Crítica | 007 – Quantum of Solace

estrelas 3,5

Quando lançado, 007 – Cassino Royale desmanchou a imagem que James Bond havia constituído nos últimos 40 anos: conquistador incorrigível, sujeito charmoso e habilidoso em derrotar seus oponentes sem nunca amarrotar o smoking. Transformando-o em uma figura mais humana, suscetível a erros e também capaz de se apaixonar, os roteiristas Paul Haggis, Neal Purvis e Robert Wade conferiram novas camadas ao personagem, ao mesmo tempo em que o atualizavam para o nosso século.

007 – Quantum of Solace é a primeira sequência direta da série, cujo inicio se dá poucos minutos após o desfecho do anterior, quando Bond captura o chamado Sr. White (Jesper Christensen). Após a morte de sua amada Vesper Lynd (Eva Green) por uma agência misteriosa, o agente decide ir atrás dos responsáveis pelo trágico ocorrido, e se depara com uma organização secreta perigosa, o que leva Bond ao encontro do cruel empresário Dominic Greene (Mathieu Amalric) e da vingativa Camille (Olga Kurylenko).

Em termos de enredo, Quantum of Solace coloca-se abaixo do antecessor. De fato, a história é apenas um fiapo, mas que serve como desculpa para que o diretor Marc Forster (Guerra Mundial Z) possa elaborar longas e movimentadas sequências de ação por ruas, telhados, no mar e até mesmo durante uma apresentação de ópera. Forster, aliás, continua querendo provar sua versatilidade ao transitar por diversos gêneros, desta vez assumindo uma responsabilidade tão arriscada ao comandar um episódio de uma franquia tão popular.

O próprio Forster, de fato, parece pouco interessado em criar uma narrativa tão densa quanto a de Cassino Royale. Sua preocupação maior está em conferir à experiência o máximo de virilidade e intensidade possível, como numa tentativa de transmitir toda a fúria que Bond desenvolveu por terem lhe retirado sua única chance de levar uma vida comum. O diretor sempre prioriza planos abertos e adota um uso incessante de cortes nas sequências movimentadas, mas que jamais deixam o espectador desorientado ou incapaz de acompanhar o que ocorre na tela.  Esta técnica, que imediatamente remete à Trilogia Bourne, confere uma agilidade e frenesi superior a todos os filmes anteriores da série, e não se surpreenda se você se pegar roendo todas as suas unhas enquanto Bond tenta escapar de um avião atirador em pleno ar. Neste sentido, o filme cumpre muito bem seu objetivo.

O roteiro, infelizmente, mostra-se um tanto desleixado. Assumindo-se como uma história de vingança pessoal, o longa cai no clichê e extrapola ao elevar a impetuosidade de Bond a um novo nível. O costume de “atirar primeiro, perguntar depois” sempre esteve presente no personagem, mas chega a ser inconcebível quando o agente sai matando qualquer um que entra em seu caminho, não apenas atrapalhando sua própria jornada de vingança, mas também os planos do MI6, que tanto deseja desvendar os mistérios dessa desconhecida organização. E o paralelo entre o drama de James com a Bond Girl Camille chega a ser sofrível de tão abrupto que é, tendo sido acrescentado à trama apenas para tentar despertar nossa simpatia por uma personagem insossa.

Camille, aliás, está no topo das bondgirls mais esquecíveis da franquia, e isto não apenas pela exploração rasa da personagem, como também pela inexpressividade de Olga Kurylenko, que possui apenas sua exótica beleza como atrativo. Sua química com Daniel Craig é inexistente, mas este, pelo menos, segue comprovando ser um dos melhores intérpretes de Bond, surpreendendo por aliar tão bem sua veia dramática com seu vigor físico. Mathieu Amalric, como Dominic Greene, consegue transpor com eficiência o ar misterioso e ameaçador do vilão, enquanto que M (Judi Dench) continua a ganhar mais interatividade na trama, e sua aproximação com Bond, semelhante a de mãe e filho, é das mais interessantes.

Desta vez, a canção-tema é Another Way To Die, interpretada por Jack White e Alicia Keys, o primeiro dueto da série. Apesar de não ser tão memorável quanto Chris Cornell com seu You Know My Name, a música é uma interessante mistura de jazz com uma batida pop eletrônica, e é certamente contagiante. No mais, Quantum of Solace cumpre o dever de manter o nível dessa nova fase de Bond, porém sem aprofundar demais no que fora proposto pelo filme anterior. Um filme de ação comum, e só.

007 – Quantum of Solance (Quantum of Solace, EUA/Reino Unido – 2008)
Direção: Marc Forster
Roteiro: Paul Haggis, Neal Purvis, Robert Wade
Elenco: Daniel Craig, Olga Kurylenko, Mathieu Amalric, Judi Dench, Giancarlo Giannini, Gemma Arterton, Jeffrey Wright, David Harbour, Jesper Christensen, Anatole Taubman
Duração: 106 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.