Crítica | 1945

Uma das frases filosóficas mais transformadas em lemas de autoajuda e escritos de caminhoneiros é a socrática “É melhor sofrer o mal do que cometê-lo”. Mais do que simplesmente dar a outra a face, Sócrates intencionava indicar que há algo pior do que, por exemplo, ser assassinado: conviver com o assassino em sua consciência pelo resto da vida. Sua biografia e morte trágica provaram sua convicção nesta tese.

1945, filme húngaro situado no fim da Segunda Guerra – como a data sugere –, acaba retratando a paranoia provocada pela má consciência em um simples vilarejo. Tudo no filme, aliás, é bem simples. Ao contar a história da população local quando dois homens misteriosamente chegam no dia de um esperado casamento, o diretor Ferenc Török aposta em uma narrativa objetiva e de curta duração, sem grandes surpresas, ainda que carregada por uma razoável dose de suspense.

Filmes que flertam com a temática da Segunda Guerra existem para todos os gostos. O título da presente obra, nesse sentido, fica longe de ser atrativo. É realmente insosso. Mas, felizmente, a película se sobressai por sua despretensão. Evitando todo didatismo – ainda que nem todo maniqueísmo – e ditando fluidamente o roteiro que co-escreveu com Gábor T. Szántó, Török conduz de forma sólida o suspense em torno dos dois homens recém-chegados no primeiro terço da obra. O belo trabalho de ambientação é capaz de retratar uma pequena vila viva, dinâmica no grande dia do casamento sem transparecer qualquer tom de verdadeiro júbilo, graças, também, à presente trilha de Tibor Szemzö.

Mais do que tudo, a fotografia em preto e branco auxilia na centralização da trama e do tema. Não é raro ocorrerem utilizações exageradas desse filtro – pensando no bom, mas superestimado Nebraska e em qualquer outra versão alternativa de Logan ou Mad Max. No microcosmo de 1945, o preto e o branco elevam a naturalidade e a modéstia do conto à elegância. Pode até ser desnecessária tal escolha, mas ela acaba por ajudar a tornar o filme mais singelo sem deixar de tocar em feridas críticas.

É neste ponto, porém, que o filme pode gerar controvérsia. Não por ser ácido, mas exatamente por ser, basicamente, uma fábula moralista. Na minha visão, que fique claro, é nessa simplicidade de roteiro que reside seu grande mérito. Ao sutilmente orientar seu público às possibilidades mais mirabolantes e tramoias mais surpreendentes, o filme joga com o nosso próprio vício paranoico em querer ver mais onde não há. Reduzindo seu escopo e sua ambição, a obra de Török traz um moralismo fabulesco bem-vindo e bem dosado.

Não há como deixar de citar, por fim, o seguro trabalho de Péter Rudolf como István, pai do noivo e secretário da vila. Servindo como fio condutor da narrativa, István encarna todo um cinismo – no pior sentido possível – que se desvela aos poucos, com a devida calma. Um belo trabalho de ator e de diretor, principalmente na constituição antitética entre os comportamentos deste protagonista – que vai a todos os lugares na carona da motocicleta do filho – e dos misteriosos homens recém-chegados, decididos a andar com as próprias pernas em qualquer ocasião.

1945 não é uma obra-prima, mas consegue provar o valor de seu grande esmero. Constrói, inclusive, um corpo que exala velho-oeste. Sua atmosfera permanece após a sessão, tal como as reflexões propostas: é um filme que sabe desenvolver caos e serenidade com uma belíssima precisão. Ser simples, às vezes, é muito mais complicado do que apostar na complexidade.

1945  – Hungria, 2017
Direção: Ferenc Török
Roteiro: Ferenc Török e Gábor T. Szántó
Elenco: Péter Rudolf, Bence Tasnádi, Tamás Szabó Kimmel, Dóra Sztarenki, Ági Szirtes, József Szarvas, Eszter Nagy-Kálózy, Iván Angelusz, Marcell Nagy, István Znamenák, Sándor Terhes, Miklós B. Székely, György Somhegyi, Tünde Szalontay, Béla Gados, Mari Nagy, János Derzsi, Tibor Mertz, Bálint Adorjáni, Vivianne Bánovits, Rita Kerkay, Zsolt Dér, Gergö Mikola, Máté Novkov, Guyla Fehér, Boglárka Kósa, Miklós Hajdu, Géza Sziklai, Farkas Angelus, Vivien Rujder, Zoltán Rajkai, Nikita Ivanov, Jevgenyíj Liszjuk.
Duração: 91 min.

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.