Crítica | 4,1 Milhas (4.1 Miles)

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estrelas 4,5

Lesbos é uma ilha grega localizada no Mar Egeu com 53 km² e uma população pouco maior do que 86 mil pessoas. Sua economia é baseada na agricultura e no turismo, com uma infraestrutura não mais do que modesta. E por que esses dados todos? Simples (ou  complicado): ela fica a 4,1 milhas de distância da Turquia, por onde, desde 2015, já chegaram mais de 600 mil refugiados da Síria.

Parem e pensem bem na magnitude disso.

Tentem calcular de cabeça quantos refugiados precisaram ser resgatados das águas neste período. Mesmo que aceitemos conservadoramente que metade do número de refugiados efetivamente aportou na ilha sem maiores problemas, são ainda 300 mil em alto mar, o que significa algo como 820 pessoas resgatadas por dia, todo dia, durante um ano. Não há estrutura que aguente isso e, se o problema dos refugiados já é seríssimo, o dos habitantes da ilha – que viram seu turismo diminuir radicalmente neste período – também não fica atrás. E, mesmo assim, eles ajudaram e ainda ajudam os refugiados sem pensar duas vezes ao ponto de dois habitantes terem sido nomeados – em nome da ilha – para levar o Prêmio Nobel da Paz.

Mas 4,1 Milhas não lida com esses números todos e nem está preocupado em didaticamente chamar o pessoal de lá de heróis. O que Daphne Matziaraki faz em 26 minutos, Orlando von Einsiedel não conseguiu fazer em 40 com seu Os Capacetes Brancos, fundamentalmente sobre o mesmo tema. Se no citado documentário o tom propagandístico imperou, aqui o que governa a fita de Matziaraki é o altruísmo puro e simples em belíssima demonstração da capacidade de fazer o bem do espírito humano. Os dados estatísticos que trouxe acima e a destruição da indústria turística do local são elementos que decidi citar apenas para situar o leitor perante a grandiosidade da coisa, pois o documentário é silente sobre isso. Não há choro nem lamento pela condição dos habitantes de Lesbos. Não há nomes sendo alçados ao panteão dos heróis. Não há entrevistas auto-indulgentes. Há, apenas, atos. E, como diz o ditado português, “vale mais a boa ação que a oração”. 4,1 Milhas prova isso.

Sem perder um segundo sequer, o documentário nos coloca em meio a diversas ações de resgate, mantendo o foco fundamentalmente em um capitão da guarda costeira que permanece sem nome e que quase não fala, apesar de expor um semblante revelador a cada novo resgate de que participa. E o trabalho dele e de sua equipe não é apenas diário, mas sim a cada uma ou duas horas, chova ou faça sol. Minutos de atraso significam vidas que se perdem e os gregos não hesitam, não piscam, não param. E a câmera na mão ou presa à cabeça, muito bem manipulada, já que não treme demais, traz uma riqueza de detalhes sobre diversas operações de resgate, muitas bem sucedidas, algumas trágicas, com imagens fortes, mas ao mesmo tempo esperançosas. É como participar desses momentos excruciantes, aplaudindo o sucesso ou chorando com o fracasso. A imersão que o documentário traz é bem vinda e muito relevante, desnudando a questão sem objetificá-la, sem didática ou arrogantemente explicar o que acontece.

E, talvez mais sensacional ainda do que os próprios homens que embarcam em suas naus sem nem pensar no amanhã, são as pessoas que esperam os refugiados no porto. Pessoas comuns que não precisavam estar lá. Pessoas que largaram seus negócios nas lojinhas e restaurantes locais. Pessoas que provavelmente estão passando maus bocados financeiros em razão da diáspora árabe e da frágil economia de seu país. Homens e mulheres que pararam suas vidas para doá-las a outros que precisam mais do que eles próprios. Sem interferir com narrativas intrusivas, a diretora de 4,1 Milhas transforma seus espectadores do mundo todo em gregos de Lesbos por alguns minutos, ao mesmo tempo que levanta a bandeira de alerta sobre o que está acontecendo naquela região.

Se voltarmos aos anos 1920 e nos debruçarmos sobre a história de Lesbos, lembraremos que mais de um milhão de gregos cristãos ortodoxos foram expulsos da Turquia para a ilhota e, muito provavelmente, os pouco mais de 80 mil habitantes locais são netos, bisnetos e tataranetos desses refugiados de 100 anos atrás. É a história que se repete. E Lesbos mantém seus braços abertos e seu espírito pronto para acolher irmãos vindos de outro continente. E 4,1 Milhas funciona como um pungente registro de Humanidade.

4,1 Milhas (4.1 Miles, EUA – 2016)
Direção: Daphne Matziaraki
Com: Christos Sapounas, Giorgos Tsagarellis
Duração: 26 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.