Crítica | 007 – Operação Skyfall

estrelas 4,5

Quem estava procurando em 007 – Operação Skyfall algo semelhante a 007 – Cassino Royale, certamente teve uma surpresa. Sam Mendes, diretor de Beleza AmericanaEstrada Para Perdição e Foi Apenas Um Sonho, tem um estilo muito longe do de Martin Campbell, o que torna os dois filmes quase que obras de franquias diferentes. As quase ininterruptas cenas de ação selvagem e visceral de Cassino Royale dão lugar a muitas sequências contemplativas que desmontam e remontam o personagem principal, revirando-o do avesso no processo.

Cassino Royale foi a primeira missão. Quantum of Solace foi o epílogo, o fechar de um livro, um virar de página na vida de Bond. Skyfall é um recomeço (não confundam com reboot!). Tanto é assim que, ainda na cena pré-créditos, James Bond (Daniel Craig) morre pelas mãos de Eve (Naomie Harris), uma agente do MI6 , depois de uma ordem executiva de M (Judi Dench). O simbolismo é evidente: o Bond que conhecemos nos dois filmes anteriores morreu. Nasce um novo Bond, talvez uma versão mais próxima do “ideal bondiano” a que nos acostumamos depois de 50 anos junto com o personagem no cinema.

No entanto, a ressurreição não é imediata. Ele volta ao Serviço Secreto de Sua Majestade depois de ver um atentado à própria sede do MI6 e, mesmo combalido, viciado em bebidas e medicamentos, magro demais e com olhos vermelhos, parte em defesa de seu país, mas, principalmente, de M, com quem, desde o começo, demonstra ter laços quase filiais. Ele vai para campo sem poder e nós percebemos sua enormes falhas. Não está mais presente o Bond forte, ágil, quase invencível dos filmes anteriores, mas sim um agente secreto que talvez já seja antiquado demais, uma relíquia como Gareth Mallory (Ralph Fiennes), representante civil responsável pelo Departamento de Defesa do país, deixa muito claro para ele. E, para jogar sal na ferida, Bond ainda tem que lidar com o jovem Q (Ben Whishaw), que, segundo ele próprio, “faz mais coisas de pijama perante um computador antes de tomar o primeiro chá da manhã do que Bond conseguiria fazer em sua vida toda”. O novo Q é a perfeita versão nerd do Q vivido tantos anos por Desmond Llewelyn.

Sem revelar muito para não estragar o prazer de ver esse filme para ninguém, Bond tem que enfrentar Raoul Silva (Javier Bardem), vilão com um mirabolante plano para desestabilizar o Serviço Secreto britânico e matar M. Bardem é um show a parte. Se de um lado vemos Craig se transformar na sombra do Bond que era antes, Bardem está “livre, leve e solto”, divertindo-se no excêntrico papel que a trinca de roteiristas criou para ele. Para se ter uma ideia, é absolutamente memorável o primeiro diálogo entre Silva e Bond, talvez o mais fantástico tetê-a-tête jamais travado em um filme da franquia. É um daqueles momentos que dá vontade de levantar e pedir ao projecionista para parar a película e rebobinar.

No entanto, o roteiro não é sem problemas. O primeiro deles é que se tenta contar duas histórias e demora demais para fazer com que elas convirjam. Literalmente, só vemos a conexão completa entre o lado Bond da trama e o lado Silva quando chegamos ao embate final, faltando 30 minutos para o filme acabar. Mas esse nem é o maior dos problemas. O plano mirabolante de Silva, que faz com que Bond viaje para Xangai e Macau, é exagerado demais para alcançar um objetivo comparativamente pequeno e simples. É difícil crer que Silva tenha levado o tempo que levou apenas para colocar a carreira de M na lama para, em seguida, tentar matá-la. Aliás, entre uma coisa e outra, ele nem dá tempo ao tempo para que M sofra com o descrédito de seu próprio comando do MI6. Os roteiristas deram a entender que estávamos diante de algo grandioso, mas que acaba sendo intimista como a trajetória do próprio Bond. Não seria um defeito se não fossem os exageros e a capacidade um tanto descontextualizada de Silva quase “baixar o espírito” calculista de Hannibal Lecter, sempre pensando várias jogadas a frente e dependendo de um pouco mais de sorte do que nossa suspensão da descrença aceita.

Acontece que Sam Mendes definitivamente sabe transformar um limão em uma limonada e, com a crucial ajuda de Roger Deakins na fotografia, faz um filme de visual arrebatador, com cenas verdadeiramente brilhantes. Além do embate verbal em plano e contraplano entre Silva e Bond, há momentos de técnica irretocável como Bond tentando capturar um assassino em Xangai. Com a ajuda do preciso trabalho de montagem de Stuart Baird, que atuara em Cassino Royale, Mendes e Deakins constroem uma sequência em um andar todo de vidro de um prédio com luzes piscando ao fundo que dá dor de cabeça só de pensar como deve ter sido o trabalho de iluminação, colocação de câmera e coreografia. É de se tirar o chapéu.

Outra sequência que Mendes e Deakins nos presenteiam é a entrada de Bond no cassino em Macau comunicando-se com Eve, que está no mesmo local, com microfones de ouvido. Tudo é um plano-sequência só, sem cortes, até a convergência dos personagens perto do guichê onde se trocam as fichas de jogo. É quase um estonteante balé.

Mas, em defesa do roteiro, deve-se dizer que os produtores tiveram a coragem de não ordenar mais um filme de pancadaria. Perceberam que Quantum of Solace ficou perigosamente no limite da fita sem cérebro e partiram para algo arriscado, mais complexo, mais inteligente. Nada de gadgets para Bond, mesmo com a presença constante de Q. Nada de saídas fáceis para os dramas. Sim, há momentos grandiosos, como a sequência do metrô, mas eles são poucos e esparsos, culminando com uma grande homenagem não-intrusiva aos primórdios de James Bond e, no clímax, indo até mais atrás, até a nunca antes explorada origem do personagem.

A música de abertura, composta e interpretada por Adele, é belíssima e condizente com o legado dos filmes de James Bond. No entanto, a trilha sonora como um todo, composta por Thomas Newman, faz pouco uso da melodia criada pela cantora britânica, além de ser econômica também com o clássico tema de 007, criado por Monty Norman. Tentando ser original, Newman acaba sendo intrusivo, quase copiando a magistral composição de Batman – O Cavaleiro das Trevas, o que acaba distraindo o espectador em determinados momentos.

Mas, apesar dos pesares, quando vemos Bond ao final de toda a destruição, ele é o Bond que conhecemos e apreciamos, com todas as referências que aprendemos a amar absolutamente intactas. Ou será que não?

007 – Operação Skyfall (Skyfall, EUA/Reino Unido – 2012)
Direção: Sam Mendes
Roteiro: Neal Purvis, Robert Wade, John Logan
Elenco: Daniel Craig, Judy Dench, Javier Bardem, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Bérénice Marlohe, Albert Finney, Ben Whishaw, Rory Kinnear, Ola Rapace, Helen McCrory, Ralph Fiennes
Duração: 143 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.