Crítica | 007 – Permissão Para Matar

Vingança. Violência. Tom sombrio.

Essas três características, hoje tão comuns e desejadas em todo tipo de filme – até Homem-Aranha ficou sombrio! – tenham tornado 007 – Permissão Para Matar um dos menos lembrados da franquia do agente secreto James Bond. Mas o preconceito que se estabeleceu contra o filme é completamente injustificado, pois ele é um dos melhores de toda a série.

Primeiro filme da série canônica de James Bond a não usar título de obra literária de Ian Fleming, Permissão Para Matar é, essencialmente, uma história de vingança que se encaixa perfeitamente dentro do personagem (desde que esqueçamos, por um momento, a “versão Roger Moore”) e dentro do que se pode esperar de um filme envolvendo agentes secretos. Timothy Dalton, voltando para sua segunda e, infelizmente, derradeira incursão no universo de Bond, continua com uma interpretação forte, misturando dureza com sentimentos de uma maneira muito peculiar e autêntica.

Tudo começa com Bond (Dalton) e Sharkey (Frank McRae) acompanhando Felix Leiter (David Hedison, o único ator, até Jeffrey Wright na “era Daniel Craig” a reprisar esse papel, já vivido por oito pessoas diferentes na série cinematográfica) em seu casamento. No meio do caminho até a igreja, Leiter é informado que um procuradíssimo traficante (Franz Sanchez, vivido pelo eternamente vilanesco Robert Davi) está em território americano. É a oportunidade de capturá-lo e Leiter e Bond embarcam em um helicóptero e acabam sendo bem sucedidos em espetacular perseguição aérea que culmina com a triunfal chegada dos dois, de paraquedas, ao casamento. Esse início, que acontece na cena pré-creditos, funciona para mostrar o quanto Leiter e Bond são amigos, algo que, apesar de já desconfiarmos, nunca havia ficado tão claro nas parcerias anteriores.

Acontece que Sanchez escapa e, no processo, resolve se vingar de Leiter, matando sua esposa Della (Priscilla Barnes) e ferindo gravemente o agente da CIA. Bond, então, não titubeia e, contra as ordens expressas de M (Robert Brown) e tendo sua licença para matar revogada, parte sozinho para matar Sanchez.

Em geral, a história é muito parecida com o recente Quantum of Solace, com Daniel Craig, já que lá como aqui 007 atua por conta própria em busca de vingança (ou, pelo menos, de consolo, como a palavra solacedeixa entrever). E o próprio desenvolvimento do filme, de certa maneira, espelha 007 – Permissão para Matar. Bond acaba em um país fictício na América Latina chamado Ístmo e, em Solace, na Bolívia. Ele recebe a ajuda de um parceiro de anos (Q, vivido pelo fantástico David Llewelyn, em sua primeira aventura efetivamente ao lado de Bond) em Permissão e, em Solace, recruta um ex-agente (Mathis, vivido por Giancarlo Giannini). Uma bela agente boliviana ajuda o Bond de Craig e uma bela mercenária compartilha a cama e a ação do Bond de Dalton.

Mas os filmes são, em última análise, diferentes. A comparação que escolhi fazer acima serve apenas para ilustrar que 007 – Permissão Para Matar talvez tenha sido um filme a frente de seu tempo. Afinal de contas, no finalzinho da década de 80, já adiantava a tintura sombria que, depois do Batman de Nolan, passou a obrigatoriamente permear todo tipo de filme. O que o modismo não faz, não é mesmo?

O roteiro, apesar de não muito original, é bem amarrado como o do filme anterior, com a vantagem de não conter epílogos que estendem a ação central. Tudo se resolve no clímax, com apenas um brevíssimodénouement no estilo tradicional dos filmes da série. Apenas o escopo da fita é menor, mais intimista, como uma vingança deve ser.

E o interessante é que o roteiro não perdoa nem mesmo o herói. Ele faz muita besteira e percebe que está cego pela sua sana vingativa e precisa repensar suas prioridades antes que acabe machucando mais alguém. É claro que, assim como no primeiro filme de Dalton, o roteirista Richard Maibaum (em seu 17º e último roteiro para a série) insere os gadgets de sempre, mas de uma maneira ainda realista, crível, sem que precisemos nos esforçar para aceitar o que vemos.

007 – Permissão Para Matar foi o primeiro filme a não utilizar o nome de alguma obra de Ian Fleming no título e ele nem seria chamado de Licence to Kill, mas sim Licence Revoked. Toda a produção foi feita com esse segundo título e somente em pós-produção ele foi alterado. A razão, dizem, é que o público americano não entenderia o que “revoked” significava, mas isso é balela. A verdadeira razão é que, nos Estados Unidos, a expressão licence revoked ou “licença revogada” tem ligação automática com a cassação da carteira de motorista e a MGM preferiu evitar essa conexão. Só fico imaginando quem que é que, vendo o título, acharia que se trata de um filme sobre Bond perdendo sua autorização para dirigir…

Último filme dirigido por John Glen na franquia de James Bond (seu quinto seguido), 007 – Permissão Para Matar é diversão garantida e um grande exemplo de como se fazer um filme do agente secreto que só gosta de martini de vodka sacudido, não misturado.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.