Crítica | 24 Semanas

24semanas-plano-critico

estrelas 4,5

SPOILERS!

Em seu segundo longa-metragem, Anne Zohra Berrached volta a falar de maternidade, mas desta vez, de uma maneira bem diferente daquela que abordou em Zwei Mütter (2013). Os dilemas são outros e impacto social causado pela escolha, bem como as questões morais e éticas envolvidas ali também são diferentes. Em 24 Semanas, Astrid (Julia Jentsch, com grande entrega ao papel)  recebe a notícia de que seu bebê possui Síndrome de Down. Em uma segunda ultrassom, recebe a notícia de que o bebê também terá complicações no coração e que precisa ser operado ainda nas primeiras semanas de vida.

O roteiro de 24 Semanas traz à tona os mais intensos argumentos, para os dois lados da moeda, sobre o aborto. Ele parte do núcleo simples um casal comum, com uma vida bem estabelecida — ela, comediante; ele, agente publicitário –, já com uma filha e planos tipicamente familiares para o futuro. Então a primeira notícia vem e os coloca para pensar muito.

Seria uma exposição eugênica desprezível se o roteiro assumisse como válida a decisão do casal para abortar a criança apenas por que ela teria Síndrome de Down. Por um breve momento, durante a sessão, o espectador se preocupa que um texto até então bastante sóbrio, deslize para esse tipo de opinião. Mas isso não acontece. O casal assume a responsabilidade do bebê e procura, o máximo que pode, se adaptar a esta informação e se preparar para a criança que está por vir, sabendo que exigirá mais cuidados do que o padrão. Ou pelo menos é isso que o filme nos passa.

A primeira parte da película é feita de apresentações levemente contrastantes. Astrid exerce a sua profissão de comediante, apresenta-se em programas de TV e faz bastante sucesso no país. A câmera, porém, nos faz ver um pouco de suas inconstâncias cotidianas, seus pequenos problemas e amenidades do dia a dia, sua paixão pelo esposo e pela filha. A fotografia que sempre destaca luzes brancas dá um ar de neutralidade ao contexto inicial que só depois entenderemos bem, quando tonalidades de azul for aos poucos tomando o espaço da tela.

A discussão sobre a maternidade em 24 Semanas é um complemento crítico e menos poético de Olmo e a Gaivota. Percebam que a mesma relação amigável e depois crítica entre o casal é comum dos dois filmes e que a exposição dos medos, dores e considerações da mulher sobre a criança que trará ao mundo, também. A crise de 24 Semanas, todavia, torna o contexto mais ácido, polêmico e difícil de agradar. Mesmo que a diretora faça questão de destacar a beleza da vida, a formação do feto, a importância que ter ou não ter um filho possui para a mãe, o dilema moral tenderá a ganhar mais força a partir do miolo da fita e acender fervorosas discussões. E é bom que isso exista, desde que sejam discussões sobre o ato e suas consequências para os envolvidos, não pregação de quaisquer ideologias possíveis, sagradas ou não.

Ao passo que nos tornamos mais íntimos de Astrid (e a câmera de Berrached faz de tudo para manter esse contato do público com a protagonista, através dos closes ou planos mais próximos), percebemos sua introspecção, seus cálculos e sua marca eterna após a decisão final. Ela sabe e entende os desdobramentos da escolha e nos coloca para refletir sobre o sofrimento, sobre o significado da ação para ela e para a criança. Como disse antes, é evidente que esse aspecto dividirá o público e o filme dá armas para os dois lados debaterem. Pode-se até dizer que há pouca novidade narrativa, a partir do momento que sabemos da temática do filme. Mas o roteiro aqui não é unilateral e não compra ou demoniza lados. Ele apresenta e discute situações por pontos de vista diferentes, mantendo o devido respeito para a final decisão, independente da decisão.

O desfecho do filme é lancinante. Eu assisti ao longa na 40ª Mostra SP, a sala estava lotada, e foi uma daquelas sessões em que todo mundo parecia estar chorando, fungando, sofrendo em duas esferas pelo que ocorre no final. A coragem de expor esse tipo de decisão na tela e a excelente direção que o roteiro dá para a personagem daí em diante (eu não posso descer a lenha no palco e me calar na vida real) é de uma coerência impressionante. 24 Semanas nos apresenta o debate de um tema tabu a partir de um ponto de vista e uma situação que dão novas cores aos argumentos, reafirmando-os ou tornando-os mais difusos, dependendo da opinião do debatedor. É verdade que o argumento demora um pouco para engatar, mas a lentidão inicial é necessária para evoluir e chegar à torrente de sentimentos que irromperá a partir do meio do filme. E, como não podia deixar de ser, o resultado é tocante e inesquecível.

24 Semanas (24 Wochen) — Alemanha, 2016
Direção: Anne Zohra Berrached
Roteiro: Carl Gerber, Anne Zohra Berrached
Elenco: Julia Jentsch, Bjarne Mädel, Johanna Gastdorf, Emilia Pieske, Maria-Victoria Dragus, Mila Bruk, Barbara Focke, Julia Golembiowski, Felicity Grist, Florian Kleine
Duração: 103 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.