Crítica | 14 Estações de Maria

estrelas 4

Maria, 14 anos, adolescente inserida no mundo contemporâneo. Família tradicional, de uma comunidade que procura preservar as tradições do catolicismo anteriores ao Concílio Vaticano II. Devoção. Predestinação. Dogmatismo. Fanatismo? Maria está entre dois mundos. Desejos pessoais de uma adolescente são colocados em xeque com sua religiosidade. A busca incessante por sacrifícios que podem ser feitos para atestarem sua fé faz com que ela carregue uma cruz. Maria é Jesus.

O longa-metragem alemão 14 Estações de Maria, do diretor Dietrich Brüggemann, é uma ficção. Todavia, é também uma alegoria para reflexões pertinentes ainda no século XXI.  Ataques terroristas, mortes em nome de um Deus, guerras e invasões justificadas por mentiras, a fusão incabível da política com valores pessoais. Católicos, islamitas, judeus, palestinos, israelenses, europeus, estadunidenses, europeus, brasileiros. A temática embutida no filme de Brüggeman não poderia ser mais atual e vale para toda a conjuntura política e social do mundo atual. Até que ponto a defesa de uma ideologia vira uma obsessão facciosa que deixa de ser um alicerce de conforto para se tornar um mártir?

A divisão da película é realizada de maneira no mínimo curiosa. O título original do filme, Kreuzweg, faz referência a uma série de 14 imagens que descrevem Jesus Cristo no dia de sua crucificação, conhecidas como Via Crúcis. E é desta forma que decorre a segmentação de 14 Estações de Maria. O número de cenas da representação sacra é o mesmo de cada parte do filme, e todas elas recebem o nome de um dos símbolos da Via Crúcis, seguindo a devida ordem dos acontecimentos sucedidos com Jesus que, no caso, é metaforizado por Maria.

A ambientação do longa nos remete a uma imprecisão cronológica. De início, não sabemos muito bem qual a época retratada. A primeira parte, “Jesus é Condenado à Morte”, é praticamente um monólogo do Padre Weber (Florian Stetter) com um grupo de crianças e adolescentes prestes a crismar. Entre eles, está Maria (Lea van Acken). A fala extremamente religiosa que reforça o conceito de “soldados de Deus” e à crítica de “músicas e costumes satânicos” dá uma aspecto medieval e radical para todo o discurso. Essa estrutura rígida quase atemporal é mantida durante toda a película, exprimindo a própria inflexibilidade, austeridade e conservadorismo do fanatismo religioso. Entretanto, as pequenas referências aos momentos claramente contemporâneos são suficientes para lembrar o espectador de que essa obstinação por uma ideologia é um empecilho presente também no mundo contemporâneo.

Maria quer ser santa. E esse é seu maior pecado. A não aceitação de sua importância no plano terreno é interposta com a busca por uma explicação do motivo de seu irmão mais novo, com quatro anos, ainda não falar. A grande difusão do catolicismo após a queda do Império Romano, tornando a religião o principal pilar da Idade Média, deveu-se à precariedade da vida. No âmbito familiar de Maria, não é diferente. A rigidez da mãe (Franziska Weisz), que impede a criação de uma relação de fato afetiva entre elas; a discriminação sofrida na escola por sua religiosidade extrema — que a impede, por exemplo, de ouvir músicas comuns para outros adolescentes —; os problemas do irmão mais novo; a barreira criada pela família diante seu relacionamento com aquele que, possivelmente, seria seu primeiro amor. Para Maria, o único pretexto para sua razão de viver é Deus. E, da mesma forma como ocorreu no início da Idade Média, é a precariedade de sua vida que causa o enorme apego com o cristianismo.

A rigidez e a sistematização do cotidiano da adolescente são frequentemente reforçadas ao espectador — e é basicamente nisso que consiste o enredo da película. Como o filme é composto quase que totalmente por diálogos e monólogos, a maior parte deles aborda a questão do fanatismo religioso e de como isso afeta a vida de Maria e daqueles que tentam se aproximar deles. E esse é um aspecto que não agrada a todos em 14 Estações de Maria. A constante apresentação de tais conceitos pode parecer fastidiosa e repetitiva, o que, de fato, dificulta a criação de um vínculo entre o espectador e o longa.

Além do enredo, outro ponto que também corrobora na representação do fanatismo e inflexibilidade é a fotografia sensacional de Alexander Sass. Cada parte foi gravada em uma única tomada, com a câmera fixa — salvo alguns raríssimos momentos, como a espetacular cena final. As repercussões da escolha de tal recurso estilístico causam exatamente o efeito buscado pelo diretor ao remeter o título e o nome de cada parte à Via Crúcis. O fato da câmera não se mexer causa uma sensação de rigidez e austeridade, como para representar os sentimentos da própria Maria. Para mais, as cenas estáticas também convidam o telespectador a assistir à própria Via Crúcis. A sensação de que somos observadores, afastados das personagens é inevitável. A própria ausência de movimento da câmera já nos remete a imagens, ícones, pinturas. Como se estivéssemos em uma igreja observando a representação da crucificação de Cristo.

14 Estações de Maria choca. Choca por sua crueza, por estampar uma realidade que está em nosso mundo e, muitas vezes, escolhemos ignorar. “Religião não se discute” — será mesmo? A liberdade de crença deve ser um direito de todos; mas ainda assim devemos questionar o que nos está sendo imposto e até que ponto nossa fé interfere na vida de terceiros, estejam eles compartilhando ou não alguma doutrina. E é exatamente para isso que o filme de Brüggemann apela. Maria pode ser personagem de um filme. Contudo, também pode ser as diversas pessoas que morreram em nome de um Deus. As incessantes guerras travadas em nome de um Deus. As múltiplas “Marias” do mundo real estão por aí e constatam as consequências do fanatismo. Fanatismo esse que deve ser combatido e questionado para que a fé deixe, enfim, de ser um mártir.

14 Estações de Maria (Kreuzweg) — Alemanha, 2014
Direção: Dietrich Brüggemann
Roteiro: Dietrich Brüggemann, Anna Brüggemann
Elenco: Lea van Acken, Birge Schade, Florian Stetter, Franziska Weisz, Hanns Zischnler, Lucie Aron, Michael Kamp, Moritz Knapp, Georg Wesch, Chiara Palmeri, Linus Fluhr, Ramin Yazdani
Duração: 107 min

GABRIEL TUKUNAGA. . . . Da Sala Precisa de Hogwarts ao Overlook de Jack Torrence, sempre fui fascinado por lugares inóspitos e indecifráveis — ainda que fictícios. Da paixão ao inexplorado, surgiu a incessante busca pelo lugar de pertencimento. Como não faço questão de resolver esse inconveniente agora, tornei-me um entusiasta que ainda tem a pueril esperança de mudar o mundo. Cinéfilo, admirador dos livros, da História e da política, ainda tento sondar e conhecer mais cada um desses itens que, felizmente, jamais poderão ser totalmente decifrados.