Crítica | 2CELLOS em Zagreb, Croácia (2016)

(foto: 2CELLOS Facebook fanpage)

estrelas 5,0

Minha intenção, aqui, foi de fazer uma crônica que tem o show da dupla 2CELLOS como elemento principal. Se você estiver sem tempo ou for impaciente, sugiro pular direto para a Parte IV da presente postagem, que é a crítica propriamente dita. Mas pode ser interessante ler tudo para fins de contextualização.

Parte I: Confissão de Ignorância (e o que raios eu estava fazendo em Zagreb…)

O bom da ignorância é que é um mal perfeitamente curável mesmo que aquele que sofra dela tente ao máximo manter-se neste estado… Há alguns anos, lembro-me de ouvir minha esposa comentando sobre uma dupla que fazia covers de hits famosos com violoncelo. Lembro-me, também, de ter visto, por insistência dela, alguns clipes online. Lembro-me vagamente de ter gostado, mas nada ficou registrado.

Corta para o presente. Estávamos preparando nossa viagem para a Croácia (e outros países resultado do picotamento da ex-Iugolávia) e eis que minha esposa novamente voltou ao assunto da dupla 2CELLOS, já que eles são croatas (ou quase – mais sobre isso adiante). Novamente, não registrei o assunto e ele caiu no (meu)esquecimento. Marquei nosso hotel em Zagreb para o dia 03 de julho…

Chegando em Dubrovnik, na Dalmácia, bem lá no sul do país, o assunto 2CELLOS voltou, não me lembro exatamente como, mas creio que com um “ahá” bem alto e um sorriso de felicidade no rosto de minha esposa. A dupla faria um show gratuito para comemorar seus cinco anos, na maior praça de Zagreb, no dia 02 de julho, véspera de nossa chegada na cidade. Claro que seu olhar, ameaçando jogar um Crucio em mim, foi o suficiente para eu imediatamente trocar a reservar e acrescentar um dia na capital do país, especialmente porque, em uma daquelas coincidências do destino, o hotel ficava literalmente a 250 metros da Praça Kralja Tomislava (trata-se de homenagem a Tomislau I, considerado o fundador do primeiro estado croata unido, no século X, para quem tiver interesse).

Ufa, tudo resolvido (e, se o hotel não tivesse vaga, tenho certeza que o feitiço mudaria para Avada Kedavra…) e chegamos em Zagreb umas quatro horas antes do show, depois de conhecer Kotor em Montenegro, país tão novo que não tem moeda própria e usa o Euro “emprestado” de forma não oficial, toda a Dalmácia, um bom pedaço da Ístria e Liubliana, a capital da Eslovênia, o primeiro país resultado da fragmentação da Iugoslávia a juntar-se à União Européia e a adotar o Euro como moeda oficial (a Croácia ainda usa moeda própria – a Kuna – apesar de também fazer parte da UE).

Parte II: Mas o que é 2CELLOS afinal de contas? (e porque isso importa?)

Sou partidário da tese do saudoso Umberto Eco que um dia disse: “as mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel”. Antes que se sintam ofendidos, reparem a ironia. Afinal, eu mesmo faço uso das redes sociais que Eco demonizava e eu mesmo posso (devo!) ser um dos imbecis que ele aponta. Mesmo assim, o raciocínio é válido.

Dito isso, a internet trouxe maravilhas ao mundo. Afinal, é tanta gente participando de tantas maneiras que alguma hora alguma coisa boa tem que sair, não é mesmo? É uma questão de probabilidade matemática, a mesma que diz que, dado tempo e uma quantidade considerável de chimpanzés datilografando em máquinas de escrever, é possível que um deles escreva as peças de Shakespeare. E o 2CELLOS definitivamente é uma dessas coisas boas que a internet volta e meia permite a descoberta.

