Crítica | 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade

O sexto filme da franquia de 007 é, também, muito provavelmente, o menos conhecido e lembrado. O principal fator para isso é a mudança de ator. Sai o clássico Sean Connery e entra o principiante George Lazenby. O mais irônico nessa troca é que James Bond, um personagem britânico, primeiro foi encarnado nos cinemas por um escocês e, em seguida, por um australiano. Tudo dentro do antigo Império Britânico, claro, mas ainda assim irônico.

Sean Connery, já antes de terminar Com 007 Só Se Vive Duas Vezes já havia decidido não voltar à série que o consagrou principalmente por questões de relacionamento, uma vez que ele nem mais falava com o produtor Albert Broccoli. O nome de Timothy Dalton foi aventado, mas o então jovem ator recusou justamente porque se achava novo demais para o papel (mal sabia ele que seu destino seria voltar ao universo de 007 dezoito anos depois). Outros nomes foram considerados, mas as negociações acabaram em diversos estágios diferentes quando os produtores viram um comercial de chocolate com Lazenby (aos 2’40’’ nesse link, se tiverem curiosidade), chamaram-no para testes e adoraram o resultado.

Outro aspecto folclórico da contratação de Lazenby e que explica sua atuação em apenas um filme é que seu agente o fez recusar uma proposta para atuar em sete filmes da franquia, pois ele considerava que Bond tornar-se-ia anacrônico e ultrapassado em breve (que falta de visão, não?). No entanto, a presença de Lazenby como James Bond, longe de ser uma mera curiosidade, traz uma espécie de frescor ao personagem que já estava mesmo precisando de uma mexida.

Richard Maibaum foi trazido de volta para escrever o roteiro e, diferente do trabalho desleixado de Harold Jack Bloom e Roald Dahl no filme anterior, criou algo muito próximo da obra base de Ian Fleming. Na verdade, como Com 007 Só Se Vive Duas Vezes e 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade são livros complementares, mas em ordem inversa, essa fidelidade de Maibaum trouxe problemas para a produção. Afinal, no capítulo anterior, Bond e Blofeld encontram-se cara-a-cara, mas, em A Serviço Secreto, quando Blofeld vê Bond, não o reconhece. Alguns defendem que a razão para isso é que Bond está “disfarçado” de Sir Hilary Bray, especialista em genealogia. Mas isso é balela e querer muito da suspensão da descrença. A verdade é que o roteiro original continha uma passagem em que Bond passava por uma operação plástica tanto para justificar o novo ator como para tornar plausível o encontro descrito acima. A produção acabou decidindo por retirar isso e ir em frente com atores diferentes mesmo, torcendo para que a platéia entendesse. Afinal, Felix Leiter, agente da CIA e amigo de Bond, já havia sido encarnado por Jack Lord (em 007 Contra o Satânico Dr. No), Cec Linder (em 007 Contra Goldfinger) e Rik Van Nutter (em 007 Contra a Chantagem Atômica). O encontro de Bond com Blofeld é que, no final das contas, simplesmente exige essa suspensão da descrença e pronto.

É aqui que devo falar sobre a trama do filme, mas isso é uma tarefa difícil, pois, apesar da volta de Maibaum, o filme sofre de síndrome de dupla personalidade. Ainda que, em linhas gerais, Bond (Lazenby) esteja sempre atrás de Blofeld (Telly Savalas substituiu Donald Pleasance no papel, pois os produtores acharam que o físico de Pleasance não se encaixaria nas exigências do roteiro), o fato é que a trama propriamente dita só começa com 50 minutos de projeção. Até esse momento, desde a abertura pré-créditos em uma praia em Portugal, vemos Bond em um caso de amor com a Condessa Teresa “Terry” de Vicenzo (Diana Rigg), filha de um criminoso “bonzinho” (Marc-Ange Draco, vivido por Gabriele Ferzetti). O espião mulherengo finalmente cai de amores por uma mulher e isso carrega a trama até que, em uma troca de favores, Draco entrega a localização de Blofeld, em uma mansão/laboratório/estação de esqui em Piz Gloria. Lá, Blofeld cozinha um mirabolante plano envolvendo cura de alergia, hipnose de belas mulheres e bombas genéticas em mais uma trama improvável de chantagem mundial. Tudo uma desculpa para belas paisagens nevadas e excitantes perseguições em esquis.

O diretor Peter R. Hunt, que só dirigiria esse filme da franquia, disse que queria deixar sua marca na série de 007 e isso ele definitivamente fez. Não só pela quase desconexão entre as duas histórias (o flerte de Bond com Terry de um lado e a caça a Blofeld de outro), mas, também, pelas longas e calmas cenas de construção de personagens e investigações, com destaque para a invasão de um escritório de advocacia em Berna por Bond, e pelos figurinos quase alegóricos do protagonista.

Aliás, os figurinos de Bond nesse filme merecem um comentário a parte. Sempre elegante em  capítulos anteriores, Bond, em A Serviço Secreto, veste-se completamente fora de caráter. A exuberância das roupas do ator chega a ser engraçada, culminando com uma roupa escocesa com direito a kilt (aquele saiote) e tudo. São distrações que, em última análise, nada adiantam a trama e, portanto, são desnecessárias. Mas, se era para tornar o filme diferente, Hunt sem dúvida conseguiu.

Até mesmo no uso da trilha sonora o filme é único. No lugar de uma música tema com o próprio nome do filme, temos We Have All The Time In the World, composta por John Barry e cantada brilhantemente por Louis Armstrong. Mas a canção não abre o filme como de costume e acaba tornando-se uma espécie de “tema de amor” de Bond, sendo literalmente citada pelo personagem no final trágico do filme. Ao longo da fita, porém, há efetivamente um outro tema, dessa vez instrumental e também composto por Barry e batizado com o nome da obra, costurando as cenas de ação e usada alternativamente ao tema clássico de James Bond. O resultado é uma trilha sui generis e das melhores, senão a melhor da série.

Mesmo sofrendo de problemas de ritmo causados pelas duas histórias sucessivas que conta, tendo um Bond novo com diversas auto-citações (a mais famosa delas na cena pré-créditos em que Lazenby, levando um fora de Tracy, diz que esse tipo de coisa não aconteceria “com o outro cara”), 007 A Serviço Secreto de Sua Majestade é uma surpresa e uma boa mudança de direção que, porém, não é mantida nos filmes seguintes.

007 A Serviço Secreto de Sua Majestade (On Her Majesty’s Secret Service, Inglaterra, 1969)
Direção: Peter R. Hunt
Roteiro: Richard Maibaum
Elenco:  George Lazenby, Diana Rigg, Telly Savalas, Gabriele Ferzetti, Ilse Steppat, Lois Maxwell, George Baker, Bernard Lee, Desmond Llewelyn, Yuri Borionko, Virginia North,  Geoffrey Cheshire, Irvin Allen, Terence Mountain, John Gay, James Bree, Angela Scoular, Catherine Schell
Duração: 142 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.