Crítica | 9-1-1 – 1ª Temporada

Imagine a cena: uma criança dentro de uma boia numa piscina. Uma mãe grita desesperada do lado de fora, na tentativa de atrair socorro. Um acidente na rua derrubou um poste, o que espalhou fios para vários lados, inclusive para dentro da piscina onde a criança brincava. Os fios conduzem eletricidade e qualquer passo incorreto pode resultar numa tragédia. Estressante, não é mesmo? O que dizer de você receber uma ligação e precisar orientar pessoas que ficaram presas numa montanha-russa justamente no trilho que faz uma curva e deixa os passageiros de cabeça para baixo? Na altura em que estão qualquer deslize promove uma queda sem possibilidade de manter-se com vida. Como lidar? 9-1-1 vai mostrar para você, caso seja um espectador dos dez episódios deste incrível drama profissional repleto de situações perigosas e tensas.

Aos que estão domesticados pela linguagem televisiva que a cada dia inventa uma série nova, o mote da primeira temporada de 9-1-1 faz pensar “eu já algo parecido antes”. E não tenha dúvidas. Você com certeza já deve ter visto um produto similar, no entanto, os criadores do programa contam a mesma história de sempre por meio de episódios bem construídos e narrados com eficiência. Além das situações mais absurdas que possamos imaginar, os personagens gravitam em torno de roteiros com histórias edificantes e ainda melhor, são esféricos, sem os maniqueísmos que tornam programas desse tipo um festival de clichês enlatados para consumo rápido.

Criada por Brad Falchuck, Tim Minear e Ryan Murphy, a série se desenvolve por meio de dez episódios que giram em torno dos 45 minutos de duração. Os conflitos gerais são estabelecidos num breve preâmbulo, geralmente com uma ligação para o famoso serviço de emergência estadunidense. A atendente escuta cuidadosamente o problema e dá as primeiras instruções ao “desesperado” do outro lado da linha, tendo como função mantê-lo calmo e equilibrado até que o socorro acionado (polícia, bombeiros, esquadrão antibomba, dentre outros) chegue. Logo mais, durante a resolução de cada caso em especial, os personagens desenvolvem os seus conflitos internos.

Focada em problemas típicos dos agitados grandes centros urbanos, a série traz um amplo feixe de personagens, mas as presenças regulares e que impactam no desenvolvimento e resolução dos conflitos de cada um dos dez episódios são poucos. Abby Clark (Connie Britton) é a atendente do serviço de emergência que faz o possível para não se envolver emocionalmente com as pessoas que infelizmente, não conseguem sobreviver até a chegada do atendimento emergencial. Sem nada que dê uma paleta de cores mais viva para a sua vida, seu cotidiano é casa-trabalho, principalmente por conta da mãe que sofre de Alzheimer; Bobby Nash (Peter Krausse) é o personagem com melhor necessidade dramática e complexidade, pois precisa liderar a equipe de atendimento e guardar um segredo do passado que o açoita todos os dias.

Buck (Oliver Stark) é o estereótipo do bad boy bonitão e atraente nos primeiros episódios, mas ao passo que a série avança, o personagem ganha novos contornos; Athena Grant (Angela Basset) é uma obstinada policial que precisa enfrentar as adversidades da sua profissão e ainda aguentar o fracasso do seu casamento, pois o seu marido se assume homossexual e causa o estabelecimento de uma nova ordem na família; Henrietta Wilson (Aisha Hinds) é também dedicada ao seu posto como paramédica, tendo o desafio de manter seu casamento depois que uma antiga namorada problemática sai da cadeia e promete embaralhar a sua vida pessoal e profissional. Dentro do setor personagens ainda há destaque para o inseguro Chimmy (Rockmond Dunbar), um dos membros de equipe de Peter que precisará repensar as suas atitudes e a autoestima após um acontecimento inesperado.

Os tipos citados permeiam os dez episódios dirigidos por Barbara Brown, Bradley Buecker, Gwyneth Horder-Payton e Maggie Kiley, todos no mesmo nível de eficiência e mantenedores do ritmo necessário para os conflitos avançarem diante da quantidade de temas propostos pelo excelente arco dramático da série. Escritos por Brad Falchuck, Tim Minear e Ryan Murphy, criadores que também assinam a produção e dependem da equipe técnica para alcançar o resultado satisfatório, os episódios de 9-1-1 são erguidos pela cuidadosa direção de fotografia de Gavin Kelley (em especial para as cenas confessionais de Peter Krause na Igreja), o interessante designer de produção de Jeffrey Mossa, a condução sonora erguida pela dupla formada por Todd Haberman e Mac Quayle e a montagem, realizada por Peggy Tachdijan, Tom Constantino, Chris A. Peterson e Sean Aylward, equipe de profissionais em simetria visual e ritmo poético bem orquestrado.

Uma das qualidades, talvez o seu maior trunfo, é tratar de temas como alcoolismo, suicídio, homoafetividade e relações familiares sem tornar tudo um amontoado de adornos narrativos brega para fazer a plateia ir ao choro fácil. Ao tratar do estado psicológico de pessoas que vivem constantemente em situações “limite”, 9-1-1 nos apresenta um tratado sobre profissionalismo e flerta sobre como ser forte e separar o pessoal do trabalho quando o assunto é manter-se firme. Tudo isso sem parecer um panfleto cheio de mensagens motivacionais cretinas.

No que tange aos aspectos contextuais, 9-1-1 trabalha com a diversidade, marco das produções culturais nos últimos anos. Pessoas negras em posição hierárquica privilegiada, mulheres homossexuais surgem sem o típico mergulho em poções de estereótipos, diálogos contextuais e posturas políticas sem discurso panfletário/partidário. Não que o panfleto seja um problema, tampouco a posição partidária, mas tais questões poderiam tornar tudo uma grande distração. É tudo muito discreto e compõe bem o subtexto.

Renovada para uma segunda temporada, 9-1-1 tem o desafio de continuar relevante em meio à grande oferta de séries com temas similares.  Agora é aguardar para saber o que a série nos reserva em seu segundo ano. Jennifer Love Hewitt foi escalada e deve ocupar o lugar da personagem de Connie Britton. Ambas são talentosas e seguram bem narrativas dramáticas, então é possível que a série se mantenha no mesmo nível da primeira temporada.

9-1-1 – 1ª Temporada – EUA.
Showrunners:  Brad Falchuck, Tim Minear, Ryan Murphy.
Direção: Barbara Brown, Bradley Buecker, Gwyneth Horder-Payton, Maggie Kiley
Roteiro: Brad Falchuck, Tim Minear, Ryan Murphy.
Elenco: Connie Britton, Angela Bassett, Peter Krause, Oliver Stark, Aisha Hinds, Kenneth Choi, Rockmond Dunbar
Duração: 45 min (cada episódio – 10 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.