Sim, pois, pelos canais “tradicionais”, dificilmente uma dupla de jovens croatas (na verdade, Luka Šulić é esloveno e Stjepan Hauser é croata) usando seus violoncelos como instrumentos de cover de músicas das mais variadas, do pop ao heavy metal, passando até mesmo por música clássica (quem diria…), ganhariam a projeção impressionante que ganharam desde que seu primeiro vídeo foi “upado” no Youtube em 20 de janeiro de 2011 com o cover de Smooth Criminal, de Michael Jackson. O resultado? Três milhões de views em duas semanas e chegando a 20 milhões enquanto escrevo o presente texto. E a coisa não parou por aí, pois seu vídeo de Thunderstruck, do AC/DC, tem, neste exato momento, quase 62 milhões de views. Sim, 62 milhões!

Com isso, os dois foram catapultados para um estrelato impressionante, assinando com a Sony Masterworks e gravando três álbuns de estúdio até agora, além de terem sido convidados para participações em shows de gente de peso como Elton John, além de terem participado de séries de TV como Glee, The Bachelor e The Ellen DeGeneres Show e de terem gravado comerciais.

Trata-se, porém, de uma fama merecida?

Coloco a pergunta de forma retórica, pois é algo impossível de responder com propriedade, pelo menos de forma definitiva. Cinco anos já se passaram e o interesse pelo 2CELLOS não parecer ter esvanecido. Ao contrário, eles já tocaram no Madison Square Garden e, no momento, estão em um tour mundial que inclui o Brasil. Não é pouco. Não mesmo. Acho que muito do sucesso da dupla vem de seu genuíno esforço de aliar instrumentos clássicos à música pop/rock sem desmerecer um ou outro. Ambos têm formação clássica e se conheceram em uma aula mestre na Croácia ainda adolescentes, antes de partirem para estudar em Viena e Londres (Šulić) e Londres e Manchester (Hauser). Além disso, eles ainda tocam em orquestras, recusando-se a abandonar sua formação clássica. Ou seja, os rapazes têm seu valor, respeitam suas raízes e descobriram um filão que, apesar de não ser exatamente original, exploram-no com vivacidade, inteligência e uma energia impressionante, além de uma humildade rara, algo que ficou claro no show em Zagreb.

Só o tempo dirá se o esforço deles foi mais do que “fogo de palha”, mas tudo indica que será. Ou pelo menos eu, o ignorante que nada sabia sobre eles, espero que seja!

Parte III: Show gratuito pode ser sim completamente civilizado (e sim, estou criticando o Brasil, caso não tenha ficado claro)

Antes de falar do show propriamente dito, deixe-me falar sobre o evento em si.

Já estive em mais de uma centena e meia de shows de música desde que comecei a tomar gosto pela coisa ainda no primeiro Rock in Rio, no longínquo ano de 1985 (não à toa me chamam – acho que carinhosamente – de Gandalf aqui nos bastidores do site). E, com a oportunidade profissional que tenho de viajar, já pude também ver os mais variados shows no exterior. O de Zagreb, porém, foi o primeiro show gratuito fora do Brasil que assisti e ele me abriu os olhos.

E me abriu os olhos de uma maneira absurda. Esperava uma bagunça, policiamento ostensivo, grades, confusões, gente desordeira, brigas e assim por diante. Afinal, show gratuito tende a ter um número considerável de pessoas, muitas delas lá só pela farra, não pelo show, o que pode precipitar problemas. Mas nada. Não vi absolutamente nada fora do lugar.

Policiamento? Só longínquo fechando algumas ruas ao redor para o tráfego de automóveis (o transporte coletivo – bondes – continuava funcionando normalmente). Brigas? Nem de longe. Todo mundo vendo o show tranquilamente. Cheiro de maconha? Zero. Gente bebendo que nem o Quincas Berro D’Água? Nadica de nada. Aparentemente, não é necessário drogar-se para aproveitar shows de música. Que coisa, não é mesmo?

