Crítica | (500) Dias com Ela

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estrelas 4,5

“Esta crença originou-se pela exposição precoce à triste música pop britânica e uma total má interpretação de A Primeira Noite de um Homem”Narrador comenta sobre a crença de Tom de que ele nunca seria verdadeiramente feliz até que conhecesse a garota certa.

Comédias românticas com protagonistas masculinos tendem a seguir uma estrutura narrativa pré-determinada. Jovem fracassado, porém apaixonado, conhece garota dos sonhos. Jovem apaixonado, porém atrapalhado, acaba fazendo com que garota dos sonhos se apaixone por ele. Garota dos sonhos e jovem apaixonado vivem uma linda história de amor. Um obstáculo surge e então, jovem apaixonado e garota dos sonhos passam por um conflito. Enfim, a incrível história de amor encontra uma conclusão. A óbvia, transposta em boa parte da filmografia de Adam Sandler. E a menos óbvia, mas ainda sim frequente, pseudo subversão conclusiva, ou seja, jovem apaixonado e garota dos sonhos seguindo caminhos diferentes. A subversão do gênero, de fato, seria uma abordagem não usual do desenvolvimento da relação, propondo em diversos casos, uma discussão mais profunda sobre os caminhos que os personagens da obra tomam.

(500) Dias com Ela é, no caso, uma perfeita exploração de um relacionamento mal sucedido. Podendo ser considerado um longa quase que descritivo, o filme permite com que um espectador que tenha passado por uma decepção amorosa sinta-se em casa. Na trama, somos apresentados a Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt), jovem fracassado, porém apaixonado, que se encantou por Summer (Zooey Deschanel), sua garota dos sonhos. Os dois acabam namorando, até que ela termina o relacionamento, por nenhum motivo aparente, e faz o mundo de Tom, jovem sonhador, desabar.

A história começa no ducentésimo nonagésimo dia desde que Tom olhou pela primeira vez os olhos azuis e brilhantes de Summer. É o fatídico dia do término, e cabe a , Rachel (Chloë Grace Moretz), após ser chamada pelos amigos de Tom, ir para a casa de seu irmão mais velho, conversar com ele e entender o que de fato aconteceu. Somos jogados para memórias anteriores, e a história recomeça no seu primeiro dia. Garoto conhece garota.

Fugindo de uma narrativa linear, os 500 dias de Tom com Summer são expostos de forma dispersa, deixando a história ainda mais palpável, orgânica. Sem em nenhum momento deixar o espectador confuso com a cronologia dos acontecimento, essa jogada inteligente funciona de modo a manipular os olhos do público para com a situação e deixá-lo ainda mais indignado com Summer, o par romântico do protagonista. O filme faz um trabalho de personagem de modo a antagonizá-la em relação a Tom. Pelo menos, supõe-se um antagonismo narrativo. O diretor Marc Webb, é extremamente competente em simpatizar o protagonista. Após a primeira noite de sexo dele com Summer, há uma extraordinária sequência musical que expressa muito bem a alegria que o personagem está sentindo. Lúdica, a sequência tem no seu final um abrupto contraste com o futuro, onde nada alegre, o personagem de Joseph Gordon-Levitt está completamente agoniante, acabado, quase digno de pena.

“Como eu vou saber se você não vai acordar amanhã e pensar diferente?” – Tom indaga Summer sobre o futuro do relacionamento entre eles.

Após a inventiva e belíssima abertura, ao som de Us, de Regina Spektor, o diretor nos presenteia com várias montagens que fogem do convencional. A presença de um narrador (Richard McGonagleé eficiente, verbalizando alguma situações, sem as deixar, no entanto, expositivas. Após o término da relação, Tom consegue, mesmo sem querer conseguir, superar, mesmo sem querer superar, a presença, e consequente, saída de Summer de sua vida. Reencontrando-a, em uma ocasião inesperada, todos aqueles sentimentos retornam. Bons momentos são brevemente vivenciados. Sem entender sinais, Tom é convidado para uma festa pela garota, e toda a chama do jovem apaixonado, sonhador e atrapalhado retorna. A montagem conflituosa entre as expectativas e a realidade, nua e crua, é dolorosamente amarga, mas honesta. Tom é um romântico, convicto de que quando o coração ama alguém, aquilo é destinado a ser amado para sempre, e principalmente, amado por ele.

A interpretação do público é mais direcionada para o que se passa na mente de Summer, e não na mente de Tom. Por que ela teria deixado Tom amá-la tão intensamente se ela não compartilhava do mesmo sentimento? E por que ela teria criado novas expectativas ao garoto se a realidade não se equivaleria a elas? A resposta, simples, se baseia na vida. Os bons momentos que os dois tiveram existiram. A paixão existiu. Mas aquilo não seria para sempre. Summer desconfiava disso, enquanto Tom, jovem apaixonado, que um dia interpretou A Primeira Noite de um Homem errado, não. Por que aquele garoto seria diferente de todos os outros amantes que ela já tivera? Um dia a resposta veio. Para ela. Exímio em seu papel narrativo, o diálogo final entre garota dos sonhos e jovem apaixonado complementa a história, que se finaliza com a descoberta de uma nova estação.

O longa, infelizmente, não consegue conciliar os personagens coadjuvantes com a história principal, sendo que Rachel, a irmão mais nova de Tom, poderia ter sido simplesmente descartada. A exceção á regra está na concepção de amor que McKenzie (Geoffrey Arend), Paul (Matthew Grey Gubler) e Vance (Clark Gregg) fazem em uma sequência metalinguística. A metalinguagem também está presente numa graciosa conjuntura de pequenas inserções de Tom dentro do filme que ele está assistindo no cinema. Referencia-se assim desde o cinema de Charlie Chaplin, ao filme de Ingmar Bergman, O Sétimo Selo. Um espetáculo à parte. É importante notar que reside-se, no longa, o clichê da importância da garota dos sonhos para a criação de uma nova perspectiva profissional, que no caso seria a saída de Tom da empresa de confecção de cartões, para a entrada do garoto no ramo arquitetônico, seu sonho. Nada realmente importante, e que ofusque o brilho do resto do longa.

“Tom finalmente aprendeu que não existem milagres. Não existem coisas como o destino. Nada está destinado a ser. Ele sabia. Ele tinha certeza disso agora.” – Narrador verbaliza os sentimentos e pensamentos de Tom sobre relacionamentos.

Puxando bastante de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, (500) Dias com Ela é uma celebração dos amantes apaixonados, das músicas pop, dos filmes românticos, dos poemas romancistas. Não é uma história de amor, em seu aspecto mais juvenil e pueril. É uma história sobre relacionamentos e como bons momentos continuam a ser bons momentos, mesmo que eles não possam mais serem criados com a mesma pessoa. In My Life, do grupo britânico The Beatles, comenta sobre uma vida repleta de amores e amigos. A canção fala de como esses amores e amigos, foram todos amados, e tiveram seus momentos em seus respectivos lugares, alguns ainda existentes e outros não. Lugares que a memória ainda consegue se lembrar. O afeto pelos que já se foram – vivos ou mortos – continua, apesar de que agora, há um novo alguém para no qual o amor é maior do que todos os anteriores. O amor se cria, como se fosse algo novo, surgindo do nada, assim como o outono surgiu do verão.

(500) Dias com Ela (500 Days of Summer) — EUA, 2009
Diretor: Marc Webb
Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Zooey Deschanel, Geoffrey Arend, Chloë Grace-Moretz, Matthew Gray Gubler, Clark Gregg, Patricia Belcher, Rachel Boston, Minka Kelly, Richard McGonagle
Duração: 95 min

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?