Crítica | 3% – 1ª Temporada

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estrelas 2

A premissa e o piloto da série 3% já são conhecidos de uma parcela dos brasileiros desde 2011. Na época, formam lançados os primeiros 27 minutos da série, que teve produção da Maria Bonita Filmes e serviu como cartão de visita para os produtores conseguirem investimento e espaço na Netflix, e então engatarem a primeira realização brasileira na famosa empresa de streaming que certamente tem um plano para dominar do mundo. A premissa de 3% é simples e era mais interessante em 2011 do que é em 2016, embora ainda funcione. Em um mundo distópico, uma sociedade se divide entre o Continente miserável e o Maralto paradisíaco. Aos 20 anos, todos os cidadãos possuem uma única chance de passar [do Continente] para o [Maralto] “lado de lá” através do Processo.

As fontes e semelhanças com outras produções do gênero são inúmeras. Primeiro, é importante ter em mente que o episódio Cubos é uma reprise, com outra finalização, do Piloto/Curta de 2011. Existem ecos visuais e elementos narrativos de Elysium (2013) e realidades destroçadas e marcadas pela oposição e também dependência entre dois lados distintos da população na linha da série literária Jogos Vorazes, para ficar apenas em algo mais recente.

O conceito de divisão e exploração de uma classe social por outra, bem como a temática da meritocracia em seu estágio mais “selvagem” são elementos que estão tanto nas entrelinhas como aparecem de forma textual e visual ao longos dos episódios. Não há uma declaração política, por assim dizer, mas a série toma uma linha bastante crítica nesse sentido, e este é um ponto que pode trazer o programa para um grande número de análises sobre os simbolismos das regiões mostradas (nomes, composição fotográfica, geografia, desenho de produção) e a miniatura das regras sociais como conhecemos e presenciamos versus a ideia ou teoria de como elas deveriam ser. E claro, surgem aí as perguntas de problematização. Existe justiça social? Todo mundo que merece, de fato, tem? Todo mundo que luta para merecer, de fato, ganha? Todo mundo que ganha, de fato, merece?

Por mais “redundante” que seja o conceito em termos de produção artística — e esta primeira temporada não conseguiu trazer nada que se sobressaísse no conceito “distopia social” –, é impossível dizer que os roteiros não trazem coisas para pensar, não fazem boas críticas sociais, políticas, culturais, e não deixam algum tipo de esperança de que é possível sim sair algo bom daí. Se o espectador concluir a série, com certeza haverá alguma curiosidade sobre a sequência da história, o que acontecerá no Maralto após essa 104ª edição do Processo e como alguns personagens irão seguir a vida. Ao mesmo tempo, a lembrança da apresentação do drama, a construção de alguns diálogos e a fraca dramaturgia da maior parte do elenco não ajudam a manter esperança como algo positivo.

Esqueçam os efeitos pouco animadores. Isso até pode contar como ponto negativo para a série mas, convenhamos, um “efeito B” é perdoável se todo o conjunto em que ele está inserido é bom, o que não é o caso aqui. Mas vamos assumir que sim, o uso dos efeitos para a central das provas entre o Continente e o Maralto recebe alguns planos tenebrosos (especialmente aéreos) e não há nada o que fazer sobre isso a não ser constatar, tirar o que lhe é devido e ir para coisas piores que a temporada traz. Sim. Porque os “efeitos B” (não são todos, porém! Falarei dos acertos mais adiante) não são a pior parte. E na verdade, nem ganhariam tanta importância se o restante desse asas à própria premissa (Continuum e Doctor Who são exemplos vívidos disso, dentro do gênero).

Ao mostrar uma realidade tão densa, já tendo um grupo de guerrilha, A Causa, tentando derrubar a organização do Maralto, era no mínimo esperado que a série trouxesse mais do que simplesmente blocos das provas para o Processo, um capítulo inteiro (o pior da temporada) dedicado à vida de Ezequiel, o controlador do Processo, e conflitos internos que mostram que os dois lados não são assim tão diferentes, quase lembrando uma das linhas de pensamento de A Cidade & A Cidade.