Não tinha ninguém nem mesmo SEM CAMISA, meus caros! E estava fazendo 30 graus (ou pelo menos era essa sensação na aglomeração)! Conseguem imaginar isso? Conseguem imaginar gente respeitando a pessoa ao lado, criando uma espécie de “zona invisível de privacidade” em que ninguém que não se conhece se encosta, em que ninguém fica pulando que nem louco ignorando a pessoa ao lado? Não é ficção científica. Não é fantasia. Não estamos falando de Star Trek. E todo mundo estava aproveitando, se divertindo e não vendo o show com apatia. E também não estamos falando de país considerado como a epítome da civilização como a Finlândia ou o Japão. Estamos falando “apenas” da Croácia. De Zagreb, uma capital média europeia de país literalmente recém-recriado.

Só para o leitor ter uma ideia, sem que houvesse qualquer determinação de autoridades, as ruas laterais à praça foram tomadas de pessoas tentando assistir ao show, mas, mesmo assim, naturalmente, reservou-se um faixa para a ida e vinda de todo mundo, faixa essa dividida irmãmente entre os que vão de um lado e  os que vêm de outro. Deixa eu repetir: isso aconteceu NATURALMENTE, sem que policiais estabelecem um cordão…

Sim, temos MUITO o que aprender…

E sim, sou rabugento… Mas isso vocês já sabem…

Parte IV: A crítica do show (finalmente!)

Com 50 mil pessoas, a Praça Kralja Tomislava estava apinhada de gente. O palco, em uma das extremidades, era bastante simples, prosaico mesmo, mas eficiente em altura e com boa sonoridade, algo comprovado com o breve show de abertura de The Leading Guy, um cantor italiano de músicas em inglês que, apenas com sua voz e seu violão, com músicas próprias e também covers, muito no estilo de Bob Dylan, começou a aquecer a noite, sendo muito bem recebido.

Apenas três minutos atrasados, entram no palco Luka Šulić e Stjepan Hauser com seus violoncelos elétricos Yamaha, um branco e outro preto e prontamente, sem dizer uma única palavra, iniciam o show com Oblivion, que Astor Piazzolla compôs para Enrico IV. Mantendo a linha de trilha sonora, eles engataram logo em seguida com uma sensacional variação de Gabriel’s Oboe, que Ennio Morricone compôs para A Missão, ainda mantendo uma certa lentidão na apresentação, cozinhando (no bom sentido) a gigantesca plateia e criando tensão para o que viria em seguida.

Ainda que lá do fundo de meu coração tivesse preferido que o 2CELLOS continuasse a trazer icônicas músicas de cinema (só fiquei imaginando o tema de Star Wars por eles…), quando os acordes iniciais de Where the Streets Have No Name do U2 começaram, foi impossível conter a excitação. E o mais interessante é como a dupla trabalha em sintonia perfeita, um mantendo a base de baixo da canção e o outro trabalhando o violoncelo para dar “voz” à música, quase que sendo possível “ouvir” Bono cantando um dos hinos de seu grupo.

Aproveitando-se dos marcantes acordes iniciais de Viva la Vida, do Colplay, a dupla logo seguiu por esse caminho, avançando décadas musicais e novamente evocando a voz do vocalista com arcos – que progressiva e visivelmente perdiam fios – em perfeita sincronia. O U2 volta a ser representado com With or Without You e, então, uma dobradinha de Michael Jackson entra: Human Nature e, claro, Smooth Criminal. Foi particularmente impressionante, de um lado, ver a dupla usar as mãos para tocar o violoncelo, revezando o arco na primeira música e, de outro, ver o público ser chamado a participar cantando, algo que Šulić não parava de insistir, levantando-se por diversas vezes e começando a revelar seu estilo mais “dominador de palco”, com uma energia quase inacreditável.

Michael Jackson voltaria mais tarde com They Don’t Care About Us, com direito até mesmo à reprodução, com cordas, das batidas características do Olodum. Realmente uma coisa de outro mundo.

