Crítica | Deu a Louca no Mundo [Aniversário de 50 Anos]

estrelas 3,5

Hoje, há 50 anos, era lançada no cinema uma comédia pastelão épica que marcou época. Sim, épica é a única forma de descrever Deu a Louca no Mundo, considerando que sua versão mais curta tem 154 minutos (a que é objeto dessa crítica) e, a mais longa, gigantescos 192 minutos. Além disso, é um daqueles filmes com elenco “onde está Wally?”, pois há tanta gente famosa que uma das diversões é achar os atores e atrizes.

Aliás, o elenco é tão grande que os próprios créditos de abertura, criados pelo brilhante Saul Bass (antigamente, os créditos eram todos antes, não depois do filme), não se faz de rogado e brinca com os nomes todos, alterando a ordem, despedaçando-os, remontando-os aleatoriamente e tudo mais já para dar o tom do que veremos a seguir. Apesar do elenco efetivamente importante ser limitado a 10 ou 12 pessoas – o que já é muito, na verdade – achar Os Três Patetas, Buster Keaton, Jerry Lewis, Allen Jenkins e vários outros no meio da confusão é extremamente divertido e um verdadeiro teste para cinéfilos.

A história em si é muito simples e, para os padrões cínicos de hoje, completamente risível: um ladrão já idoso tem um acidente de carro e os motoristas e passageiros de quatro outros carros na estrada ouvem do moribundo que há 350 mil dólares (em 1963, isso valia proporcionalmente muito mais) enterrados debaixo de um “grande W”. Isso basta para que todos saiam em uma corrida pelos EUA para achar o tesouro enterrado. Tenho certeza que a maioria das pessoas de hoje torcerão o nariz para o tom pastelão da comédia e para a algazarra sonora formada por todo mundo gritando ao mesmo tempo. Para esses eu só tenha a dizer “sinto muito, não sabem o que estão perdendo”.

Mas, aqueles que conseguirem sentar em frente à TV com o espírito de “antigamente” ou simplesmente com vontade de achar todos os atores que desfilam pela tela, terão diversão garantida. Simples, mas eficiente em seu humor leve, despretensioso.

Propositalmente, estou evitando escrever o nome dos atores ao falar dos personagens justamente para não estragar o deleite que é acha-los e nomeá-los durante a projeção. Muitos são óbvios – o diretor, Stanley Kramer (curiosamente cheio de filmes pesados no currículo como Orgulho e Paixão, Julgamento de Nuremberg e A Nau dos Insesatos) não tenta escondê-los – mas, como eu disse, a procura é divertida demais para eu estragar esse prazer para quem ainda não viu Deu a Louca no Mundo.

Basta saber que os passageiros dos tais quatro carros que testemunham o acidente com o idoso ladrão logo têm dificuldade de achar uma fórmula para dividir o dinheiro em uma hilária cena sobre quotas de participação e partem para a competição aberta. E, essa é a desculpa que Kramer usa para dividir a ação em diversos episódios simultâneos que trabalham com uma enorme quantidade de acidentes automobilísticos e aéreos, com muita destruição de cenário. Há um troca troca de duplas e trincas e o curioso é o cuidado de Kramer ao não permitir que comediantes que têm história por trabalharem juntos, efetivamente formem duplas ou trincas dentro do filme. Aliás, esse é mais um teste: achar essas duplas! Há, também, uma boa e até tocante narrativa paralela envolvendo um policial honesto já prestes a se aposentar. Tudo é bem amarrado ao final, claro.

É lógico, porém, que a longa duração da fita é forçada e, em última análise, desnecessária. Mas Kramer não tem pressa e faz sketch atrás de sketch, introduzindo personagens novos a cada dez minutos. Funciona bem, deixando a trama sempre fresca, mas a repetição é inevitável e o ritmo – junto com a gritaria – acaba cansando ao final. Mas não é nada que realmente prejudique a experiência de ver esse filme pelo menos pela primeira vez.

Mas Deu a Louca no Mundo é importante também por outra razão. Assim como hoje em dia Hollywood tenta desesperadamente atrair os espectadores novamente para o cinema com artifícios como o 3D, essa comédia também representa o mesmo tipo de esforço há 50 anos, quando a televisão efetivamente invadiu os lares americanos.

Tanto é assim que a fita foi a primeira a ser filmada no sistema Cinerama de um projetor só. Falarei mais sobre o sistema em uma coluna especial em futuro próximo, mas basta dizer que o Cinerama era uma técnica em que um filme só era filmado por três câmeras, de forma a permitir uma espécie de “super-hiper-widescreen”, com uma tela mais alongada que o normal que envolvia o espectador. O processo era custoso e extremamente complexo. Deu a Louca no Mundo foi usado como cobaia para a estreia da câmera Ultra Panavision, basicamente uma Super Panavision com compressão anamórfica que permitia a expansão das laterais para tomar todo o comprimento da enorme tela.

Em termos estéticos, o resultado é uma sucessão de longas panorâmicas abertas durante todo o filme, o que acabou contribuindo para sua duração. Mas são cenas de uma beleza plástica admirável, difícil de encontrar hoje em dia, ainda que não tenham outra função dentro do filme.

Ah, tem mais um aspecto importante de Deu a Louca no Mundo: esse foi o filme usado para inaugurar o Cinerama Dome em Los Angeles, ainda hoje um dos mais sensacionais templos cinematográficos do mundo e que também será objeto de um artigo meu em futuro próximo.

Moral da história (ou da crítica): usem a data comemorativa de hoje para dar uma chance a esse filme. É diversão “de antigamente” que talvez nos tire umas três horas do ritmo frenético de nossas vidas. Vale a pena!

Deu a Louca no Mundo (It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World, EUA, 1963)
Direção: Stanley Kramer
Roteiro: William Rose, Tania Rose
Elenco: um monte de gente famosa!
Duração: 154 min. (versão editada objeto dessa crítica), 174 min. (versão restaurada), 182 min. (versão re-editada e estendida) e 192 min. (versão original do cinema)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.