Crítica | 1Q84 – Livro Um, de Haruki Murakami

  • Não há spoilers. Optei por criticar cada livro separadamente, sem ter lido o seguinte para evitar contaminações. Pode ser que a impressão de conjunto, ao final do Livro Três, altere a avaliação geral, corrigindo ou agravando os problemas detectados aqui.

1Q84 é considerado como o grande épico literário do autor japonês Haruki Murakami, que nos trouxe Norwegian Wood e Crônica do Pássaro de Corda, dentre outros. Composto por três volumes nada pequenos, dois deles publicados separada, mas simultaneamente no Japão em maio de 2009, seguido de um terceiro “surpresa” no ano seguinte, a obra exige investimento do leitor e isso pode não ser facilmente alcançado, ainda que o esforço possa ser gratificante.

Neste primeiro volume, o autor nos conta duas histórias em capítulos intercalados: (a) a de Aomame, uma professora de artes marciais e de alongamento, além de especialista em uma técnica que permanecerá sem explicação para evitar qualquer spoiler, que trabalha esporadicamente para a misteriosa “Velha Senhora”, e (b) a de Tengo, um professor de matética e aspirante a romancista que recebe uma proposta indecorosa, mas irresistível, de Komatsu, seu editor. São narrativas paralelas e que sequer se tangenciam por grande parte do Livro Um e que, quando se encontram, são apenas por brevíssimos momentos mais do que indiretos que vão se acumulando muito vagarosamente.

Murakami mantém seu mistério de maneira muito tranquila e não o revela de forma alguma aqui, ao ponto de ser até mesmo difícil classificar o tipo de obra, ainda que isso não seja importante. O título 1Q84, que, claro, brinca com 1984, não só o ano em que as histórias se passam, mas também o título (e o ano em que se passa) a clássica obra de George Orwell, é, da mesma forma, um inteligente jogo de palavras  com a homofonia da pronúncia da letra Q em inglês com a do número nove em japonês. Esses elementos casam com pequenas idiossincrasias inseridas na trama, ou melhor, apenas na história de Aomame que passa a constatar alterações naquilo que sabe sobre o mundo, começando pelas armas e uniformes da polícia japonesa e seguindo em um crescendo intrigante e também benignamente enervante justamente por não haver uma conclusão e pela personagem lidar com essas situações de maneira tranquila, quase blasé, ainda que não passiva. Com isso, seria possível concluir que se trata de um romance distópico, mas isso é, ao mesmo tempo, genérico e reducionista demais, já que os elementos que levam a essa conclusão são, neste Livro Um pelo menos, esparsos e distantes do cerne da narrativa.

Mas qual seria então o cerne? Essa resposta, se existe, não é fácil de alcançar. Permeando as duas histórias, há as claras discussões ético-morais da profissão escusa de Aomame de um lado e, de outro, da empreitada de ser ghost writer de um romance escrito por uma críptica adolescente chamada Fuka-Ere que Komatsu sugere a Tengo e que ele aceita, apesar de reconhecer os problemas inerentes a isso em uma daquelas escolhas de impulso que fazemos na vida. Além disso, Murakami procura trazer outros aspectos importantes que permeiam mais a história de Aomame: a posição da mulher na sociedade, a violência contra a mulher e contra crianças e possíveis caminhos para uma solução. No lado de Tengo, o aspecto mais relevante é a abordagem da relação pai e filho, algo que faz parte do trauma de infância do protagonista, além de uma intensa discussão sobre religiões organizadas de forma ampla e de cultos em particular, com uma narrativa que procura, suave, mas incisivamente, discutir a relevância deles na sociedade, seja positiva ou negativa. Por cima de todos esses elementos, há, ainda, um tema que me parece estar nas entrelinhas de toda a história: o ato de escrever e de contar histórias. De certa forma, é possível interpretar a narrativa como sendo ao mesmo tempo uma crítica e um elogio à profissão de escritor, em um belo uso de metalinguagem.

Sei que o parágrafo acima levantará sobrancelhas, por parecer que o autor quer mais é atirar para todos os lados, mas confiem em mim quando eu digo que a coisa funciona. Como mencionei, são duas histórias separadas que, pelo menos neste tomo, precisam ser encaradas assim por substancial parte do tempo. Não há um fim, não há o entrelaçamento de narrativas, não há sequer uma determinação muito clara do eixo central de 1Q84. Aliás, como a cereja no bolo que, confesso, pode mais afastar do que atrair leitores, não há ação no sentido mais comum da palavra. Na verdade, minto. Há uma sequência de ação – extremamente lenta – que serve para introduzir a tal profissão escusa de Aomame e só, mais nada. O restante todo é a vida com ela é nesse universo apenas muito levemente diferente do nosso, focando em dois personagens que só são parecidos pela forma solitária e frugal que vivem suas vidas.

