Crítica | 2010: O Ano Em Que Faremos Contato

estrelas 3

Em um primeiro momento, produzir uma sequência de 2001: Uma Odisseia no Espaço pode parecer uma ideia de extremo mal gosto, uma vez que, as comparações com o antecessor seriam inevitáveis. Porém, novamente com Arthur C. Clarke entre os roteiristas, o projeto foi adiante e  é surpreendentemente satisfatório, apesar de ser incomparável com a obra-prima de Stanley Kubrick

Em 2010 a Terra está à beira de uma destruição nuclear e os limites do Universo são atravessados por cientistas, liderados por Heywood Floyd (Roy Scheider), um americano, e por Tanya Kirbuk (Helen Mirren), uma russa. Os americanos e russos estão unidos em uma missão extraordinária: tentar resgatar a nave perdida Discovery e chegar a Júpiter para entender o mistério do monolito negro que vaga em silêncio no espaço.

Ao contrário do filme antecessor dirigido por Kubrick, que deixava para o público o papel de interpretar o que via, 2010: O Ano Em Que Faremos Contato peca justamente por duvidar da capacidade de quem assiste. O roteiro, escrito por Peter Hyams e Arthur C. Clarke, é extremamente expositivo em alguns momentos, como nas cenas onde Floyd envia mensagens para sua esposa descrevendo as ações e os riscos da missão.

Além disso, o único membro da missão com algum tipo de desenvolvimento é o Dr. Floyd e mesmo assim ele é explorado de maneira rasa, parecendo que sua família foi mostrada apenas para que o público lembre o que o protagonista tem a perder, sendo completamente ignorada no final. Já os demais membros da tripulação não possuem nenhum background, impossibilitando que o público se identifique com algum deles. Esses problemas impedem que haja um grande destaque entre as atuações, apesar dos bons nomes no elenco, como Roy Scheider e Helen Mirren, que aqui são apenas eficientes em seus papéis.

Aliás, todo o primeiro ato transmite certa pressa em apresentar as bases de sua história, criando instabilidade no ritmo do longa. Em apenas 15 minutos americanos aceitam trabalhar com russos e Dr. Lloyd convence sua esposa sobre ir para o espaço, resolvendo seus problemas de forma muito acelerada, impedindo que o público assimile o peso e importância daquela missão.

Já que o roteiro falha em aproximar seus personagens do público, resta que acompanhemos o desenrolar da missão espacial e nisso o filme é bem sucedido. Não apenas o trajeto até Júpiter é bem construído, colocando obstáculos plausíveis para a tripulação enfrentar, como os eventos ocorridos em 2001 são relembrados de forma competente logo na primeira cena, onde um resumo com imagens e informações destaca o que houve no longa anterior.

O trabalho de direção de arte contribui para evocar os eventos ocorridos no primeiro filme reconstruindo com perfeição a nave Discovery e trazendo a tecnologia de 2010 com o mesmo design de seu antecessor, criando certa linearidade entre os dois longas. Os efeitos especiais são igualmente impressionantes, ficando claro nas tomadas exteriores onde naves e planetas ficam em evidência. O que não se assemelha é a direção, uma vez que, enquanto Kubrick optou pela grandiloquência, através de planos que destacavam a complexidade e imensidão do universo, Hyams utiliza aqui na maioria do tempo planos fechados, criando uma sensação de confinamento e reforçando a tensão entre os personagens. A trilha sonora vai no mesmo caminho e, assim como a fotografia, insere um clima de aflição e temerosidade na obra.

Mas o grande destaque do filme está em sua abordagem sobre a Guerra Fria, utilizando o relacionamento dos personagens para ressaltar a tensão daquele período. Um exemplo disso é a cena em que Lloyd pede informações para ajudar a desvendar um problema e não é atendido simplesmente por ser americano, respondendo “não é porque nossos governos são idiotas que nós precisamos ser”. Além disso, o roteiro destaca como o mundo teria mais avanços caso não houvesse o bloqueio entre os dois países, repare como a partir do momento que russos e americanos passam a cooperar a missão avança com sucesso. Aliás, os roteiristas ainda são sensíveis em não colocar os soviéticos como vilões, como vários filmes daquele período fizeram, pelo contrário, aqui a história mostra o extremismo de ambos os lados, chegando a citar como é prejudicial para os EUA ter um presidente reacionário.

Mesmo que possa parecer uma ofensa produzir uma sequência de 20001: Uma Odisseia no Espaço, o longa é eficiente em mostrar o desenvolvimento da missão e traz uma bela reflexão sobre a Guerra Fria, culminando em um final extremamente otimista. Claro que se comparado ao seu antecessor, 2010: O Ano Em Que Faremos Contato cai brutalmente, mas, com exceção de Solaris, qual ficção científica não diminui frente a obra-prima de Stanley Kubrick?

2010: O Ano Em Que Faremos Contato (2010: The Year We Make Contact) – EUA, 1984
Direção: Peter Hyams
Roteiro: Peter Hyams, Arthur C. Clarke
Elenco: Roy Scheider, John Lithgow, Ezio Greggio, Helen Mirren, Bob Balaban, Keir Dullea, Douglas Rain, Madolyn Smith Osborne, Dana Elcar, James McEachin
Duração: 116 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.