Crítica | 45 Anos

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estrelas 4

A gente vive toda uma vida pensando no dia da nossa aposentadoria e do merecido descanso. Claro que, além de sombra e água fresca queremos um final de cinema, com uma pessoa ao nosso lado para nos aturar na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, todos os dias da nossa existência: um verdadeiro final feliz, como nos filmes. Pois aí chega Andrew Haigh e mostra que o felizes para sempre nem sempre é para sempre. 45 Anos tem apenas uma indicação ao Oscar, para a atriz Charlotte Rampling, mas essa lembrança vai ajudar com que o filme seja visto por um número maior de pessoas, o que é uma grande vitória.

O filme começa com os preparativos para a festa de 45 anos de casamento de Kate (Charlotte Rampling) e Geoff (Tom Courtenay). Eles vivem em uma pacata cidade do interior da Inglaterra na companhia de um cachorro e dividem seu tempo com leituras, visitas de amigos e só. Sem filhos, ao que parece, por opção, os dois vivem bem os dias de velhice e são felizes no seu mundo. Só que cinco antes da tão esperada comemoração, Geoff recebe uma carta onde diz que o corpo de sua primeira namorada foi encontrado nos Alpes Suíços. Ela morreu há muitos anos em uma expedição em que ele também estava e seu corpo nunca tinha sido encontrado. A notícia cai como uma bomba para Geoff que começa a recordar fatos nunca antes revelados para a esposa. Mas quem vai realmente sofrer com a novidade é Kate, que deixa o ciúme tomar conta de si e começa a questionar os anos de dedicação a esse relacionamento.

A direção de Haigh mescla bem os sentimentos vividos pelos dois protagonistas. Através de ângulos mais abertos, quando mostra o dia a dia do casal, e também momentos onde os closes se fazem necessário, para explorar toda a fragilidade daquele relacionamento. O roteiro, assinado pelo próprio Haigh, cria um clima de tensão ao longo do passar dos dias e da aproximação da comemoração dos 45 anos de casamento. A medida que novas revelações vão acontecendo, Kate e também Geoff iniciam uma jornada interna, uma busca pelo seu passado e uma reflexão sobre a vida juntos e o futuro do casal.

É preciso destacar a dupla de protagonistas que leva o longa nas costas. Charlotte e Tom foram ganhadores, entre outros prêmios, do Urso de Ouro no Festival de Berlim do ano passado. Charlotte ainda conseguiu emplacar uma indicação merecida ao Oscar desse ano. Chega como zebra, já que Brie Larson de O Quarto de Jack aparece como a favorita absoluta da noite. Mas Charlotte se entrega de corpo e alma a essa personagem cheia de camadas, dúvidas e incertezas em relação a um relacionamento que ela acreditava ser perfeito. Ao longo dos acontecimentos ela vai dando um ar mais preocupado à personagem, que culmina no final do filme absolutamente triste e melancólico, mas ao mesmo tempo tão verdadeiro. De fato, a cena final na festa de casamento é daquelas que valem por um filme inteiro. Uma mais que merecida indicação para uma da atrizes mais talentosas de sua geração.

45 Anos é daqueles títulos que você sai do cinema com um sentimento dúbio. Mais ou menos como aconteceu com um outro filho que aborda um casal já na velhice, o excelente Amor, de Michael Haneke. Como um filme tão simples e com tão poucos atrativos à primeira vista pode ser tão avassalador. Pode ser pelo elenco impecável e também pelos recursos de direção e roteiro, mas acredito que seja mesmo pela dura e cruel realidade que exibe na telona. Mostra a vida que a gente não quer ver, aquela que a gente esconde das redes sociais e nós mesmos. Um filme duro, mas absolutamente necessário.

45 Anos – (45 Years – Reino Unido/2015)
Direção: Andrew Haigh
Roteiro: Andrew Haigh
Elenco: Charlotte Rampling, Tom Courtenay, Geraldine James, Dolly Wells
Duração: 90 minutos

GISELE SANTOS . . Gaúcha de nascimento, mas que não curte bairrismos nem chimarrão! Me encantei pelo cinema ainda criança e a paixão só cresceu ao longo dos anos. O top 1 da vida é "Cidadão Kane", mas tenho uma dificuldade enorme de listar os melhores filmes da minha vida. De uns anos para cá, os filmes alternativos têm ganhado espaço neste coração que um dia já foi ocupado apenas por blockbusters pipoquentos.