Crítica | 22 Milhas

Peter Berg e Mark Whalberg se solidificaram numa parceria sólida e rentável o suficiente para que ambos encontrem entre si o veículo perfeito para a exploração segura de suas posições cinematográficas. Berg têm investido em filmes de ação que encontraram na figura durona de Whalberg o alicerce ideal para a personificação de projetos rápidos, funcionais ao seu gênero, mantendo sempre uma linha de pensamento narrativo sobre suas ideias que, agora, começam a dar impressão de que estes filmes estão se tornando mais similares do que deveriam. Se Berg e Whalberg haviam sido eficazes na manipulação fictícia de histórias reais nos competentes Horizonte Profundo: Desastre no Golfo e O Dia do Atentado, 22 Milhas denota o óbvio cansaço de uma parceria que já grita por alguma renovação.

Pois renovação, ou mesmo fôlego de seus projetos anteriores, é o que parece faltar a 22 Milhas. Novamente, a trama aborda segmentos como o militarismo americano, diplomacia, glorificação e abuso de armas de fogo, tudo dentro de uma trama que luta contra o tempo para chegar ao seu destino, o que faz com que 22 Milhas troque a sustentação do suspense nos filmes anteriores da dupla pelo caos da ação acelerada, picotada e insistente.

Para começar, falta principalmente qualquer linha ou sinal de empatia/carisma por personagens que são lançados dentro de concepções estereotipadas sobre figuras amorais e conflituosas, que vão desde o protagonista gritante (literalmente) de Whalberg, cuja dificuldade em administrar suas emoções lhe conferem uma personalidade irritadiça e sarcástica, mas lhe dão autoridade suficiente para comandar uma equipe cuja missão é encontrar o paradeiro de uma carga de césio que, se cair nas mãos de terroristas russos (eles mais uma vez), pode se tornar uma arma atômica ainda mais devastadora do que as que dizimaram Hiroshima e Nagasaki. Nesse cenário, o policial tailandês Li Noor (Iko Uwais, uma revelação) parece ser o único que sabe do paradeiro do HD encriptado onde o césio está escondido.

No que concerne ao que o filme teria de melhor para oferecer, Berg trabalha por pura preguiça com cortes incessantes, diálogos agilizados, explosões, tiros, corpos sendo empilhados aos montes e socos que são potencializados por um trabalho sonoro que visa potencializar o impacto físico destas cenas. É uma direção genérica sem nenhuma vergonha disso, e se há sequências realmente bem filmadas e coreografadas (o confronto no hospital), 22 Milhas rapidamente se entrega ao que há de mais redundante no que há dentro de um filme de ação tão sem pretensões.

E se Lauren Cohan (a Maggie de The Walking Dead) é descaradamente diminuída por um plot evidentemente banal e até mesmo machista, ou até mesmo a lutadora de MMA Ronda Rousey surge mal aproveitada por um roteiro que a descarta mais rápido do que deveria, é na presença ambígua de Li Noor que 22 Milhas encontra seu único elemento interessante. Não apenas o ator Iko Uwais possui o forte físico ideal para as cenas de confronto físico, mas seu contraste com a presença “machona” de Whalberg é o que permite que os momentos de interação entre ambos sugiram alguma densidade por trás daquela missão, o que é algo que fica apenas na sugestão mesmo, uma vez que Whalberg força novamente a barra com seus gritos inexplicáveis para lhe dar qualquer impressão de imponência ou ameaça, mas que apenas o tornam uma figura irritante de se acompanhar.

Dispensando qualquer tipo de comentário relevante ou mais sofisticado dentro do aparente cinismo com que o roteiro de Lea Carpenter olha para a política de Donald Trump, 22 Milhas foi anunciado como a possível primeira parte de uma trilogia (e o final em aberto já deixa o terreno pronto para uma continuação), mas fica difícil imaginar o nascimento de uma nova franquia carregada por um filme de abertura tão mal calibrado e esquecível em seu conjunto. Se a ideia for por água abaixo, não será nenhuma surpresa.

22 Milhas (Mile 22) – EUA/2018
Direção: Peter Berg
Roteiro: Lea Carpenter
Elenco: Mark Whalberg, Lauren Cohan. Iko Uwais, John Malkovich, Ronda Rousey
Duração: 94 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.