Crítica | 007 – O Mundo Não é o Bastante

Há uma afirmação entre os fãs de 007 (e esta é praticamente unânime) de que a fase de Pierce Brosnan como o espião James Bond é, provavelmente, a pior da longa cinessérie. Excetuando o excelente 007 Contra GoldenEye, esta fase contemporânea de Bond foi marcada pelo exagero e por terríveis irregularidades no roteiro, e por mais que tais fatores fossem recorrentes em muitos filmes da série, aqui eles foram agravados de tal forma que escancaravam o desespero dos produtores em manter a série viva a qualquer custo. Isto porque ainda nem chegamos em Um Novo Dia Para Morrer.

Para o episódio em questão, O Mundo Não é o Bastante, tudo o que foi apontado no primeiro parágrafo ainda se aplica, só que em menor grau. Levemente superior a O Amanhã Nunca Morre, este 19° capítulo da franquia é mais enérgico, possui mais interatividade, apresenta um vilão clássico, mas, ainda assim, é carente em termos de inovação.

O diretor da vez é Michael Apted, que já havia feito alguns trabalhos interessantes como Coração de TrovãoBlink – Num Piscar de Olhos e Nell. Mesmo sem muita experiência no gênero, Apted se sai bem na construção das sequências de ação, empolgantes e muito bem realizadas, apesar do já comentado exagero que é ampliado de tal forma que chega a tornar certos momentos inesperadamente cômicos (como a descida de Bond por montanhas cobertas de gelo).

Apted faz o que pode, porém o roteiro de Neal Purvis, Robert Wade e Bruce Ferstein pouco contribui com sua extrema irregularidade. Nem digo isto pela trama batida ou as reviravoltas clichês e previsíveis, mas sim pela absoluta frieza de Bond neste episódio. Claro, esta sempre foi uma das principais marcas do clássico personagem, porém, aqui, ela causa certa estranheza ao tornar-se excessiva demais, chegando a gerar certa antipatia pelo personagem. Brosnan continua sendo um bom intérprete, porém faltou o tratamento adequado para tal posição do espião.

O Mundo Não é o Bastante, contudo, traz consigo algumas surpresas interessantes. Além da participação mais intensa da personagem M (vivida pela sempre competente Judi Dench), o antagonista Renard, interpretado com perfeita canastrice por Robert Carlyle, é digno de figurar no pódio dos melhores vilões da série com sua habilidade em tornar-se imune à dor. Sophie Marceau como Elektra King e Denise Richards como Christmas Jones são as Bond Girls da vez e, com suas belas presenças, conseguem iluminar a tela e inserir um fôlego a mais para o filme.

James Bond segue sendo o que é, um sujeito charmoso e calculista, que atira primeiro e pergunta depois, e de praxe sempre consegue fisgar alguma mocinha no final. Novamente, um episódio marcado pela falta de novidades, mas que ao menos consegue entreter sem ofender a inteligência do público.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.