Para uma base geral de uma sociedade dividida, o melhor caminho a ser tomado é a apresentação clara do que faz os dois lugares serem diferentes, até para sustentar as ideias dos que acreditam no Processo e as motivações de revolução da Causa, que pela forma como foi apresentada nos roteiros, deu mais munição para aqueles que afirmam que são uma organização criminosa e não um grupo que está lutando para que os horrores desse processo não exista e que haja uma forma de todos terem uma vida digna.

Sintam o tom do discurso. Mas isso é abstraído do texto, não está lá. Falta base externa (porque as pessoais, mal e mal, estão lá) para dar significado às ações. E antes que haja um dedo levantado, é bom deixar claro que aqueles pequenos blocos dramáticos sobre a vida de cada personagem NÃO tinham a intenção e nem peso para contextualizar a sociedade. Eles davam uma visão a partir do olhar do personagem. Ao fim, nós sustentamos a tese de que existe um lado bom e um ruim mais porque o roteiro martela isso em falas o tempo inteiro ao invés de simplesmente criar algo para mostrar essa dualidade. E não, a dicotomia entre Processo e situação no Continente não vale. Essa é a casca da história. Deveria haver muito mais por dentro. O drama particular, na linha dos “textos de lágrimas”, toma conta de 3%.

SPOILERS!

Alguns personagens são interessantes por diferentes motivos, mas quase nenhum deles permanece interessante até o fim. Rafael (Rodolfo Valente) começa bem, mas tem um desenvolvimento cada vez menos digerível. E para um personagem “chato” como ele (esse “chato” é o “chato” bom, aquele personagem que você quer matar, que te faz ficar com raiva toda vez que aparece, pela força dramatúrgica que tem), um bom desenvolvimento seria essencial, mas ele recebeu falas cada vez mais vazias, com a intenção de serem boas tiradas de sarro, e foi alterando sua configuração ao longo dos episódios, terminando como alguém que quase desiste do Processo e faz “caso” porque no Maralto todos são esterilizados. Simplesmente não combina com ele.

Mas creio que ninguém tem um destino tão patético e tão ingrato quanto a Joana (Vaneza Oliveira) e Fernando (Michel Gomes). O último episódio descarateriza-os completamente, dando-lhes um caminho pré-definido para a Causa e fugindo de tudo o que estava no processo. A neurose de Fernando por Michele (Bianca Comparato) é sem dúvida a pior inserção para a linha de qualquer personagem da série e a brincadeira de montanha-russa com Ezequiel (João Miguel, não inteiramente à vontade em todos os episódios) também não traz nenhum benefício. As únicas personagens que foram construídas com coerência e tiveram bons destinos na reta final foram Aline (Viviane Porto) e principalmente Cássia (Luciana Paes).

O espectador de 3% não vai deixar de gostar da trilha sonora (Elza Soares em destaque!), mas lamenta um pouco pela repetição, ao invés da variação. As inserções digitais como telas e câmeras nesse Universo são muito boas. O único gadget que parece simplesmente estúpido é o anel comunicador.

Com alguns diálogos dispensáveis e até risíveis, misturados com boa crítica social e um roteiro que tem sim momentos instigantes, mas que se perde muito rapidamente, a primeira série brasileira da Netflix precisa passar por uma revolução textual intensa para chegar ao nível das boas séries da empresa a que estamos acostumados. Existe potencial para isso. Basta saber se vão fazer bom uso, caso tenham a chance de uma segunda temporada.

***

RESPONDAM: O que você acha do Processo guiado por Ezequiel? O caminho para o Maralto é justo?

3% – 1ª Temporada (Brasil, 2016)
Criador: Pedro Aguilera
Direção: Jotagá Crema, Daina Giannecchini, Dani Libardi, César Charlone
Roteiro: Cássio Koshikumo, Denis Nielsen, Ivan Nakamura, Jotagá Crema, Pedro Aguilera
Elenco: João Miguel, Bianca Comparato, Michel Gomes, Rodolfo Valente, Vaneza Oliveira, Rafael Lozano, Viviane Porto, Mel Fronckowiak, Sérgio Mamberti, Zezé Motta, Celso Frateschi
Duração: 8 episódios de 50 minutos

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.