Crítica | ’71

estrelas 5,0

Yann Demange. Lembrem-se desse nome. Ele é o diretor de ’71, seu primeiro longa-metragem e, espero, apenas sua primeira pequena obra-prima, que estreou no Festival de Berlim de 2014.

A fórmula em si é batida: sobrevivência em espaço confinado. Ela tem sido usada corriqueiramente em filmes de ação, com especial destaque para Operação Invasão, Dredd e o brasileiro Alemão. Desses três exemplos, Alemão é o mais próximo, por retratar uma guerra verdadeira também, mas ’71 acrescenta uma excelente camada de história e outra ainda de feroz crítica à banalidade da guerra.

A fita começa em um treinamento de novos recrutas do exército britânico que, não demora, são despachados para Belfast, na Irlanda do Norte. Lá, pela época em que a ação se passa, no começo da década de 70, a guerra civil está instalada, com ruas bloqueadas e com a cidade dividia entre protestantes fieis à Inglaterra com sua própria milícia e católicos do IRA. E mesmo dentro da estrutura do exército de libertação, há a facção mais tradicional, que se utiliza de métodos alternativos e facção mais rebelde e mais violenta, do tipo que mata sem dó nem piedade. É nessa guerra campal no meio da cidade que o destacamento em que o recruta Gary Hook (Jack O’Connell) é largado em uma missão em tese simples, mas que logo sai do controle completamente.

No meio da confusão, Gary se distancia de seu grupo e fica isolado atrás das linhas inimigas e tem que sobreviver do jeito que der. É essa luta de minuto a minuto, por um Gary desnorteado, ferido e literalmente perdido, que passamos a ser testemunha, com o diretor Demange nos colocando literalmente no meio do conflito, com o uso de uma câmera intrusiva com muitos planos médios e próximos e muita tremedeira, em tom semi-documental.

Mas não se enganem aqueles que torcem o nariz para a “câmera na mão”. Aqui, ela é fundamental, um verdadeiro instrumento impulsionador da narrativa. Acompanhamos Gary como se fôssemos ele e sentimos cada momento de desespero desse homem que só quer voltar para casa, para seu filho pequeno. E o diretor é cuidadoso com o trabalho de montagem de Chris Wyatt, impedindo que o espectador se desoriente junto com Gary. Nós sempre sabemos onde estamos e conseguimos identificar os vários personagens do lado do IRA, dos protestantes, do exército britânico e do grupo de espionagem dentro do exército. Todos eles convergem para Gary, como abelhas ao mel em um roteiro que não nos permite respirar.

E, ao costurar seus vários personagens na narrativa, o roteirista Gregory Burke, também estreante em longas, nos oferece doses generosas de aulas de história e de pesados comentários antibelicistas, que criticam todos os lados do conflito sem perdão. Seu trabalho é nos ensinar sem parecer que está ensinando e criticar sem fazer sermão, sem recorrer a textos expositivos artificiais, sem longas tomadas desnecessárias. Tudo acontece de forma orgânica graças à sua escrita exata e ao trabalho dedicado de Yann Demange, que também usa a trilha sonora em momentos cirúrgicos para fazer nossos corações bater mais forte.

’71 pode parecer mais uma obra sobre os horrores da guerra e é. Mas ela se destaca pela crueza, força e sua intensidade, fazendo-nos prender a respiração do primeiro ao último minuto. Um grande feito de um diretor que promete. Não lembra do nome? Vou repetir para você não esquecer: Yann Demange.

’71 (Idem, Reino Unido – 2014)
Direção: Yann Demange
Roteiro: Gregory Burke
Elenco: Jack O’Connell, Sam Reid, Sean Harris, Charlie Murphy, Paul Anderson, Sam Hazeldine, Killian Scott, David Wilmot, Richard Dormer, Martin McCann
Duração: 99 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.