Crítica | 31

estrelas 3

Rob Zombie é um cineasta que parece ter acolhido para si uma das expressões mais populares utilizadas pelos brasileiros para denominarem-se em situações desafiantes: “não desiste nunca”. O artista da música ficou conhecido pela banda White Zombie, mas adentrou no terreno da carreira solo em meados de 1998. Apesar dos trajes dentro do esquema que obedece piamente o estilo roqueiro de ser, foi no cinema que o profissional se estabeleceu desde os anos 2000.

Para gosto de uns e desgosto de outros, Zombie renovou a franquia Halloween, saga de Michael Myers, brincou de David Lynch em As Senhoras de Salem e desta vez, criou uma trama que traz traços de filmes como Jogos Mortais e O Massacre da Serra Elétrica, misturados ao clima anárquico de Esquadrão Suicida, salvas, obviamente, as devidas proporções, além de um clima de road-movie.

Através de referências ao slasher e ao explotation dos anos 1970, 31 constrói o seu tecido narrativo através de imagens saturadas, direção de arte retro e clima claustrofóbico. O argumento é tributário de outros clássicos do terror: cinco pessoas são sequestradas antes do Halloween e mantidas como reféns em um local distante e asqueroso, intitulado Murder World, tendo em vista a participação forçada em um jogo sangrento chamado 31.

Neste insano espetáculo de horror, os participantes precisam sobreviver por 12 horas dentro de um local com níveis e diversos desafios. A cada instante, a permanência é testada através de perseguições envolvendo figuras bizarras, tais como palhaços assassinos e maníacos com motosserras. E neste terreno, Rob Zombie adora se esparramar.

Mais uma vez, o cineasta contou com a irreverência de Malcolm McDowell e da sua esposa, a atriz Sheri Moon, outra vez num desempenho “excêntrica”, desta vez, ocupando o tipo final girl, elemento fundamental do slasher.  Richard Blake, em ótima performance, dá vida ao mais insano e mortal dos assassinos, escolhido inteligentemente como último nível do jogo, etapa mais visceral do jogo, “onde os fracos” não tem chance alguma.

No que tange aos aspectos técnicos, 31 é a “cara” do cineasta Rob Zombie: há bastante gore, nudez e bastante violência.  A montagem aposta num estilo picotado, com mixagem de som e trilha sonora barulhenta, transformando a trama num produto audiovisual histérico. Dream On, do Aerosmith e California Dreamin, do The Mamas and The Papas, surgem para dar o tom em duas cenas específicas, soando como boa escolha por parte da produção. A segunda, principalmente, graças ao seu estilo anos 1970 (a produção é de 1976).

Apesar de não ser diferente do que o cineasta já fez antes, desta vez, o roteiro apresenta muitas lacunas, talvez propositais. O tema também não é tratado com a complexidade que esperamos, afinal, depois de tantos investimentos da indústria neste tipo de narrativa, ao menos um plot twist arrasador era esperado por parte do público do Festival de Sundance, em janeiro de 2016, evento que acolheu o filme e demarcou a sua estreia.

Se os problemas fossem apenas narrativos, 31 não teria tantos percalços. Os fãs do cineasta parecem não se importar com o estilo e constantemente perdoam as suas mancadas narrativas. A produção foi submetida duas vezes ao MPAA (Motion Picture Association of America) e nas duas tentativas, recebeu a indesejável classificação NC-17. Dentre as justificativas do documento havia as seguintes notas: violência gráfica em demasia, nudez e sexualidade em tons bizarros, imagens perturbadoras e linguagem chula.

Produzido através de um extenso processo de crownfunding, um financiamento coletivo que consiste na obtenção de capital para iniciativas de interesses múltiplos, 31 conseguiu ser finalizado e ainda aguarda o lançamento comercial. Rob Zombie, consciente do caráter ultrajante de sua produção, sabe que o filme ganhará projeção em plataformas virtuais de lançamento, bem como circulação em festivais e demais eventos, tamanho desinteresse das salas de cinema em exibir um filme que perca grande fatia do público juvenil por conta de uma classificação mais restrita.

31 (31) – EUA, 2016
Direção: Rob Zombie
Roteiro: Rob Zombie
Elenco: Jeffrey Daniel Phillips, Richard Brake, Sheri Moon Zombie, Andrea Dora, Daniel Roebuck, David Ury, Elizabeth Daily , Esperanza America, Malcolm McDowell, Meg Foster
Duração: 102 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.