Crítica | 1001 Gramas

1001 gramas_grams_mil e uma

estrelas 3

Às vésperas de apresentar o protótipo do “quilo padrão” da Noruega em uma convenção de pesos e medidas na cidade de Paris, o cientista responsável pelo projeto fica doente e cabe à sua filha Marie, também cientista do Instituto de Metrologia da Noruega, levar o “quilo” até a tal conferência. Marie (Ane Dahl Torp em uma intragável atuação, erroneamente pensada para demonstrar a “frieza e objetividade” de sua personagem, o que só logrou afastar o espectador, embora isso mude na reta final do filme) vive às voltas com problemas pessoais que se recusa a enfrentar, encontrando no trabalho a fuga mais fácil, vivendo entre as obrigações de uma ciência exata e uma vida que em pleno caos.

Escrito e dirigido por Bent Hamer, 1001 Gramas possui um tema para o qual um espectador raramente se sentiria atraído caso não houvesse um drama ou melodrama paralelo, afinal, um texto cujo mote é a medida de um quilo e uma “convenção do quilos”não está entre as coisas mais interessantes para um roteiro de cinema, convenhamos. E de fato, este é o ponto menos chamativo e constantemente mais chateante do enredo de 1001 Gramas, mas Hamer conseguiu colocar de maneira divertida esse lado científico da história, tomando-o como ponto de partida e fio da meada mas não como foco principal e único de todo o longa.

A atenção, na verdade, se volta para Marie, que está se separando, recusa-se a encontrar o esposo e está cuidando do pai doente. O contraste simbólico entre as áreas da vida da personagem não passa despercebido pelo espectador e isso é muito bem trabalhado no texto, que apesar de seus momentos pouco inspirados ou narrativamente inúteis consegue prender o espectador, em especial na parte final da obra, quando as orientações estéticas sofrem interessantes mudanças.

A bela fotografia de John Christian Rosenlund passa de um azul predominante em um primeiro momento — tonalidade que na verdade nunca abandona o filme, mas acaba fixando-se mais nos figurinos e em alguns objetos do cenário do que na construção da atmosfera dos quadros, através da luz — para cores mais quentes, inicialmente difusas mas depois fortes o bastante para nos dizer que alguma mudança dramática estava acontecendo. É justamente do encontro de Marie com “Pi” e pelas belas tomadas de Paris que o filme alcança o seu verdadeiro charme e ponto emotivo, fazendo toda a estranheza e tonterias do roteiro serem parcialmente perdoadas.

A reflexão que o público faz comparando a vida e o trabalho de Marie ganha, na verdade, citação literal no texto, tanto através do pai da personagem quanto através de “Pi”, que apresenta o conceito da “necessidade de caos na vida” em um momento propício e sob uma reflexão que tem tudo a ver com a ciência. A ideia de que a tentativa e erro é a principal forma para ver se algo vai dar certo (nesse caso, referência direta aos relacionamentos) e que é necessário abandonar o medo de viver para se saber a medida da vida, a medida do amor; vem tanto para a protagonista quanto para o público, ideia que ganha uma engraçada piadinha com “medida da vida” na última cena do filme.

A trilha sonora de John Erik Kaada é o único setor que se coloca em excelência durante todo o tempo, com traços minimalistas pela repetição e formato enxuto das peças, ilustrando o cenário e os sentimentos dos personagens, característica que ganha, como já comentamos, grande força na direção de fotografia, fria no início e mais próxima do quente ao final.

1001 Gramas é um filme sobre a vida versus o eterno compromisso com o trabalho, a certeza sobre tudo, a objetividade ao extremo e a necessidade de emoção. O espectador deve ter em mente que o filme só valerá a pena de fato em sua segunda metade, mas a primeira parte acaba tendo sentido como uma espécie de preparação e até contraste para com o que vem depois. Não é exatamente o modelo ideal de roteiro, mas funciona.

1001 Gramas (1001 Gram) — Noruega, Alemanha, 2014
Direção: Bent Hamer
Roteiro: Bent Hamer
Elenco: Ane Dahl Torp, Laurent Stocker, Hildegun Riise, Stein Winge, Per Christian Ellefsen, Didier Flamand, Dinara Drukarova, Daniel Drewes, Peter Hudson
Duração: 93 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.