Crítica | 13 Assassinos

Miyamoto Musashi talvez tenha sido o maior guerreiro de todos os tempos. Sua história, como ronin durante o Japão feudal do final do século XVI até metade do século XVII é inspiradora. Jamais foi derrotado em duelo e escreveu livros sobre estratégia de batalha que até hoje são estudados. Um de seus ensinamentos mais famosos é: “Um homem sozinho pode derrotar dez, então cem homens podem derrotar mil e mil podem derrotar dez mil. Em minha estratégia, um homem é o mesmo que dez mil e essa estratégia é a completa arte do guerreiro.”

E a história do mundo tem múltiplos exemplos de como Musashi estava correto. Da famosa batalha de Termópilas, passando por Agincourt e até mesmo a defesa da Inglaterra pelos pilotos britânicos em seus Spitfires durante a Segunda Guerra Mundial, a força de vontade do ser humano em conjunto com a vontade de viver e a de proteger é responsável por feitos incríveis.

E, com essa introdução, temos 13 Assassinos, filme de 2010 do prolífico diretor japonês Takashi Miike, que só estreou no Brasil nesse fim-de-semana. A obra, uma refilmagem de Jûsan-nin no shikaku, de 1963, pelo diretor Eiichi Kudo, é baseada muito vagamente em fatos verdadeiros, passados pelos idos de 1840, no crepúsculo da era do xogunato e dos samurais.

Na trama, Lorde Naritsugu Matsudaira (Gorô Inagaki) é intocável em seu status de filho do xogum anterior e irmão do atual. Assim, ele faz o que ele quer e sua natureza demoníaca o transformou no terror da região. Ele mata, mutila e estupra a seu bel prazer. Sir Doi Toshitsura (Mikijiro Hira), um membro do xogunato infeliz com essa situação insustentável, recruta o serviço do velho e honrado samurai Shinzaemon Shimada (Kôji Yakusho) para eliminar o câncer da região. Mas é uma missão suicida, sem a chancela do próprio xogum. Shinzaemon, por sua vez, emprega os serviços de mais onze samurais e, juntos, partem para enfrentar o exército de Lorde Naritsugu, capitaneado pelo também samurai Hanbei Kitou (Masachika Ichimura), antigo colega de Shinzaemon. O 13º membro da equipe, o estranho caçador Kiga Koyata (Yûsuke Iseya), é recrutado ao longo do caminho.

Miike investe uma boa parte do tempo de sua obra para montar o cenário da longa cena final de batalha. Logo de início, ele nos brinda com uma bela, mas dolorosa cena em que um lorde do clã Akashi, para demonstrar seu descontentamento com as atrocidades de Lorde Naritsugu, comete seppuku (na verdade, ele comete uma variação ainda mais tenebrosa dessa categoria de suicídio, sem o auxílio de um segundo samurai, para decapitá-lo). O momento já nos prepara para o tom do filme, ainda que Miike tenha, proposital e sabiamente, economizado nos detalhes sanguinolentos. Vemos o rosto do nobre se contorcendo, mas nunca a barriga aberta pelo tantô. Um magistral momento de dor, tristeza, honra e indignação.

Em seguida, temos o recrutamento de Shinzaemon e o trabalho de convencimento que Sir Doi tem que fazer. Afinal de contas, o pedido é incomum e a honra do velho samurai o impede de ir contra os desejos do xogum. Mas Sir Doi não precisa se esforçar pois vários exemplos dos horrores cometidos por Lorde Naritsugu são desvelados à nossa frente, não deixando margens à dúvidas de que esse homem tem que morrer. E fica a pergunta, de toda forma: um samurai deve seguir seus sentimentos ou seu mestre (no caso, o xogum)?

O interessante é que a verdadeira motivação de Shinzaemon, mesmo depois de seu convencimento, é claramente egoísta, ainda que muito honrosa. Afinal de contas, ele sabe que o tempo dos samurais está acabando. A paz reina no Japão e a função desses guerreiros desapareceu. A missão suicida proposta por Sir Doi é uma forma de morrer lutando por uma causa que realmente vale à pena. É uma oportunidade, talvez a última, de se tornar imortal.

No entanto, todo o filme converge para seus 40 minutos finais, em que os 13 assassinos, depois de fortificarem um vilarejo inteiro, partem para o ataque. São 13 contra 200, mas essa situação, talvez inverossímil, é claramente inspirada pelos ensinamentos de Musashi. Miike também mantém a verossimilhança ao empregar artifícios que dividem o exército de Lorde Naritsugu, mas, claro, há que se ter uma boa dose de suspensão da descrença para aceitar as sensacionalmente bem coreografadas lutas que vemos a seguir.

Diferentemente de muitos filmes de lutas marciais recentes, Miike tenta evitar malabarismos e o chamado wire-fu. Cada um dos embates é visceral, talvez muito próximo de uma situação verdadeira. Até o trincar das espadas tem sons próprios, desagradáveis e pouco nobres. Seria o som da morte se aproximando?

É bem verdade, porém, que Miike não tenta dar tons sutis à sua obra. Os maus são maus e os bons são bons. Não há meio termo, talvez com a única exceção sendo Hanbei, que age de forma relutante, por dever, não por querer. Nem mesmo Shinzaemon é trabalhado muito além de sua apresentação como alguém quase sem falhas. Mas não há que se falar em personagens rasos, apesar dessa aparente unidimensionalidade. 13 Assassinos é mais do que o somatório de suas partes e funciona como uma parábola sobre o bem contra o mal, emulando, de certa forma, o que o mestre Akira Kurosawa nos apresenta no irretocável Os Sete Samurais.

Vale perceber o notável trabalho de câmera e de edição já que, mesmo na confusão da batalha, nunca verdadeiramente deixamos de entender o que está acontecendo e quem está lutando com quem. E Miike ainda muda os pontos-de-vista a todo o momento, trazendo para próximo dos espectadores, quase em primeira pessoa, as agruras passadas por cada dupla de samurais.

No entanto, aqueles que esperarem um espetáculo sanguinolento na linha de Ichi, The Killer (2001), vão se desapontar. Não que falte imagens perturbadoras. Só que elas não são escancaradas. Assim como no seppuku descrito acima, Miike investe mais nas reações dos combatentes do que no derramamento de litros de sangue. E tudo funciona muito bem, com apenas alguns efeitos aqui e ali – como no momento dos touros pegando fogo – demonstrando inadequações.

Vale lembrar, por último, que o corte que estreou no Brasil é o internacional, de 126 minutos e é esse que está sendo comentado aqui. Mas a versão original japonesa tem 141 minutos e emprega um pouco mais tempo no 13º assassino, o caçador Kiga, que tem um destino muito interessante no filme, levantando mais perguntas do que respostas. No entanto, mesmo no corte disponível, o mistério está lá. É só saber procurar.

13 Assassinos (Jûsan-nin no shikaku, Japão/Inglaterra, 2010)
Direção: Takashi Miike
Roteiro: Kaneo Ikegami e Daisuke Tengan
Elenco: Kôji Yakusho, Takayuki Yamada, Yûsuke Iseya, Gorô Inagaki, Masachika Ichimura, Mikijiro Hira, Hiroki Matsukata, Ikki Sawamura, Arata Furuta, Tsuyoshi Ihara, Masataka Kubota, Sôsuke Takaoka, Seiji Rokkaku
Duração: 126 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.