e provavelmente em todas as culturas, a sexualidade foi integrada num sistema de coações; mas é apenas no nosso, e em data relativamente recente, que ela foi dividida de um modo tão rigoroso entre a Razão e o Desatino, e logo, por via de consequência e degradação, entre a saúde e a doença, o normal e o anormal.

Michel Foucault

Os discursos sobre a loucura podem facilmente convergir para uma atitude de poder, ou seja, é preciso dominar, julgar e tratar o louco. Ele é inferior ao considerado são, logo, deve se submeter ao que lhe é feito sem direito a opinar ou a argumentações, afinal, tudo o que disser será considerado loucura.

Tomando como ponto de partida o fato de que existe uma realidade sã e socialmente aceita, o louco é um estranho no ninho a partir do momento que contradiz ou deturpa essa realidade. Ele não segue as regras, logo, deve ser punido ou isolado. Desse ponto em diante, ele não é apenas um erro genético, um assassino em potencial, uma ameaça aos outros, mas principalmente, uma afronta à razão. Cabe então aos sãos (grande é a ironia em torno disso!) que enfurnem os loucos em um lugar onde podem enlouquecer à vontade, e que também trate desses pobres coitados. O louco é retirado da sociedade e passa a ser propriedade da ciência, sendo condenado ao isolamento.

Quem questionaria o tratamento aos loucos realizado em uma instituição respeitável e religiosa? Acima de qualquer suspeita, a Mansão Briarcliff, um asilo religioso para loucos, conserva métodos rígidos no trato aos internos e traz ainda uma forte divergência de opinião entre dois de seus maiores representantes, a Irmã Jude e o Dr. Arthur Arden. É com essa premissa que os showrunners de American Horror Story nos apresentam ao cenário e à coluna narrativa central da segunda temporada da série: Asylum.

A proposta é mais que interessante. Ao renovar o cenário, trazer novas personagens e colocar atores já conhecidos da temporada anterior em novos papéis, os criadores conseguiram ativar o interesse dos espectadores e da própria televisão por novidades. Se o trabalho com o horror psicológico continuar em alta qualidade e privilegiado em relação ao horror físico, é certo que a série terá um longo futuro na telinha, uma vez que há uma infinidade de cenários para que se adapte uma história macabra. A proposta para este segundo é empolgante, especialmente porque o cenário e tudo aquilo que o envolve pode ultrapassar a percepção primitiva do horror e adentrar a uma discussão moral e ética sobre uma série de coisas.

O título do episódio, Welcome to Briarcliff, cumpre o que promete: apresenta com requintes de detalhes a Mansão/Asilo onde veremos toda a história se desenvolver. A afirmação aqui tem um quê de paradoxal, mas todo espectador de série sabe muito bem que nem todos os shows respeitam sua proposta narrativa e a despeito do título ou momento da série, apresentam tudo, menos aquilo que deveriam apresentar. Em Welcome to Briarcliff, os criadores da série e Tim Minear escrevem um roteiro digno de ser aplaudido, mostrando acontecimentos de dois momentos da história da mansão: em 2012, no tour macabro e sexual dos recém-casados Teresa e Leo; e 1964, nos tempos áureos do Asylum Briarcliff.

A primeira história é um cartão de visitas. Ela serve como pretexto para a entrada do espectador à mansão, mas nem por isso é tratada com desprezo. Com fotografia saturada, montagem paralela e cortes secos, passamos de um momento para outro da história da mansão com uma naturalidade sequencial espantosa. Sob direção de Bradley Buecker, o episódio é uma complexa ligação de retalhos históricos que vão da entrada dos principais internos na Briarcliff dos anos 1960 (Bloody Face e Sara Winters) e no “acidente” com Leo em 2012. É claro que os fatos ocorridos no passado são mais instigantes, até porque representam a parte mais interessante do Asilo – opção narrativa diferente da temporada anterior, onde o presente superava o passado, em importância.

Mas o que realmente coroa o roteiro dessa première de temporada não é apenas a boa estrutura dos acontecimentos e sua exposição coesa e empolgante. As pérolas também se encontram nas entrelinhas e nos diálogos. Uma delas é o trabalho realizado frente ao preconceito racial/étnico e sexual, metaforizado nos aliens e a dualidade entre o celibato e o desejo, exposto de maneira paradoxal com direito ao canto do Pater Noster do Voices of Light, que embala uma das cenas mais marcantes do episódio. A sequência recebe uma identidade muitíssimo forte e firma a personalidade contraditória da irmão Jude, exatamente como foi feito com a personagem de Kit Walker (o futuro Bloody Face) logo na primeira sequência de 1964, no posto de gasolina.

A direção de Bradley Buecker ainda consegue nos trazer uma grande quantidade de excelentes atuações, com destaque absoluto para Jessica Lange, embora ainda possamos citar as ótimas representações realizadas por e James Cromwell (Dr. Arthur Arden), Joseph Fiennes (Monsenhor Timothy Howard) e Evan Peters (Kit Walker). Junta-se a ele o excelente trabalho da equipe de produção, desde a fotografia, que opõe o presente de uma realidade saturada e cores quentes em evidência para uma enevoada e fria realidade nos anos 1960. As cenas internas lembram muito a fotografia da temporada passada, com predomínio do cinza e do marrom, mas cada ambiente ganha uma tonalidade específica e perfeitamente condizente com sua característica dramática – vide a casa das professoras lésbicas. O mesmo pode ser dito da direção de arte e dos figurinos. Sobre este último, vale destacar a transformação da jornalista Sara Winters, que é tão diferente da irmã Jude na primeira cena em que aparecem juntas, e depois são praticamente iguais, cada uma em seu uniforme.

A trilha sonora da série continua impecável. Há tanto um bom gosto quanto um rigor dramático tremendos na escolha das músicas, na duração delas em cena e nos momentos exatos em que aparecem. Isso é realmente muito difícil de se fazer em uma série, especialmente de horror, mas ao que parece não é um problema em AHS, que desde a temporada passada nos presenteava com composições musicais excelentes.

A espera valeu a pena. American Horror Story voltou com um nível de excelência que deixa orgulhoso qualquer espectador que gosta da série. Agora é torcer para que todo o restante da temporada siga esse mesmo padrão.

Até o próximo episódio!

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.