Crítica | 007 – O Amanhã Nunca Morre

Por mais popular que seja a franquia 007, foi impossível para O Amanhã Nunca Morre, décimo oitavo episódio sobre as aventuras do espião, ultrapassar o megassucesso Titanic, até aquele momento a maior bilheteria da história do cinema. Seu sucesso comercial não chegou a ser um desastre, mas em comparação ao que os longas anteriores arrecadaram, seu desempenho nas bilheterias acabou sendo apenas mediano. De fato, o próprio filme parece fazer por merecer a fraca recepção que obteve. Após o ótimo resultado com 007 Contra Goldeneye, a troca de diretores parece ter feito mal a produção: saiu Martin Campbell, extremamente habilidoso em construir belas sequências de ação, e entrou Roger Spottiswoode, responsável pelo roteiro de 48 Horas e pela direção de Pare! Senão Mamãe Atira. Apenas por estas referências, você já tira o resultado.

Não que O Amanhã Nunca Morre seja ruim, e nem que a culpa seja exclusivamente de Spottiswoode, uma vez que a própria série vinha reciclando a si mesma desde seus primórdios (especificamente, desde o superestimado 007 Contra Goldfinger), o que dificultava a criação de um enredo, no mínimo, tão consistente como fora com os primeiros exemplares. Tudo parece apenas uma releitura não apenas da própria série, como também do gênero ao qual pertence, na época ansioso por alguma renovação que o tirasse da mesmice.

O carisma de Bond, ao menos, segue intacto. Aquela imagem de sujeito charmoso, inteligente, conquistador nato e habilidoso com sua arma jamais cansa, e consegue exercer um fascínio quase inexplicável. É um personagem clássico e de características marcantes, o que deixa ainda mais surpreendente a forma descontraída e adequada com que Pierce Brosnan encarna o papel, apresentando carisma suficiente e o vigor físico necessário.

O que sobra depois disso? Pouca coisa. O vilão Elliot Carver, interpretado com absoluta frieza por Jonathan Pryce é interessantíssimo, porém com potencial pouco explorado. Michelle Yeoh, apesar de ser a grande atriz oriental que é, dá uma Bond Girl sem sal e isenta de alguma química com Bond, mas ao menos temos Teri Hatcher como a esposa do excêntrico antagonista para iluminar a tela.

Spottiswoode até elabora algumas sequências de ação que cumprem sua função de entreter (a perseguição na moto é particularmente empolgante), mas como já dito, não trazem nada de novo, deixando aquela sensação dedejá vù no ar. É tudo muito corrido, feito de maneira prolixa e banal, sabotando o resultado final de uma película que poderia ter ido além. Nem mesmo a canção-tema de Sheryl Crow, que carrega o título do filme, consegue deixar sua marca, o que apenas serve como mais uma prova do cansaço das aventuras de Bond, já pouco inspiradas.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.