No entanto, a leitura é estranhamente engajante, daquelas que realmente atiçam a curiosidade do leitor a cada capítulo e, surpreendentemente – pelo menos no meu caso – de maneira igualitária entre um protagonista e outro. As dúvidas de Tengo e os mistérios envolvendo o romance que ele decide reescrever e sua autora original são tão interessantes quanto a vida secreta de Aomame. A escolha estilística de intercalar as histórias religiosamente da mesma maneira, começando com Aomame, também ajuda muito na cadência narrativa, criando pequenos cliffhangers, por assim dizer, que tornam o longo livro quase sem ação um daqueles page turners como os americanos costumam qualificar.

Mas então, depois desses elogios todos, como explicar a avaliação em estrelas logo no começo, Sr. Crítico?

Essa é uma pergunta procedente, claro, mas ela deve ser temperada a partir da premissa inicial: trata-se de uma história lançada em dois livros que, depois, ganhou a adição de um terceiro. Assim como fazer críticas de uma série por episódio impede uma visão do todo e exige uma análise estanque, escrever sobre a primeira parte de uma trilogia – ou, no mínimo, uma “duologia” se considerarmos apenas os livros lançados simultaneamente – força o crítico a abordar de maneira isolada o trabalho. É perfeitamente possível que o todo seja muito melhor – ou muito pior, lógico – do que as partes e certamente farei esse tipo de análise quando da crítica do Livro Três.

Pelo momento, porém, o Livro Um tem problemas perceptíveis e que me incomodaram. O primeiro e mais marcante deles é o didatismo exacerbado. Falo, aqui, desde pequenas “intervenções” como definições e explicações de situações e passagens com diálogos canhestros que partem de perguntas que repetem o que o autor acha que precisa ser explicado apenas para que seja possível parágrafos inteiros de detalhamento do óbvio, até a reiteração de sentimentos e de pensamentos dos protagonistas, passando por passagens forçadas que citam longamente material literário e musical (este último uma marca do autor) que pegam o leitor na mão como se ele ou desconhecesse a citação em si, mesmo que por alto, ou simplesmente tivesse preguiça demais para conferir (o que não está longe da verdade, mas preguiça tem cura e ela certamente não passa pelo didatismo confortável). Com isso, alguns diálogos e, por vezes, alguns capítulos inteiros parecem parar a narrativa completamente para olhar para o leitor e dizer algo como “veja bem, seu ignorante preguiçoso, deixe-me explicar o que eu quis dizer sobre isso…”. Isso não só é de revirar os olhos, como simplesmente aumenta artificialmente a história, sem realmente acrescentar nada que não seja uma sensação de que o livro parece ter sido escrito parcialmente for dummies.

Outro elemento negativo, mas que carrega um alto grau de subjetivismo e que pode ser resultado do choque das culturas diferentes, é a abordagem do ato sexual propriamente dito. Não estou sendo purista aqui, pois não haveria problema algum se o autor escolhesse ser explícito em todas as sequências sexuais, o que ele não é. É apenas algo estranho, bizarro mesmo, beirando o fetichista e isso de ambos os lados da história, ainda que a questão esteja mais fortemente presente nos capítulos dedicados a Aomame que, em sua vida solitária, elege lidar com o desejo sexual com casos de uma noite só com homens aleatórios (mas bem específicos). Novamente, a questão não é a escolha dela, mas sim a forma como Murakami descreve os atos em si, resvalando na falta de gosto e na desnecessidade completa para informar seus personagens e suas motivações. Mas são momentos pequenos e não disruptivos da experiência como um todo.

Finalmente, há a marcha lenta do texto inteiro, algo muitas vezes consequência direta do didatismo. Claro, não computo nessa questão a ausência de um fim, pois o livro já nasceu “duplicado”. Mas, diferente, por exemplo, da trilogia literária O Senhor dos Anéis, em que cada livro conta uma história substancialmente fechada, aqui Murakami opta por simplesmente acabar sem uma lógica clara que não seja a de estabelecer, talvez, que o Livro Um é, ele todo, uma preparação para o Livro Dois. Não é um defeito em si mesmo, mas é uma escolha que pode irritar os mais afoitos e afastá-los depois de um investimento de tempo considerável para a leitura do primeiro volume.

1Q84 – Livro Um é, pelo menos nesse seu começo, menos do que uma leitura irretocável e mais uma intensa curiosidade, uma obra que marca a memória e faz o leitor pedir por mais. O caráter épico que muitos afirmam não está presente aqui considerando tanto o sentido original da palavra já perdido nas brumas do tempo quanto o significado genérico dado pela evolução da língua. Ao contrário, é um relato intimista de seus protagonistas que carregam duas interessantes histórias paralelas a um ponto de convergência que inevitavelmente virá em algum momento futuro (ou, pelo menos é isso que se espera). Sem dúvida é um investimento de longo prazo que não se paga no Livro Um, mas que deixa a esperança e, mais do que isso, o potencial para que os dividendos venham nos volumes seguintes.

1Q84 – Livro Um (Idem, Japão – 2009)
Autor: Haruki Murakami
Editora original: Shinchosha
Data original de lançamento: 29 de maio de 2009
Editora no Brasil: Editora Alfaguara
Tradução para o português: Lica Hashimoto
Data de lançamento no Brasil: 1º de novembro de 2012
Páginas (versão impressa brasileira): 407

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.