Crítica | 12 Anos de Escravidão

estrelas 4Mesmo com uma filmografia tão curta (apenas 3 filmes), Steve McQueen há muito tempo já mostrou a que veio. Tanto em Fome quanto em Shame, filmes de temáticas tão distintas entre si, o diretor traz em seu estilo seco, cru e realista uma forma de ressaltar as nuances de suas obras, experiências desconfortáveis e difíceis, porém sempre sinceras naquilo que querem retratar. Com 12 Anos de Escravidão não é diferente, com McQueen atingindo seu ponto máximo enquanto realizador.

O tema da escravidão já rendeu poucas e boas para o cinema, tais como os melodramas Amistad, A Cor Púrpura e Lincoln (todos de Steven Spielberg), o sarcástico Django Livre e o pouco convencional Manderlay. Embora não seja o melhor exemplar sobre o tema (e tão pouco é o melhor dentre os indicados ao Oscar deste ano), 12 Anos de Escravidão é uma obra de efeito singular. McQueen retrata a escravatura negra de maneira pouco usual, ousada e corajosa, com a violência sendo constantemente ressaltada através da câmera sem pudores do diretor, algo que já há a algum tempo tem gerado controvérsias entre muitos, uma vez que o sofrimento filmado por McQueen transcende a tela e corta rente a carne do espectador. O filme tem sido acusado de “excessivamente violento” por uma boa parcela do público. Mas com o ser humano é assim: basta encararmos a face nada altruísta do nosso próprio eu para que jamais reconheçamos tal realidade.

Baseado numa história real, o filme acompanha Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um escravo liberto que é sequestrado e vendido novamente como um prisioneiro, chegando até as terras de Louisiana, onde é obrigado a servir o proprietário de escravos Edwin Epps (Michael Fassbender) e sua cruel esposa (Sarah Paulson).

A jornada de Solomon em busca da recuperação de sua liberdade é nada menos que angustiante. McQueen nos mostra a escravidão como ela é: impiedosa, dolorida e brutal. Famílias eram separadas, cicatrizes marcavam os corpos dos escravos através das incontáveis torturas que sofriam, corpos eram mutilados… entre diversas desgraceiras, McQueen desafia não apenas o próprio público a encarar aquela realidade hoje ignorada por muitos, como também indaga, sem medo, uma questão levantada pelos mais ressentidos: seria eticamente correto filmar a escravidão de tal maneira? Com seu filme, McQueen joga tal questão ladeira abaixo e ressaltada a importância do tema e a relevância da necessidade de ainda discuti-lo nos dias atuais.

Indo além do próprio tema, 12 Anos de Escravidão é um filme que evidencia a própria podridão do ser humano. Solomon é traído e enganado pelos mais próximos, é vitima de torturas que nem precisam de chibatadas para nos fazer agonizar de tão cruéis (como o plana-sequência onde Solomon é colocado pendurado a poucos metros do chão em uma árvore), e em determinado momento, é obrigado a açoitar a escrava Patsey (Lupita Nyong’o) até arrancar-lhe a pele. São momentos fortes como este que marcam 12 Anos de Escravidão, uma vez que o objetivo é, de fato, evidenciar os limites desconhecidos do ser humano, algo que McQueen o faz com louvor.

O elenco em ótima forma carrega o filme com um sentimento de verossimilhança ainda mais devastador. Chiwetel Ejiofor traduz em suas expressões sofridas a dor do que era ser um escravo negro na época, vitimas de injustiças e eternamente angustiado pela saudade que sentia de sua família. Michael Fassbender, em sua terceira parceria com McQueen, está monstruosamente assustador como o insano Edwin Epps, tendo ainda a seu lado uma surpreendente fria Sarah Paulson. Lupita Nyong’o comove com sua performance incrivelmente real da escrava Patsey, que sofre incontáveis torturas ao longo da projeção, no qual a atuação profundamente dolorida da atriz nos permite sentir na pela seu próprio sofrimento. Destacam-se ainda algumas participações pequenas, mas fundamentais de Benedict Cumberbatch, Paul Dano e Brad Pitt, também produtor do filme.

Longe de qualquer sentimentalismo exarcebado, 12 Anos de Escravidão é um filme que atinge o público em cheio, sem necessitar de apelações para isto – temos apenas a verdade como ela é. Não é uma experiência fácil, mas será merecidamente recordada como uma das grandes obras sobre o tema da escravidão.

12 Anos de Escravidão (12 Years a Slave, EUA, 2013)
Roteiro: John Hidley e Steve McQueen
Direção: Steve McQueen
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Brad Pitt, Quvenzhané Wallis, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Sarah Paulson, Michael K. Williams, Paul Giamatti, Lupita Nyong’o
Duração: 133 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.