Crítica | “24K Magic” – Bruno Mars

estrelas 3,5

O trono de rei do pop, definitivamente, é um cargo difícil de ser tomado e que desde a morte de Michael Jackson a mídia musical (e até mesmo o público) insiste em debater a possibilidade dele ser passado às mais diferentes revelações do cenário do gênero. E Bruno Mars frequentemente entra como ponto dessas discussões, que são tremendas bobagens – que isso fique registrado – criando comparações que servem como sombras perseguindo a carreira do artista. E 24K Magic, terceiro álbum do cantor, pousa no meio desses debates de forma descompromissada, feito totalmente com o intuito de evocar, sem pretensões, o espírito funk e soul de seus ídolos.

Abrindo já com sua melhor carta, o single homônimo, a canção segue a mesma estrutura do hit Uptown Funk cantado pelo Sr. Mars e oriundo do ótimo Uptown Special do produtor Mark Ronson. Alma retrô, dançante ao extremo com seu groove onipresente, cheia de efeitos ricos de sintetizadores e produção finíssima, ela já mostra os passos que o disco seguiria. E basta olhar os produtores para entender a similaridade entre o disco de Ronson e o novo de Mars: a presença de Emily Haynie e Jeff Bhasker certamente aproximam os trabalhos, que se distinguem apenas nos rumos que seus responsáveis decidem tomar (Shampoo Press & Curl, o nome que mais se repete, é um selo de produção de Mars junto a nomes misteriosos).

Um ponto a ser discutido é o nível de autenticidade do trabalho em faixas específicas. Verdade seja dita, certos aspectos de 24K Magic são tão mimetizados de outros artistas que fazem Mars perder parte de sua identidade. Perm com seu funk de bateria versátil e pesada, fundida ao groove do baixo, se mostra um claríssimo tributo a James Brown, mas executado quase como um cover. Versace On The Floor e Too Good To Say Goodbye sugam absurdamente as particularidades das baladas de Michael Jackson nos anos 90 (o que não é a melhor das escolhas visto o lado mais fraco da carreira de MJ), com o cantor se esforçando pra emular até mesmo falsetes similares. Tais canções deixam a desejar que o cantor colocasse mais sua própria personalidade ao realizar as homenagens.

Por mais que incomode a previsibilidade das letras muitas vezes românticas do artista (e como diria Karam, Bruno Mars aqui é obsessivo por falar em ostentação), sabe escrever e estruturar muito bem seus versos. Já quanto aos arranjos, há quem colocará em dúvida o soul do cantor, dizendo que o demasiado uso de sintetizadores o fazem soar “plástico” demais. É um lado a se olhar. O outro – e que esse que aqui escreve escolhe aceitar – é que a produção de alto nível feita por Mars e seus amigos, espertamente voltada ao mercado, faz isso passar bem longe de um incômodo, mas serve como uma despretensiosa diversão.

O terceiro trabalho de Bruno Mars é competente e um belo exemplar pop, mesmo que com ressalvas. É um acerto e tanto principalmente se visto como um progresso à carreira deste como produtor, talvez o melhor entre seus diversos talentos.

Aumenta!: 24K Magic
Diminui!: Versace On The Floor

24K Magic
Artista: Bruno Mars
País: Estados Unidos
Gravadora: Atlantic
Lançamento: 18 de novembro de 2016
Estilo: Funk, Pop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.