Crítica | 7 Dias em Entebbe

A recente polêmica envolvendo a série O Mecanismo, do diretor brasileiro José Padilha, não parece ter chegado ao fim. Ainda no epicentro não só da celeuma envolvendo a série da Netflix mas também de toda a conjuntura política efervescente atual no Brasil, chega aos cinemas o mais novo longa-metragem do cineasta – 7 Dias em Entebbe. Padilha mantem seus olhos sobre a política, mas agora revisita, com o devido distanciamento têmporo-espacial, o caso do sequestro do vôo da Airfrance que iria de Tel-Aviv para Paris, em 1976. A aeronave, tomada por dois terroristas palestinos e dois alemães simpáticos à sua luta, fora obrigada a pousar na cidade ugandense de Entebbe. Padilha reconstrói o episódio em tom documental quase todo o tempo. Seu esforço de tentar equilibrar todas as visões envolvidas é bastante claro, mas não agradou nem ao público e nem à crítica da última edição da Berlinale – curiosamente, o mesmo festival que condecorou seu primeiro filme, Tropa de Elite, com o Urso de Ouro.

O filme de Padilha alterna entre dar voz aos terroristas, com suas motivações e suas dores, e fazer críticas ao próprio discurso revolucionário. Duas cenas tornam isso bastante evidente. Na primeira, um dos palestinos narra algumas de suas marcas biográficas mais dolorosas, que motivaram em grande medida a sua radicalização. Já na segunda, um engenheiro de vôo dialoga com o terrorista alemão Wilfried Bose (Daniel Brühl) enquanto conserta o encanamento do aeroporto que funcionava de cativeiro dos sequestrados. “Um engenheiro vale por 50 revolucionários”, provoca o bom personagem de Denis Ménochet. Padilha aqui cria um espectro de reflexões sobre o próprio sentido daquele atentado. Não há personagens tão retos a ponto de estarem cegamente determinados e nunca expressarem suas próprias dúvidas e hesitações. Não há heróis, não há vilões e não há discursos prontos que conduzam como único norte 7 Dias em Entebbe. Isso é positivo, sem dúvidas. O problema é que esses bons momentos são apenas pontuais.

Se a intenção de Padilha era de esmiuçar um pouco mais da psicologia dos terroristas, seu filme infelizmente não consegue sair de um mero esboço disso. Parte do problema está no roteiro de Gregory Burke, que constrói um texto raso demais para que aqueles personagens reais e tão complexos sejam desenvolvidos a contento. Outra parte do problema está na própria direção, bastante genérica em muitos momentos e que não consegue compor aqueles homens de camadas realmente convincentes. O diretor tem em suas mãos um bom elenco (além de Brühl e Menochét, podemos destacar Rosamunde Pike e Eddie Marsan), mas o desperdiça ao dirigi-lo com um estranho excesso de preocupação documental. A angústia dos eventos, que se passaram ao longo de uma semana inteira, é pouco ou nada sentida. Mas talvez o principal problema de 7 Dias em Entebbe seja mesmo a sua montagem. Os cortes excessivos entre os sequestradores e o backstage geopolítico tornam a narrativa morna, confusa e sem inflexões dramáticas significativas até o terceiro ato. Sequestradores, sequestrados e até homens públicos da envergadura de Itzhak Rabin e Shimon Peres terminam desinteressantes e ocos.

Padilha sente que a história que conta merece mais do que ele consegue entregar. Penso que ele acusa isso de modo claro quanto tenta introduzir algo de original em seu longa-metragem. O espetáculo de dança, que abre o filme com certo tom nonsense, cria a expectativa de que será melhor inserido ao longo da projeção. Isso definitivamente não acontece. O ato final do filme tenta empreender uma virada dramática bastante súbita e mal preparada e a montagem de Daniel Rezende novamente falha ao comparar o balé dos corpos dos soldados israelenses invadindo o aeroporto ugandense com os movimentos sinuosos e peremptórios dos dançarinos no palco. O resultado fica simplesmente artificial e canhestro. Soa apenas uma tentativa de desviar a atenção do espectador para uma pretensa originalidade, que na verdade só esconde as insuficiências elementares do filme. Não há como inovar e subverter sobre uma base tão frágil e mal construída. Se a desonestidade apontada e duramente atacada em O Mecanismo é ideológica, em 7 Dias em Entebbe, ela é muito mais estética.

José Padilha escolheu como tema um episódio real já amplamente abordado por documentários, livros e filmes. Era de se esperar que ele conseguisse lhe dar novo fôlego ou que fosse capaz de desenvolver uma nova perspectiva sobre o cativeiro de Entebbe. Mas, quando sobem os créditos, o solo do bailarino apenas constrange por evidenciar, ainda mais, que o que Padilha intencionava não passou nem perto de realmente acontecer. Com tamanha preocupação em ouvir tantas vozes, 7 Dias em Entebbe termina por não ouvir dignamente nenhuma delas. Padilha segura demais a mão e ressurge, em longa-metragem, inesperadamente frio e engessado. Seu filme não funciona como documentário e menos ainda como cinema, pois não entende que a mecânica geopolítica (tão enfocada na obra) não pode estar tão descolada do drama humano envolvido, que acaba sendo lamentavelmente abafado.

7 Dias em Entebbe (Entebbe) – EUA, 2018
Direção: José Padilha
Roteiro: Gregory Burke
Elenco: Daniel Brühl, Rosamunde Pike, Eddie Marsan, Lior Ashkenazi, Denis Ménochet, Ben Schnetzer, Nonso Anozie, Peter Sullivan
Duração: 107 minutos

MARCELO SOBRINHO. . . .Médico e cinéfilo por paixão. Descobri com Hamlet a chave para o mundo das artes e dele nunca saí. De Chaplin e Buster Keaton a Iñarritu e Lars von Trier, adoro compartilhar minha interpretação de obras abertas e com múltiplos significados. Sempre em busca de perguntas e não de suas respostas.