Mas, antes de Jackson, o momento que realmente mostrou para mim o que é o 2CELLOS foi a magnífica transformação de Thunderstruck, do AC/DC em uma música própria deles. A potência dos violoncelos sendo quase que massacrados para evocar a forte percussão da música do grupo australiano levou até mesmo os mais idosos ao meu redor a ficarem se entreolhando com uma certa vergonha de admitir que a música é sensacional. E, nesse momento, mais para o meio da música, junta-se à dupla Dušan Kranjc, baterista que ocasionalmente trabalha com eles. E, então, Thunderstruck realmente explode a Praça Kralja Tomislava e a explosão continua com mais AC/DC, já que ouvimos variações de You Shook Me All Night LongHighway to Hell, e Back in Black, tornando o grupo roqueiro o alvo da maior quantidade de covers (todos fenomenais) da noite.

Acontece que não é tudo. O 2CELLOS simplesmente não para e oferece ao público uma quase impossível variação de Smells Like Teen Spirit do Nirvana e uma inesperada (para mim) Whole Lotta Love, do Led Zeppelin em que mais uma vez a dupla soube fazer os violoncelos cantarem com a “voz” do grupo. Encerrando essa parte do show – porque houve outras partes! – vem (I Can’t Get No) Satisfaction dos Rolling Stones.

Quando eu mesmo achava que era impossível a dupla ter energia para continuar, eis que eles apresentam Zucchero (sim, ele mesmo!) e o chamam o fantástico senhor italiano para cantar três canções dele no palco. Aqui vê-se a clara reverência e humildade de Luka Šulić e Stjepan Hauser aos mestres, já que eles passam a tocar seus violoncelos de maneira nada intrusiva, realmente “apenas” acompanhando a lenda que estava no palco.

E, para fechar com chave de ouro para os croatas, ninguém menos do que Oliver Dragojević sobe ao palco. Quem é Dragojević? Bem, imaginem um Roberto Carlos ou um Chico Buarque ou, talvez mais ainda, um Vinícius de Moraes subindo ao palco de uma dupla de instrumentistas que existe apenas há cinco anos. É como uma lenda viva da música croata abençoando a possívelmente longa carreira dos violoncelistas. Sentado ao piano e cantando suas músicas mais do que clássicas para o povo croata (são quatro décadas de carreira!), era possível ver, mesmo com o avançado da hora, a união entre idosos e mais jovens em torno de verdadeiros hinos da música local, música essa que sobreviveu guerras, o jugo soviético, o desmantelamento da Iugoslávia e o reaparecimento da Croácia. A corrente elétrica entre aquelas 50 mil pessoas era visível e encantadora. Observar o povo ao redor cantando foi absolutamente extasiante para mim e para minha esposa, já que nada conhecíamos do cantor e compositor.

Parte V: É hora de dar tchau

Duas horas depois, o show acaba. A dupla está claramente feliz pelo sucesso e pela presença maciça do público que não arredou o pé até o final. Foi uma espécie de chancela de seu próprio povo de que é esse mesmo o caminho a ser trilhado. Que o 2CELLOS deve continuar assim, sempre em frente e levando o nome da Croácia por todo o mundo. São como representantes, embaixadores de um país que ainda precisa firmar-se no panorama mundial e a população sabe disso e sente orgulho daqueles dois violocelistas que começaram a surgir há apenas cinco anos usando uma ferramenta prosaica como a internet que oferece tanto que banaliza muitos tornando ainda mais especiais aqueles que conseguem destaque por esforço próprio.

Exausto, mas feliz, o público começa ordeiramente a voltar para casa, certamente com um sorriso no rosto. E eu? Bem, eu descobri o 2CELLOS e também que é possível assistir a shows gratuitos no meio da aglomeração sem se irritar.

Data do show: 02 de julho de 2016, às 21:30h
Local: Praça Kralja Tomislava, Zagreb – Croácia
Duração: 2 horas

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.