Crítica | 12 Horas para Sobreviver – O Ano da Eleição

estrelas 4,5

12 Horas para Sobreviver – O Ano da Eleição poderia tranquilamente se chamar “Quando James DeMonaco encontra Freud e Dostoiévski”. Ao contemplar as eletrizantes cenas de ação deste terceiro capítulo da franquia de sucesso, para os que leram e se impactaram, torna-se quase impossível não fazer associação com uma emblemática passagem de Os Irmãos Karamazov. De acordo com o autor de Crime e Castigo, “em todo homem, é claro, habita um demônio oculto: o demônio da cólera, o demônio do prazer voluptuoso frente aos gritos da vítima torturada […].”

Diante do excerto literário acima, o filme de James DeMonaco torna-se ainda mais potente. Nos anos 1980, o renomado geneticista Oswaldo Frota Pessoa, da USP, conhecido por estudar o comportamento humano, apontou numa reportagem que o instinto violento do homem faz parte de sua herança biológica. Será? Outros contrapõem esse discurso, mas o especialista reforçava a sua tese alegando que esta imanência ganha mais projeção de acordo com o ambiente de convivência. Se olharmos novamente para o filme em questão, tais afirmações se complementam e criam um feixe reflexivo ideal para pensar o “mal-estar da civilização” contemporânea.

Por falar em mal-estar, civilização e violência, é um efeito quase automático citar Freud, pai da psicanálise que explicou a agressividade se embasando na sua teoria pulsional.  A discussão não era exatamente uma novidade. Em 1908, Alfred Adler teorizou sobre “pulsão de agressão”, tendo Freud como seu leitor. O psicanalista aderiu aos pressupostos, divergiu levemente e esboçou a sua teoria sobre o assunto, culminando no icônico O mal-estar da civilização, de 1929, um texto quase sempre citado quando alguém se propõe a pensar a violência numa instância analítica e reflexiva.

12 Horas para Sobreviver – O Ano da Eleição, por sinal, parece uma versão cinematográfica da teoria freudiana, salva, claro, as devidas proporções. No filme Charlie Roan (Elizabeth Mitchell), senadora e candidata ao cargo de presidente dos Estados Unidos, promete acabar com o dia do expurgo. O problema é que algumas pessoas e instituições não estão interessadas nestas mudanças que visam a atual conjuntura, tal como os casos políticos golpistas da “vida real”.

Paralelo ao conflito político da senadora há a busca pela sobrevivência de Joe e Marcos, negro e mexicano, respectivamente, homens que precisam lutar pela sobrevivência e pela manutenção de seu estabelecimento comercial face aos criminosos e assassinos que saciam os seus “instintos de violência” durante o período do expurgo. Há um momento em que as histórias paralelas se encontram, e de forma orgânica e didática, atuam juntas para o sucesso narrativo do filme.

Nesta terceira e eletrizante parte da franquia de James DeMonaco, cineasta que também assina o roteiro, os aspectos semióticos são contundentes ao exibir uma crítica ao clima político mundial estadunidense: a senadora pode ser uma alegoria para o embate entre Hillary Clinton e Donald Trump. De um lado, uma mulher na política, com ideias e projetos liberais, enquanto do outro lado, na pele dos opositores, temos pessoas que pregam valores morais e religiosos, mas que apoiam o comportamento sádico e sangrento da violência institucionalizada do expurgo.

Em Uma Noite de Crime, primeiro momento da franquia, o expurgo é estabelecido e os acontecimentos gravitam em torno de um representante comercial que trabalha numa empresa de segurança. Na noite programada para o ato de liberação geral dos roubos e assassinatos sem penalização, numa tentativa de diminuir a criminalidade durante todo o ano, o profissional ironicamente tem a sua residência ameaçada. Em Uma Noite de Crime – Anarquia, o ritmo continua impactante, com alguns poucos deslizes, numa trama que acompanha três histórias paralelas sobre pessoas comuns tentando sobreviver ao expurgo.

Conduzido de maneira bem focada, 12 Horas para Sobreviver – O Ano da Eleição, é um exemplar bem sucedido da franquia, pois analisa de forma deitada como este feriado afeta a sociedade. Qual contingente populacional mais sofre com este dia? As camadas populares em suas casas e bairros inseguros ou a elite privilegiada em suas torres de conforto? Outra questão instigante é sobre quem ganha com esta situação. Estamos falando dos Estados Unidos, terra do american way of life. A resposta, caro leitor, não é difícil, mas trata de um tema complexo: as multinacionais que lucram com a fabricação de armas e itens de segurança.

Outro ponto positivo é a forma como a personagem da senadora é delineada: no passado ela viu toda a sua família morrer de maneira violenta em um dia de expurgo. Por conta disso, um dos seus interesses políticos é revogar este “feriado” e elaborar projetos diferentes para discutir a violência, uma questão bastante presente no cotidiano das reportagens, dos filmes e do modo de viver dos estadunidenses.

Híbrido entre suspense, terror e ação, o filme parece uma narrativa urbana dos 1980, preocupado em deflagrar o caos estabelecido pela guerra civil no dia do expurgo. A violência, tema criticado no filme, por sua vez, ganha contornos metalinguísticos. James DeMonaco fala sobre o assunto, mas também o utiliza como elemento estético, apresentado de maneira bastante gráfica para causar no espectador, juntamente com a catarse de ordem psicológica, a repulsão física.

Ao longo dos seus 104 minutos, a violência em 12 Horas para Sobreviver – O Ano da Eleição é romantizada, poética, visceral, elemento básico para contar a história, mas diferente dos usos mais oportunistas, tais como filmes de terror explícitos que adoram chocar pela estética pura em si. Aqui, a embalagem é mais complexa: há um discurso forte, diálogos embasados e uma abordagem política inquietante que não vai deixar você sair do cinema indiferente.

12 Horas Para Sobreviver – O Ano da Eleição – (The Purge: Election Year) – EUA/2016.
Direção: James DeMonaco
Roteiro: James DeMonaco
Elenco: Christopher James Baker, David Aaron Baker, Edwin Hodge, Elizabeth Mitchell, Ethan Phillips, Frank Grillo, Jay Hieron, Joseph Julian Soria, Juani Feliz, Kimberly Howe, Kyle Secor, Leah Procito, London Hall, Mykelti Williamson, Noel Ramos, Pamela Figueiredo Wilcox, Raymond J. Barry, Shawn Contois, Stephanie McIntyre, Tanja Melendez Lynch, Terry Serpico
Duração: 109 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.