Crítica | 303 (2018)

Desde Os Edukadores, Hans Weingartner mostrou-se um anarquista cujas ideias não vão muito além do que um garoto do ensino médio é capaz de elaborar. Talvez por isso seus anseios sejam interpretados sempre por jovens ou pessoas sem forte representatividade, por haver um certo respeito à intelectualidade e a total noção de que aquilo que é pregado em cena não passa de ideais rasas de cartilha, concebidas com muita empolgação juvenil, mas pouquíssimo conteúdo.

303 tem muitos elementos semelhantes aos de Os Edukadores, mas sua abordagem é diferenciada. O filme de 2004 reverbera uma suposta soberba do saber cujas pretensões perdem-se numa espécie de coito interrompido, e nada acaba sendo levado aos limites, justamente por não ter material suficiente a ser lidado. A vanglória do diretor morre na praia e nada é o suficiente pra destacar nem o filme nem os ideais do diretor. Já em seu mais recente trabalho, Weingartner abdica de um suposto juízo intelectual e parte para um tratamento completamente informal a respeito do jogo político que buscou ao longo da carreira.

Weingartner encontra dentro do Road Movie um protótipo de discussão cujo propósito está muito além de chegar à qualquer conclusão. Jule concede carona a Jan, e os dois viajam pela Europa em um trailer, debatendo sobre diversos temas envolvendo política, vida acadêmica ou relacionamentos. São dois jovens estudantes que reproduzem suas certezas e filosofam na base do martelo, concluindo que nada que lhes era real era uma verdade por assim dizer, redescobrindo o sentido de muitas coisas graças à experiência de finalmente olhar com os olhos do próximo. De certo modo, a arrogância que atrapalhava Weingartner de dirigir um filme que prestasse aqui é crucial para a construção dos personagens, que aos poucos abandonam a prepotência para enfim tornarem-se pessoas melhores e mais sábias.

O filme tem como grande mérito reconhecer as discussões dos dois como algo indiferente a trama: são assuntos tratados superficialmente e notavelmente o diretor é consciente nessas decisões. O papo diversas vezes é interrompido por algo que acontece na estrada, um novo questionamento, uma parada para ir à praia. O aprendizado dos jovens vai muito além da concepção acadêmica de conhecimento formal, os dois abandonam as próprias pretensões para descobrir coisas mais simples, no entanto muito mais importantes para o crescimento dos dois.

O diretor está de parabéns em dar um pulo tão grande dentro da carreira, mas ainda assim, o filme tem tantos problemas quanto proezas. O texto, mesmo que com as melhores intenções, é prolixo, muitos assuntos são comentados uma porção de vezes, e alguns momentos o filme parecia como uma grande enciclopédia inacabada de assuntos pra conversar no bar. Sem contar que a longa duração transforma o relacionamento dos dois numa parábola, quanto mais o tempo passa mais você torce para que os dois não fiquem juntos. Espero que no próximo filme Weingartner consiga unir sua nova forma de ver o mundo à um talento cinematográfico.

303 – Alemanha, 2018
Direção: Hans Weingartner
Roteiro: Hans Weingartner, Silke Eggert
Elenco: Male Emde, Anton Spieker, Arndt Schwering-Sohnrey, Thomas Schmuckert, Hannah Schroder, Caroline Erikson
Duração: 119 min.

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.