Crítica | 007 Contra Goldfinger

estrelas 5,0

A conjunção astral que culminou com a produção e lançamento de 007 Contra Golfinger foi um fenômeno muito poucas vezes observado na história do cinema de ação e espionagem. Nascia, em 1964, o modelo, a forma que a grande maioria dos filmes de espionagem seguintes – da franquia ou não – usaria como estrutura.

Guy Hamilton, que viria a dirigir mais três filmes do espião, nos apresenta a todos os elementos visuais e cenas de ação a que nos acostumaríamos nas décadas seguintes, enquanto que Richard Maibaum (que, até o final de sua carreira, faria o roteiro de impressionantes treze filmes da série) e Paul Dehn solidificam a imagem icônica do invencível herói galante, das mulheres belas e perigosas e dos vilões exagerados, isso sem contar com um sem-número de outros elementos que acabaram se tornando o “padrão da indústria” em termos de filmes do gênero.

Dr. No foi o começo de tudo, quase uma experiência. Moscou Contra 007 nos trouxe um filme mais sério, excelente mesmo, mas que não é o melhor exemplo do tipo de James Bond que veríamos mais para frente. Em Goldfinger, a produção estabelece suas regras, suas fórmulas e elas funcionam tanto para o bem quanto para o mal, como toda padronização. No entanto, para analisar o terceiro filme com clareza, devemos nos despir do que, hoje, vemos inevitavelmente como clichê, como algo já tão utilizado que perdeu a graça, a originalidade. Afinal de contas, Hamilton, Maibaum e Dehn não podem ser culpados por fazer algo tão incrivelmente popular que foi copiado por todos, até por eles mesmos, não é mesmo?

Auric Goldfinger (Gert Fröbe) é um milionário amante de ouro, muito ouro. O MI6, sem explicar muita coisa, determina que 007 (Sean Connery) investigue. O resultado da mistura da falta de conhecimento sobre seu alvo e as técnicas abrasivas de Bond é o assassinato da bela Jill Masterson (Shirley Eaton) na inesquecível cena em que a moça aparece pintada de dourado em seu leito de morte. Irritado, o espião cobra respostas de sua agência e acaba sendo envolvido na missão por completo, recebendo de Q (o saudoso Desmond Llewelyn, que apareceu no filme anterior, mas que, aqui, ganha oficialmente seu eterno manto de Q), o que talvez seja seu mais famoso gadget: o Aston Martin DB6 à prova de balas, com metralhadoras, serras que saem da roda, foguetes e o extremamente útil assento ejetor. Bond, então, começa a perceber que Goldfinger é muito mais do que um contrabandista e tem planos ambiciosos para fazer o vil metal que já tem valer muito mais.

A trama é mirabolante, mas o roteiro, baseado no livro homônimo de Ian Fleming, é muito bem desenvolvido e não aliena o espectador. É o primeiro filme do espião em que o vemos perder a fleuma e dar indicações que sua missão é mais do que profissional, algo que só viria a aparecer novamente de maneira mais trabalhada no sexto filme da série e, décadas depois, nos dois filmes com Timothy Dalton. Mesmo o antagonista, típico “vilão de filme de 007”, é memorável, pois demonstra que é alguém que pode lidar com Bond em pé de igualdade intelectual. Além disso, apesar de pender para a unidimensionalidade, Auric Goldfinger é um excelente exemplo de como tratar um personagem raso de forma inteligente e eficaz, sem torná-lo algo recortado de uma grande cartolina.

O próprio Bond recebe o verniz definitivo, ainda que, sob as lentes politicamente corretas de hoje, suas atitudes chauvinistas possam ser percebidas como desagradáveis. No entanto, olhar Bond como vemos o Bond atual ou suas cópias (Jason Bourne e Ethan Hunt, por exemplo) é uma visão equivocada e completamente fora de contexto. Até porque, é em Goldfinger que vemos a primeira Bond Girl que tem tanto carisma e personalidade quanto o espião e que, quando está presente, rouba a cena não só por sua beleza, mas, também, por seu gigantesco magnetismo. É bem verdade que sua cena introdutória não tem o mesmo impacto visual que Honey Rider (Ursula Andress) saindo da água em Dr. No, mas, em termos de diálogo simples e inteligente, é um dos mais fantásticos da série:

Pussy Galore (debruçando-se sobre Bond para acordá-lo): – Meu nome é Pussy Galore.
James Bond (acordando da sedação): – Devo estar sonhando.

Em benefício daqueles que não falam inglês, mas evitando uma tradução, deixe-me apenas dizer que Mike Myers, em Austin Powers, parodia o fantástico nome batizando outra personagem forte e voluptuosa como Alotta Fagina…

E a troca de farpas entre Pussy, vivida por Honor Blackman, e Bond, é infindável, funcionando como um alívio cômico não intrusivo que permeia todo o filme. Blackman não tem a beleza das Bond Girls usuais, mas sua presença em cena é arrebatadora, hipnótica mesmo, especialmente se levarmos em consideração um discreto subtexto homossexual na relação dela com as curvilíneas pupilas de seu show aéreo.

Outro personagem que entra no rol dos coadjuvantes inesquecíveis é Oddjob (Harold Sakata), o volumoso guarda-costas coreano de Goldfinger que, sem emitir uma palavra, protege seu mestre a todo custo com sua força descomunal e, principalmente, com seu chapéu coco com lâminas nas abas capazes de cortar a cabeça de estátuas de mármore. Ele fica em pé de igualdade com Jaws, que viria a estrear nos filmes com Roger Moore.

Também é em Goldfinger que ouvimos, pela primeira vez, todas as possibilidades melódicas do “tema musical de James Bond”, composto por Monty Norman e arranjado por John Barry em Dr. No. Barry expande o riff de Norman e cria diversos e diferentes arranjos temáticos que perpassam 007 Contra Goldfinger quase que integralmente, marcando o começo de uma tendência cada vez mais crescente de utilização desse que talvez seja um dos temas musicais mais reconhecíveis do cinema.

Mas seria um crime, já que falo de música, se não tratasse da música tema do filme, composta também por Barry, com letras de Leslie Bricusse e Anthony Newley. É a primeira vez que a música tema especificamente criada para a obra é utilizada na abertura (que, em si, é uma bela e muitas vezes repetida montagem de imagens do filme projetadas sobre o corpo dourado de uma mulher). No filme anterior, a música tema somente foi sincronizada nos créditos finais. No entanto, o destaque maior fica mesmo para a performance de Shirley Bassey cantando Goldfinger com sua voz grave e marcante, já pintando musicalmente o que veríamos na tela em seguida. É impossível não ficar com a canção na cabeça depois de ouvi-la uma vez que seja.

Assistir 007 Contra Goldfinger é assistir à origem de muita coisa que, hoje, vemos à exaustão nas telas do cinema de ação. Portanto, é um filme obrigatório para cinéfilos e um ótimo divertimento para todos.

007 Contra Goldfinger (Goldfinger, Inglaterra, 1964)
Direção: Guy Hamilton
Roteiro: Richard Maibaum, Paul Dehn
Elenco: Sean Connery, Honor Blackman, Gert Fröbe, Shirley Eaton, Tania Mallet, Harold Sakata, Bernard Lee, Martin Benson, Cec Linder, Austin Willis, Lois Maxwell, Bill Nagy, Michael Mellinger, Peter Cranwell, Nadja Regin, Richard Vernon, Burt Kwouk, Desmond Llewelyn
Duração: 110 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.