Crítica | 24: Legacy – 1X01: 12:00 p.m.-1:00 p.m.

estrelas 3,5

A troca de protagonista nunca foi uma tarefa fácil, especialmente na televisão. Enquanto franquias como 007Doctor Who adotaram esse fator como um elemento de renovação constante, que permite a obra resistir por anos e anos, a grande maioria não consegue sobreviver sem o ator que serve como rosto do longa-metragem ou seriado. Podemos contar nos dedos aquelas que tentaram realizar essa troca e conseguiram e podemos citar Homeland como um bom exemplo (ainda que Claire Danes seja, de fato, a principal ali). 24 Horas é uma dessas produções que fica difícil se imaginar sem Kiefer Sutherland, o eterno Jack Bauer, mas a Fox, na esperança de reviver o conceito da série, decidiu produzir 24: Legacy.

Estamos falando de uma obra sobre o contraterrorismo, que adota o formato do seriado original como o seu, estabelecendo a narrativa em tempo real, começando do meio-dia. Dessa vez, a trama gira em torno de Eric Carter (Corey Hawkins), um ex-sargento do exército americano que liderou o esquadrão responsável pela morte do terrorista Bin Khalid. Sua vida é virada de cabeça para baixo quando é atacado, em sua casa, pelos seguidores de Khalid, que buscam uma caixa roubada da base do terrorista. Com sua identidade exposta, Carter só pode confiar em sua antiga chefe, Rebecca Ingram (Miranda Otto), que o ajuda a descobrir a verdadeira intenção desses terroristas.

12:00 p.m.-1:00 p.m. nos apresenta uma narrativa que simplesmente não para por um minuto sequer. Mesmo nos momentos que precedem o ataque ao protagonista a tensão é mantida por sabermos que algo está prestes a acontecer. Estamos falando de um episódio que não nos dá tempo algum para respirar, criando a noção genuína de que estamos diante de uma corrida contra o tempo, o que apenas aumenta pela marcação de tempo que aparece na tela de trechos em trechos.

O abandono do formato de 24 episódios foi benéfico à série (ainda que não se encaixe muito bem com seu título), graças a essa alteração fomos proporcionados com um capítulo que não perde tempo. Claro que estamos falando da season première e isso pode acabar mudando nas próximas semanas, mas pelo que vimos aqui guardo esperanças em relação ao futuro dessa temporada. Quando se trata do roteiro, o único porém é um foco duvidoso e breve em uma estudante, Amira (Kathryn Prescott), que, por enquanto, não se encaixa com o restante do enredo. Evidente que ainda é muito cedo para julgar, mas falando do episódio de maneira  fechada, isso acaba proporcionando uma quebra no ritmo frenético estabelecido desde os segundos iniciais.

Sem muitos devaneios, esse primeiro capítulo também cria um favorável clima de conspiração e rapidamente isola o protagonista e aqueles que pretendem ajudá-lo, enquanto insere inúmeros fatores que podem atuar contra ele. A tensão é proveniente de diferentes fontes, seja no QG do CTU (Counter Terrorism Unit), com Rebecca Ingram se colocando em tanto perigo quanto o personagem principal ou ao redor de Carter, que nos passa aquela sensação de que os antagonistas podem aparecer a qualquer momento.

A direção de Stephen Hopkins, veterano de 24 Horas, sabe trabalhar muito bem com essa linguagem, pecando com uma câmera muito tremida somente nos momentos iniciais do capítulo. Nas cenas de ação ele nos traz uma mistura do cru com feitos dignos de filmes de ação, ainda que menos exagerados (excetuando o rolo compressor gigante no final do capítulo, que soa conveniente demais, especialmente sendo colocado em praticamente um corredor). Hopkins está ciente da montagem dinâmica, que nos oferece um dos poucos exemplos nos quais a divisão da tela em diferentes quadros desempenha um papel relevante, nos passando uma melhor ideia de que os eventos que testemunhamos ocorrem em tempo real.

Corey Hawkins prova ser um digno sucessor de Sutherland, nos entregando um personagem principal que conseguimos gostar imediatamente e cuja proficiência não é simplesmente jogada em tela e sim explicada através de seu passado no exército. O ator nos traz algumas expressões exageradas ou duvidosas em determinados pontos, mas nada que prejudique muito nossa imersão, em geral, conseguimos sentir seu nervosismo e euforia, que ajudam a construir o ritmo frenético do capítulo. Ele é a parte da ação de 24: Legacy, que se cria como uma espécie de John Wick, não tendo medo de mostrar o personagem matando outros. O problema é que, desde já, sentimos como se ele fosse imortal, efeito provocado pelas balas dos bandidos que se recusam a acertar o alvo mesmo estando em um corredor sem curvas – esperamos que isso seja resolvido nos episódios seguintes.

Miranda Otto, por sua vez, é quem verdadeiramente rouba a cena, nos entregando uma forte personagem feminina, que garante o lado da espionagem da série. Ouso dizer que o foco nela prova ser muito mais engajante que o do protagonista, visto que transmite uma constante sensação de instabilidade por estar cercada de pessoas que não sabemos se pode confiar ou não. A atriz traz muito de Homeland, na qual trabalhara, para o cenário dessa nova série, cujo argumento certamente foi inspirado na operação que levara à morte de Bin Laden.

No fim,  12:00 p.m.-1:00 p.m. se define como um bom começo para 24: Legacy, provando que a obra pode sobreviver sem Jack Bauer como seu protagonista. Apesar de alguns deslizes no meio do caminho, temos aqui um season première que nos encheu de esperanças para o futuro dessa série da Fox – com um ritmo frenético, misturando espionagem, terrorismo e uma boa ação, fomos fisgados por essa história que gira em torno de Eric Carter.

24: Legacy – 1X01: 12:00 p.m.-1:00 p.m. — EUA, 05 de fevereiro de 2017
Showrunner:
Howard Gordon
Direção: Stephen Hopkins
Roteiro: Manny Coto, Evan Katz
Elenco: Corey Hawkins, Miranda Otto, Anna Diop, Teddy Sears, Ashley Thomas, Dan Bucatinsky, Jimmy Smits, Kathryn Prescott, Kevin Christy, Zayne Emory, Saad Siddiqui
Duração: 41 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.