Crítica | “21” – Adele

estrelas 5,0

Em 2011, uma cantora britânica na flor dos seus 21 anos – completando a maioridade se estivesse em terras americanas – colocava em seu segundo álbum todo sofrimento de suas decepções amorosas. Aquela jovem chamada Adele viria a conquistar uma quantidade devastadora de fãs, bater recordes atrás de recordes com seu disco e sair da premiação do Grammy de 2012 mal conseguindo segurar a quantidade de troféus em seus braços. Considerando que a cantora conseguiu fazer de 21 o disco mais vendido da era moderna da música em tempos onde há diversos serviços de streaming e extrema facilidade de se fazer downloads ilegais, é seguro afirmar que Adele já deixou uma marca enorme na história da música.

Vender milhões de cópias nem sempre significa que o artista possui um primor técnico ou um talento único. Eu poderia citar inúmeros exemplos, mas acho que seu bom senso fará um bom trabalho a respeito de tal afirmação. O interessante é que no caso da cantora, o sucesso e os recordes de 21 são extremamente merecidos. Adele já mostrava enorme talento em seu trabalho de estreia, 19, mas viria a ser apenas em 21 que a cantora abalaria a indústria da música. Sem precisar se apoiar em aparência ou quaisquer fatores secundários, Adele se destaca unicamente pela doçura de sua música.

Em tempos onde o auto-tune dita as ordens e o eletrônico apaga o orgânico, a cantora vai contra a corrente. A produção de 21 é definitivamente um modelo a ser seguido. Logo na entrada do álbum, perceba a fantástica Rolling In The Deep, por exemplo. Perceba a progressão: inicialmente acordes de violão acompanhando a voz, em seguida entra a bateria, depois o piano e, por último, os backing vocals no impactante refrão onde Adele chega ao clímax de sua voz. Se pergunte quantas vezes você viu um trabalho de arranjo tão perfeito assim. A produção é impecável, cada mínimo detalhe da instrumentação pode ser observado: veja como a bateria de Rumour Has It chama atenção e ajuda no ar dramático, como Turning Tables sabe transmitir uma certa paz através de seu piano e violino unido a voz de Adele, ou como é elegante a bateria de I’ll Be Waiting que junto dos metais criam a faixa mais “dançante” e auto-astral de 21. A cada faixa é possível pintar na mente a imagem de cada instrumentista acompanhando Adele na canção…

Se trata de um álbum também bastante intimista, principalmente em canções como One And Only e Lovesong. A primeira tem um ar de Soul oitentista, com um invejável trabalho de arranjo de vozes e a melhor das letras (Trust Me I’ve Learned It/ Nobody Is Perfect – Confie em mim/ Ninguém é perfeito). A segunda é a menos prepotente do disco, se trata de um cover com uma levada quase de Bossa Nova e Bolero da famosa canção do The Cure. Não é impactante e dançante como a versão original, mas não deixa de ser um excelente cover. Na mesma linha dessas pode ser citada Take It All, no qual a simplicidade da faixa – apenas ao piano, com um excelente arranjo de vozes despertados ao refrão – nos faz prestar atenção na interpretação dolorosa de Adele, talvez uma das mais brilhantes de sua carreira.

Adele e seus produtores definitivamente sabem jogar as regras do jogo da indústria musical. Todas as faixas de 21 são extremamente propícias a serem tocadas nas rádios e outras mídias. Veja He Won’t Go, por exemplo, que nem se trata de um single e parece um tutorial de música de FM, uma balada soft, mas ao mesmo tempo um tanto dançante. Isso pois citei uma canção menos prepotente. Nos outros momentos a cantora joga pesado ao colocar nas paradas de sucesso singles impactantes como Set Fire To The Rain – que realmente parece desafiar atear fogo na chuva – ou a derradeira Someone Like You, através de arranjos sinfônicos que acompanham muito bem a interpretação magnífica de Adele, que realmente nos convence de seu sofrimento por amor. É devido a tais canções que Adele já pode ser considerada facilmente uma das maiores vozes da história da música.

Cada um encara uma decepção amorosa de uma maneira. Adele fez um álbum que se tornou um dos mais vendidos da história e bateu recordes atrás de recordes com ele, implacando várias canções AO MESMO TEMPO nas paradas musicais. Em uma época onde o conceito de álbum parecem estar se perdendo frente a lançamento de singles, a indústria musical necessitava de um disco que arrebatasse a todos dessa maneira, com extrema qualidade. É, parece que a cantora fez bom proveito dessa decepção amorosa.

Aumenta!: Rolling In The Deep
Diminui!: Lovesong

21
Artista: Adele
País: Inglaterra
Lançamento: 19 de janeiro de 2011
Gravadora: XL, Columbia
Estilo: Soul, pop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.