Crítica | 47 Ronins – Minissérie Completa

estrelas 4,5

Quem conhece um pouco de cultura japonesa com certeza já deve ter ouvido falar da história dos 47 ronins, uma das mais icônicas representações do código de ética dos samurais, o bushido. Esse código permeava todas as classes de guerreiros japoneses, e foi construído de maneira lenta, ao longo dos anos. Em essência, o código trazia as seguintes premissas: fidelidade, dever, coragem, auto-disciplina e espírito de sacrifício. Um samurai honrado tinha esse código como pedra angular de sua existência.

A história dos 47 ronins se tornou uma das mais conhecidas da cultura japonesa e desde o século XIX vem encontrando recontagens e adaptações em livros, peças, cinema, TV e quadrinhos. A presente versão de Mike Richardson e Stan Sakai é particularmente interessante porque traz da crônica secular todos os seus principais eventos e trata de maneira sóbria e bastante verossímil o processo que deu origem ao conflito, bem como o seu trágico encerramento – embora a tragédia esteja mais no começo do que no final, onde o sentimo em pauta é outro.

Por se tratar de um evento de honra e vingança, não são todas as adaptações que conseguem relatar o que se passou com a devida carga dosada de emoções e tendo uma equilibrada atenção para as partes essenciais: a de Kira, o corrupto homem do Shogun; a de Asano, o daimyo injustiçado; e a dos ronins, que arquitetaram uma vingança a longo prazo.

Metáfora de Asano sobre a vida, enquanto se despedia da filha. Um motivo que seria utilizado no roteiro num dos momentos mais marcantes da história.

Nessa minissérie, as famílias dos samurais estão presentes em todo o tempo, uma escolha acertada do roteirista. Lançar mão dessa principal instituição japonesa – núcleo de milenar tradição – para dar contexto a uma ordem de guerreiros guiados por um importante código e ética não foi o caminho mais fácil, porém, foi o caminho que resultou no melhor produto final. Nada poderia fazer mais sentido para a trama.

Mike Richardson é perspicaz em dois principais sentidos: primeiro, na realização de um ciclo honorífico em torno da lenda; segundo, a forma bastante orgânica de encadear os fatos, utilizando de básicos elementos de passagem do tempo, mas não deixando-os como meros pontos de corte para a sequência seguinte, mas como consequências imediatas. Até a explicação para o início um pouco… “solto” é realizada com cuidado, trazendo um coadjuvante que marca certo ponto da história, para prestar honra a quem ele julgava não ter.

A arte de Stan Sakai dá aos cenários uma aparência bastante simples, mas não carente de detalhes. Os traços do artista são bem delineados, mas seus desenhos não possuem finalização rebuscada. Aqui, ele privilegia a figura antrópica à paisagem, principalmente em quadros emotivos e nas maravilhosas cenas de luta, com destaque para a sequência de invasão ao residência de Kira.

Também é importante destacar a quantidade de closes nas personagens e os momentos exatos em que isso acontece. Não se trata de uma aproximação barata dos samurais junto ao leitor, para dar respaldo a alguma escolha do roteiro. Nada disso. A arte de Sakai ao mesmo tempo que aproxima, afasta o leitor, talvez por sua caracterização de espaço pouco usual (no melhor sentido visual que isso possa ter), ou talvez pelo importante equilíbrio de concentração de objetos, pessoas e detalhes nas páginas dos cinco volumes.

O início da grande noite de vingança.

Mesmo para quem conhece bem a história, essa minissérie pode trazer um importante olhar para o elemento familiar e pessoal dos guerreiros envolvidos, algo às vezes negligenciado nas adaptações (se querem algo bom dentro dessa premissa no cinema, sugiro que vejam A Vingança dos 47 Ronins, de Kenji Mizoguchi).

Com ótimo roteiro, arte e cores, essa versão dos 47 ronins acerta na objetividade e seriedade de seu foco narrativo, não fugindo um único momento de sua via principal, mas ao mesmo tempo, mostrando um grande número de caminhos para quem lê. Uma aventura capaz de nos colocar para pensar por alguns minutos.

47 Ronin (EUA, 2012/2013)
Minissérie em 5 edições.
Roteiro: Mike Richardson
Arte: Stan Sakai
Cores: Lovern Kindzierski
Editora: Dark Horse Comics (EUA)
32 páginas (cada número)

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.