Crítica | 1917 – O Outubro Real

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Em 2017 a Revolução Russa completa um século. Ou as Revoluções Russas, se considerarmos as duas quebras de poder e grande mobilização com ideais, programas de governo — ou quase isso — e seguidores bem diferentes que se deram no país dos Czares em fevereiro e outubro de 1917. Neste O Outubro Real, a diretora Katrin Rothe faz um incrível exercício de micro-e-macro-História, valendo-se de relatos de alguns artistas e/ou pessoas ligadas aos governos de transição no ano revolucionário e, com eles, estabelece questionamentos a respeito do poder da Arte na construção, interpretação e julgamento da História.

Lançando mão de uma simpática linha metalinguística, a cineasta começa o filme comentando sobre o seu método de criação do documentário e do por quê ela escolheu este período da História para pensar sobre. Falando da influência de Sergei Eisenstein em seu imaginário a respeito da Revolução Russa, Rothe começa nos mostrando o seu lugar pessoal de reconstituição histórica, um cômodo com uma linha do tempo pintada em vermelho onde ela vai pregando os meses e adicionando cartazes, fotos, notícias de jornal e imagens que retratam os acontecimentos entre os decisivos oito meses da História Rússia no início do século XX, começando com o sofrimento do país na Primeira Guerra Mundial e terminando com um breve apanhado sobre o futuro dos artistas que o espectador acompanha ao longo da obra.

Através de animação em stop motion, com mínimos elementos de 2D, painéis de colagens, personagens feitos de material reciclado e aviamentos (papelão, plástico-bolha, cartolina, pedaços de tecido, botões) e quadros inspirados no Futurismo (ou a versão russa para o Manifesto de Marinetti), a diretora fala de sua intenção em apresentar uma versão desses acontecimentos através de pesquisa feita com um foco particular: os relatos escritos no período deixados por Vladimir Maiakóvski (poeta, dramaturgo e teórico), Kazimir Malevich (pintor abstrato da vanguarda russa, mentor do Suprematismo), Zinaida Gippius (poetisa, dramaturga, cronista e crítica literária), Maksim Górki (dramaturgo, contista e romancista) e Aleksandr Benois (artista plástico, crítico de arte e historiador de arte).

Com base nesses relatos pessoais — que inclusive recebe uma leitura crítica da diretora, apontando as inconstâncias no discurso de algumas dessas personalidades, especial de Górki –, o público é convidado a conhecer principalmente o que aconteceu entre essas duas revoluções. Porque a História, em diversas linhas de análise, nos saturou com os eventos dos dois grandes momentos. Em fevereiro, com a população já faminta devido aos gastos do país com a Primeira Guerra e a diminuição da força de trabalho no ator agrário, pecuário e ocupações relativas (boa parte dos homens estavam no front), dá-se a deposição do Czar Nicolau II  e o estabelecimento de uma república “integrada politicamente” e de cunho liberal. Em outubro, o golpe do Partido Bolchevique no Governo Provisório de Alexander Kerensky, levante apoiado por partidos socialistas de vertentes paralelas que impuseram o governo socialista soviético, assumido por Lênin, que ficaria no cargo até a sua morte, em 1924.

Mas entre estes dois pontos estamos em uma área cinza que até mesmo para os historiadores é difícil de organizar e problematizar. A quantidade de eventos artísticos, sociais e políticos acontecendo; as disputas entre diversos partidos de vertente coletivista e o constante uso da violência para fazer valer a voz de cada grupo revoltoso são trazidos à tona e sob visões à esquerda e à direita perfeitamente contextualizadas pela diretora e roteirista. Não há o cacoete que muitos cineastas contemporâneos cometem, de documentar épocas históricas definindo “lados” políticos sob a visão e caraterísticas que possuem no tempo em que o filme foi feito e não quando o evento aconteceu. Deste mal, Outubro Real não padece. E o mais interessante é que as cartas, crônicas, poemas, diários e trechos de artigos e jornais que são dramatizados na obra mostram a confusão e até a mudança de pensamento daqueles artistas durante o período.

Há apenas um elemento em 1917 – O Outubro Real que pode fazer toda a diferença para espectadores menos afeitos a obras de cunho teórico-histórico. Chega um ponto em que o desenvolvimento do enredo se torna lento e o que vem disso passa a ser um julgamento puramente pessoal. Para mim, apesar de reconhecer esta lentidão, não creio que ela teve tanto impacto e nem interferiu negativamente na obra. Mas é certo que isto vai alcançar outros espectadores de maneira bem diferente.

Para historiadores ou simplesmente para quem gosta de História, para os que realmente se importam em discutir o que é Arte, para indivíduos que falam de política e se interessam por História e Cultura Russa, este documentário essencialmente feito em animação é uma joia curiosa a respeito da Revolução de 1917, trabalhando exclusivamente com documentos pessoais e lançando outras luzes sobre o evento. Um precioso lembrete de que a História é feita por versões dos fatos. E principalmente, de que esta área do conhecimento é alheia a verdades absolutas.

1917 – O Outubro Real (1917 – Der wahre Oktober) — Alemanha, Suíça, 2017
Direção: Katrin Rothe
Roteiro: Katrin Rothe
Elenco (vozes): Maximilian Brauer, Inka Friedrich, Arne Fuhrmann, Klemens Fuhrmann, Claudia Michelsen, Martin Schneider, Hanns Zischler
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.