Crítica | As Aventuras de Peter Pan

Há exatamente 60 anos, depois de uma gestação complicada, de nada menos do que 18 anos, nascia As Aventuras de Peter Pan, o 14º desenho animado de longa metragem produzido pela The Walt Disney Company e que seria fadado a marcar gerações. A história de sua produção consegue ser tão interessante quanto sua narrativa, criada a partir da peça Peter Pan do escocês J.M. Barrie.

Disney adorava a história e queria que Peter Pan fosse seu segundo filme animado, imediatamente posterior a Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937. Mas o destino faria de Peter Pan uma obra complicada, literalmente um filme que não queria nascer (quanto mais crescer). Mas Disney perseverou e após um bom tempo negociando com o Great Ormond Street Hospital de Londres, detentores em “perpetuidade” dos direitos autorais sobre a obra de Barrie, conseguiu a necessária licença em 1939.

A produção começou imediatamente, mas em 1941, como todos sabem, os Estados Unidos entraram na guerra e o estúdio de Disney foi ordenado pelo governo americano a somente produzir filmes que facilitassem o esforço de guerra. Em 1945, findo o conflito, o estúdio estava em péssimas condições financeiras e precisou de mais dois anos para começar a se recompor. Com isso, a produção de Peter Pan recomeçou vagarosamente.

Retomando as discussões do final da década de 30, Disney e sua trupe (Peter Pan seria o último filme a ser produzido por todos os famosos Nine Old Men, basicamente os fundadores do estúdio), toda a linha narrativa da obra original de Barrie recebeu tratamento novo com pouquíssimo aproveitamento de seus diálogos. Muitos reclamam até hoje – e há certa razão nisso – que pouco do espírito do trabalho primígeno permaneceu no desenho de Disney, mas, seja como for, o fato é que As Aventuras de Peter Pan é um inegável, inesquecível e encantador clássico que arrebatou e ainda arrebata gerações a fio, com personagens cativantes.

Quem não se lembra de Sininho, Capitão Gancho, Wendy, Miguel, João, Sr. Smee e, claro, Peter Pan? Quem não houve um relógio das antigas e não se lembra, mesmo que lá no fundo da mente, de Tic-Tac, o irresistível crocodilo que engoliu um despertador e a mão do Capitão Gancho, cultivando um gosto especial pelo vilão?

Cada um dos personagens da história é rico, cuja história pregressa nós sentimos e vivemos. Os irmãos Darling são unidos e desejosos de aventura. Ficam vívidas em nossas mentes as aventuras que eles almejam viver, representadas pelas lutas e bagunça infantil que fazem em seu quarto, para o desespero da babá canina. Quando Peter Pan chega no quarto dos três caçando sua sombra, a conexão é imediata. Vemos a criança que não quer crescer levando as crianças que não sabem o que é crescer para um mundo de aventuras em que basta sacudir uma bela fadinha de vestidinho verde e pompons nos sapatos para que o pozinho mágico caia e, com um pensamento feliz, todos voem.

Como não se enternecer pela mágica história dos Meninos Perdidos que, apesar de bagunceiros e anárquicos, desejam mais do que qualquer outra coisa sentir o calor de uma mãe aos seus lados e fazem de Wendy sua mãe postiça? Como não sentir ciúmes junto com Sininho quando ela vê que Wendy está tomando seu lugar na tribo? E como não ficar com raiva – mas aquela raiva gostosa de ter, exatamente como uma criança precisa ter e faz aquele rosto igual aos dos Garotos Perdidos em pose de luta quando tem – ao ver o Capitão Gancho sequestrando os irmãos para fazer uma armadilha para Peter Pan? E quando Tic-Tac chega então? Não dá vontade de aplaudir?

A narrativa montada pelo exército de roteiristas foge do convencional até então dos desenhos da Disney. Peter Pan não é simplesmente o menino bonzinho e herói. Sim, ele tem todos os predicados para isso, mas vemos nos traços de seu rosto que ele tem o peso da idade e uma certa sabedoria – talvez “malévola” – por detrás, ao mesmo tempo que uma certa inveja pela vida dos Darling, aninhados nos braços de seu pai e mãe. E o ciúmes doentio de  Sininho, que a leva a trair seus amigos para o Capitão Gancho nos faz coçar a cabeça: como assim uma fada é capaz de fazer isso? Mas essa ambivalência é muito presente no trabalho original de Barrie e, pelo menos esse traço é mantido na imortal obra da Disney, o que a retira do panteão que até então os espectadores estavam acostumados. O “bonzinho” e o “malvado” não são imediatamente definíveis. Claro, o Capitão Gancho é um pirata feio e isso nos leva imediatamente a torcer por Peter Pan, Wendy e sua turma, mas reparem bem como é trágico o antagonista. Trata-se de um pirata sem uma das mãos que vive com pavor de ser engolido por um crocodilo e que não consegue derrotar nem mesmo uma criança na Terra do Nunca. O sentimento que vem é o de pena, não exatamente o de raiva. E talvez seja por isso que Capitão Gancho seja um dos vilões mais memoráveis do cinema.

A arte de As Aventuras de Peter Pan conseguiu sobreviver melhor ao teste do tempo que muitos outros desenhos mais antigos da Disney, como Branca de Neve, Dumbo e Bambi. Nâo que os outros não mantenham sua qualidade sensacional, mas Peter Pan tem uma consistência impressionante ao longo de todo o desenho, com paletas de cores e filtros específicos para as cenas em Londres e as cenas na Terra do Nunca. Reparem o realismo das primeiras cenas em contraste com as cores vivas e um “quê” de sonho da Terra do Nunca. Aceitamos uma parte tão bem quanto a outra, sem nunca deixarmos de nos envolver com a criatividade dos cenários e o deslumbramento do “voo inaugural” das crianças por Londres.

As Aventuras de Peter Pan é um filme que continuará a encantar gerações e precisa ser guardado bem próximo do coração de qualquer cinéfilo. Feliz 60 anos!

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.