Crítica | 22 de Julho (2018)

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Vocês vão morrer hoje. Marxistas, liberais, membros da elite… esta é a frase que diz Anders Behring Breivik, quando entra em um salão de reunião, num acampamento para estudantes do Ensino Médio, e mata a todos os adolescentes que estavam no local. Interpretado de maneira aplaudível por Anders Danielsen Lie neste drama baseado em fatos reais, o personagem histórico foi responsável pelo hediondo atentado de 22 de julho de 2011, na Noruega.

Embora este filme escrito e dirigido por Paul Greengrass (com distribuição pela Netflix, causando furor quando de sua exibição no Festival de Veneza e indicação ao Leão de Ouro) não aborde de maneira didática os pormenores ideológicos ou mesmo políticos que motivaram os crimes de Anders Breivik, há informações suficientes sobre suas crenças e reprodução de cenas de tribunal que têm um forte poder de ferir e encolerizar o espectador. Na vida real, o criminoso é declarado membro de uma organização de apelo ao conservadorismo cultural radical chamada Os Cavaleiros Templários. Ele é autor de um Manifesto intitulado 2083 — Uma Declaração Europeia de Independência, sustentada por um viés ultranacionalista, anti-islã e anti-marxismo cultural, algo denominado por ele como “as duas maiores ameaças à Cristandade Moderna“. Ali também estão ideias de separação e extermínio de homossexuais, extermínio do feminismo, ideias eugênicas com diferentes formas de tratamento para indivíduos que não fazem parte “da mesma comunidade de irmãos noruegueses e europeus“, defesa do Estado de Israel, defesa de algo que ele chama  de “Cristianismo Puro” e das “tradições que sustentam a nossa civilização“.

No dia 22 de julho de 2011, Breivik matou 76 pessoas (a maioria adolescentes, em um acampamento político e escolar ligado ao Partido Trabalhista da Noruega) e feriu 97. Neste filme de 2h23, Paul Greengrass nos carrega pelo horror do atentado, começando com a preparação calma e eficiente do material para a explosão e das armas a serem utilizadas na ilha de Utøya, indo até o momento pós-julgamento do criminoso, que se entrega à polícia e enfrenta o Estado, pedindo para falar no tribunal, assumindo a culpa de tudo o que fizera e dizendo que, se pudesse, faria de novo. Segundo ele, esta era a sua missão. Ele era um soldado agindo pelo seu país. Na difícil e muito bem dirigida sequência de tribunal, temos interpretações memoráveis do elenco, uso muito bem pensado de trilha sonora e uma montagem que lembra bastante o ritmo de um documentário. E aí ouvimos Anders fazer a sua pregação, após uma Saudação Romana:

Hoje eu falo em nome dos europeus que foram privados de seus direitos étnicos, autóctones, culturais e territoriais. A acusação diz que sou louco. Fazem isso porque têm medo de mim. Porque cometi o mais sofisticado, o mais espetacular atentado político na Europa desde a II Guerra Mundial. E por quê? Porque a Noruega, a Europa, não são verdadeiras democracias. É democrático que uma nação não seja consultada sobre ela se tornar multicultural? Forçar sua população a tornar-se minoria em sua própria capital? Nas próximas décadas, muitos se darão conta e pegarão em armas, exatamente como eu fiz. Quando é impossível fazer uma revolução pacífica, a revolução violenta é a única solução. Exijo ser inocentado porque agi em defesa do meu país.

O que mais nos impressiona aqui é a maneira como o filme é dividido em blocos de ação que se resolvem internamente e, com a mesma qualidade, abrem espaço suficiente para o encadeamento de outro bloco, sem jamais cansar o espectador, a despeito da longa duração da fita. O ambiente de preparação e apresentação de personagens, os atentados, a investigação, o julgamento e as consequências são tratados com a devida importância pelo texto, cada um com uma duração que corresponde ao seu esgotamento dramático, ou seja, no momento imediatamente após o clímax de um ato, o diretor transfere a nossa atenção para uma janela narrativa ao lado, aberta no começo do filme e que, com o passar do tempo, ganha importância. Daí em diante ela é desenvolvida e fechada com precisão. Em cada uma dessas fases, percebemos um fio político expressivo que jamais finge que não está lá. Fala-se de políticas de imigração, de eleições, de racismo e de ideias de renovação política, tanto para quem está de fora do jogo, quanto para o Primeiro Ministro, para o Departamento de Segurança e de Comunicação.

Filmes com esse viés tendem a incomodar bastante, talvez menos pelas ideias políticas destacadas no texto do que pelas contrariedades morais e legais que observamos em outra nação e que nos atingem em cheio, justamente quando se considera um indivíduo como o criminoso em cena. Ao mesmo tempo, somos presenteados com uma discussão dessas práticas e dessas percepções vindas de diferentes pessoas e com distintas finalidades, por exemplo, na fala da mãe de Anders, quando diz “Ele… ele tem um pouco de razão, não tem? Do jeito que o país está. Não é mais como era antes…” ou na fala de um guru ideológico do criminoso, em dois momentos diferentes: “Sabe […] há muito medo e fúria lá fora. E é por isso que o futuro pertencerá a nós” e, no tribunal, “A direita alternativa, a extrema direita, pode chamá-los como quiser… levamos muito a sério o que se refere à tomada do poder, à mudança completa da sociedade. E atos isolados de um homem não nos ajudarão a alcançar este objetivo“.

Saturado nas diversas paletas de cores que tem, o filme nos fornece um ambiente visual o tempo inteiro opressivo, triste, mesmo nos familiares, o que jamais tira a relação de afastamento e julgamento do espectador pelo que está acontecendo na tela; um afastamento (e ao mesmo tempo, um mergulho emotivo em cada ato) necessário para esse tipo de obra, onde há muita coisa para ser vista e pensada. Intenso, polêmico, político, 22 de Julho é uma obra sobre o ponto final de uma ideia extremista: sempre matar para impor aquilo que, por algum motivo, acredita-se que é “para a salvação de todos“.

22 July (Noruega, Islândia, EUA, 2018)
Direção: Paul Greengrass
Roteiro: Paul Greengrass
Elenco: Kenan Ibrahimefendic, Anders Danielsen Lie, Jon Øigarden, Marita Fjeldheim Wierdal, Isak Bakli Aglen, Marit Andreassen, Lars Arentz-Hansen, Trim Balaj, Maria Bock, Ingrid Enger Damon, Tone Danielsen, Lena Kristin Ellingsen, Martine Sørumgård Granlien, Thorbjørn Harr, Charlotte Bottolfsen Iversen, Elias Peña Corral
Duração: 143 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.