Crítica | 12 Monkeys – 3ª Temporada

estrelas 4,5

SPOILERS!

Fazer ficção científica não é fácil, especialmente quando o tema “viagem no tempo” está em jogo. A série 12 Monkeys não só nos tem dado três anos de excelente drama sci-fi, como também tem usado de maneira inteligente diversos paradoxos temporais para fazer os personagens mais ou menos andarem em círculos, tentando reescrever a História da humanidade, maculada pelo Exército dos 12 Macacos e por uma praga que colocou o planeta em um cenário apocalíptico.

Respeitando a jornada da 2ª Temporada, a série avançou, neste seu terceiro ano, para um estágio de luta direta entre os “manipuladores do tempo” e A Testemunha, que já havia sido revelada como filho de Cassandra e James. Primeiro a fuga, depois a perseguição e, por fim, o plano de eliminação. Como já sabemos muito bem a personalidade de cada um dos “jogadores” em cena, desde as suas atuais facetas até o lado obscuro e impulsivo, achamos que não haverá surpresa em relação às tomadas de decisão ao longo da temporada, mas é aí que nos enganamos por completo. E esta é uma das melhores coisas de 12 Monkeys. Além de trabalhar com um conceito difícil e de forma muito inteligente, a série é imprevisível.

A variedade de cenários e referências continuam muito similares às da temporada anterior, enquanto a ideia de ciclo nos lembra a forma mais crua e pragmática com que os personagens viam o tempo e o futuro (ou passado?) da humanidade no primeiro ano do show. As alterações, porém, são mais pontuais, fazendo-nos aproveitar ao máximo a mudança de figurinos e direção de arte, que continuam excelentes na série. Separando os episódios que se passam em Titan dos que se passam no QG de Katarina, na Londres do final do século XIX ou os muito especiais, como Masks, com uma coreografia, roteiro e desenrolar dos fatos pensados para nos fazer tremer de ansiedade, temos um cuidadoso tratamento da equipe técnica para fazer com que personagens e cenários ganhem identidades dessas épocas, elemento ajudado pelas boas atuações de todo o elenco. O que não muda, e por uma questão muito importante, é a direção de fotografia.

Ao longo de todo o arco de Cass e Cole em busca da Testemunha e a virada do jogo com Olivia (a atriz Alisen Down enfim ganha mais espaço para brilhar e interpretar variações maravilhosas de sua personagem) ganhando poder, ou, como Jennifer já havia previsto, colhendo os resultados que tinha cuidadosamente planejado, vemos que existem dois grandes padrões de cor para os quadros e para os lugares. O predominante é o azul, indicando esvaziamento, um caminho de divagação e soltura que seria retomado do meio para o final do serial. O outro é a paleta de tons térreos, chegando ao ponto máximo em Nature, o episódio onde vemos a verdadeira origem do Exército dos 12 Macacos, o aproveitamento do luto de indivíduos para criar um culto que atravessaria décadas e plantaria um ideal que se ergueria, tornar-se-ia cada vez mais selvagem e conseguiria ter o poder de guiar uma parte do destino da humanidade.

Com as brigas entre os “mocinhos” e a perseguição de valores morais, vemos a história se tornar uma caça em duas vertentes, sem jamais enfraquecer nenhum dos lados. Digamos que apenas o início da temporada tem passos um tanto mais lentos ao mostrar como as coisas se organizarão para chegar aos grandes conflitos, mas não é algo que limite a criatividade ou diminua de fato a qualidade da temporada, especialmente porque o capítulo de encerramento, Witness, é uma verdadeira aula de como escrever um roteiro conclusivo sem correria; fechando algumas janelas de dramas parciais, mantendo os mistérios certos para o futuro e lançando algumas dúvidas para o espectador, sendo a principal delas “por quê Katarina hesitou em atirar em Athan?” Ao vê-lo, dentro da casa, ela certamente o reconheceu. Seria ele o pai de Hannah?

O destaque que vemos Olivia ganhar no último episódio é um baque que para algumas interpretações pode ter cara de anticlímax. Eu consigo entender esta visão, mas entendendo também como o curta e o longa que deram origem à série foram construídos e apontaram para um ciclo, uma repetição e consequências que se entrelaçam e dão origem a uma realidade similar, não necessariamente nova, se comparada à anterior. E é exatamente isso que temos aqui. Mais um ciclo se fecha e a realidade permanece quase a mesma. Todavia, nós agora entendemos de verdade como é esta realidade. A cada novo ciclo, novos jogadores, forças e missões são delineados e o tempo parece fazer de tudo para manter as coisas do jeito que estão. Com isso em vista, fez bastante sentido que a 4ª Temporada da série tenha sido anunciada como a última. Apresentado a um padrão de histórias e visto como ele se alterou em dois cenários de mutação temporal diferentes, é hora de chegar ao ponto final, às mudanças causadas por todos aqueles que agora conhecemos.

Sem ter medo de perder o público por representar amplos conflitos morais e familiares em um contexto já intricado de viagens no tempo, os roteiros de 12 Monkeys nesta temporada nos fizeram pensar sobre o quão dispostos estaríamos para crucificar quem amamos em prol da humanidade, a favor de um ideal. A premissa não é nova na TV, mas neste contexto de viagens no tempo e de planos levados a cabo por diferentes grupo de pessoas, certamente ganha um novo sabor. O amor e o tempo estão na mira da Testemunha. Nada é o que parece. O início do fim começou e já podemos lacrimejar pelo fim da série, por antecipação.

12 Monkeys – 3ª Temporada (EUA, 2017)
Criadores: Terry Matalas, Travis Fickett (inspirado no roteiro de La Jetée, de Chris Marker e no roteiro de David Webb Peoples, de Os 12 Macacos).
Direção: Terry Matalas, David Grossman, Joe Menendez, David Greene, Kat Candler, Steven A. Adelson, Grant Harvey
Roteiro: Terry Matalas, Sean Tretta, Christopher Monfette, Travis Fickett, Kristen Reidel, Kristen Reidel, Ian Sobel, Matt Morgan, Adam Sussman, Tony Elliott
Elenco principal: Aaron Stanford, Amanda Schull, Kirk Acevedo, Barbara Sukowa, Emily Hampshire, Andrew Gillies, Todd Stashwick, Demore Barnes, Alisen Down, Murray Furrow, Tom Noonan, Brooke Williams, Peter DaCunha, Faran Tahir, Jack Fulton, James Callis, Dylan Colton
Duração: 43 min. (em média, cada episódio)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.