Crítica | A 13ª Emenda

estrelas 4,5

Ava DuVernay ganhou relevo com seu excelente Selma: Uma Luta Pela Igualdade, que lhe valeu duas indicações ao Oscar, uma delas de melhor filme. Mas Selma parece ser apenas o começo, pois, secretamente, a diretora rodou o documentário A 13ª Emenda que foi anunciado de surpresa como o filme de abertura do New York Film Festival de 2016 e ele é consideravelmente mais potente do que a história da marcha de Martin Luther King Jr. de Selma a Montgomery, no Alabama, em 1965.

A estatística inicial, que abre o documentário, já nos faz coçar a cabeça em descrédito: a população dos EUA corresponde a 5% da mundial ao passo que sua população carcerária corresponde a 25% (vinte e cinco porcento!) da mundial. Um sistema judiciário mais eficiente? Ou há algo mais por trás disso tudo?

As respostas não demoram a aparecer e o trabalho de pesquisa de Spencer Averick e da diretora, balizados em belas entrevistas ao longo da projeção, escancaram um sistema que pulou da escravidão ao encarceramento em massa, como resultado da manipulação do texto da 13ª Emenda da Constituição americana, a mesma que marcou a abolição do sistema escravagista ao final da Guerra de Secessão, em 1865. O texto da celebrada emenda é simples (tradução: Wikipédia): “Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado.”

DuVernay trabalha com elementos históricos para mostrar que a exceção que começa com “salvo como” serviu primeiro de salvo-conduto para o encarceramento de boa parte da população masculina negra logo após o final da Guerra Civil para fins de reconstrução dos estados sulistas destruídos. Esse processo de criminalização banal ligada à etnia gerado a partir das chamadas “leis Jim Crow”, teria ganhado nova roupagem após os movimentos de direitos civis dos anos 60 e 70, ganhando, a partir da presidência de Richard Nixon, uma sistematização ainda maior sob as nobres rubricas de “guerra ao crime” e “guerra às drogas”.

A diretora oferece riqueza de elementos para fazer essa transposição e comprovar que o sistema atual não é lá muito diferente do que existia no século XIX, pelo menos não em espírito e ela tem o mérito de assim fazer sem escolher um lado no espectro político americano. Ela não fala mal de republicanos e bem de democratas. No documentário, todos os políticos são literalmente farinha do mesmo saco e ela não perdoa ninguém ao longo de toda a projeção que só vai acrescentando elementos francamente aterradores e que são difíceis de contestar.

E, antes que me perguntem, já vou logo respondendo: não, DuVernay não oferece uma “solução” ao problema. E, muito sinceramente, não acho que ela deveria oferecer. Afinal, seu objetivo é diagnosticar o problema, escancará-lo completamente para levar a debates e discussões. Afinal, se nem reconhecermos que a questão existe, de que adianta falar em alguma forma de resolução? E também àqueles que porventura acham que todo o problema exposto por ela se resume aos EUA, por favor olhem para seus próprios umbigos e tenham um pouco mais de senso crítico.

A estrutura do documentário é clássica, sem grandes invencionices, até porque elas não são necessárias. Há entrevistas com pessoas-chave de vários organismos, inclusive do senado americano, intercaladas com imagens e gravações de arquivo cobrindo do século XIX até hoje, com uma boa ênfase inicial na visão heroica que D.W. Griffith dá à Ku Klux Klan em O Nascimento de Uma Nação, o único ponto que efetivamente discordo, já que emprestar o grau de influência do filme para a visão anti-afro-americana parece perigosamente resvalar na concordância de que comportamentos vistos em filmes são responsáveis por comportamentos fora deles, algo que leva inescapavelmente à censura. Mas, independente de qualquer coisa, DuVernay faz um trabalho de concatenamento histórico irretocável.

Ou quase. Se existe um ponto que me incomodou foi a necessidade da diretora e co-roteirista em trazer a visão “do lado de lá”, representada por um porta-voz da CCA, empresa que tem a licença para gerenciar prisões nos EUA. Primeiro, o espaço dado ao entrevistado é microscópico perto da bateria de ataque que ela monta. Segundo porque, muito sinceramente, não há um “outro lado” crível nessa história toda. Os fatos falam por si mesmos e, ainda que alguns possam contestá-los aqui e ali, contextualizá-los melhor com outras informações ou mesmo derrubar determinados números e afirmações, a linha geral de raciocínio não me parece passível de qualquer dúvida. Portanto, trazer a visão oposta na impressão de que isso legitimaria mais ainda a mensagem do documentário pareceu-me uma desnecessidade que beira a comicidade.

A 13ª Emenda é um documentário urgente e extremamente atual. Ele precisa ser assistido, compreendido e discutido já, para ontem, e não só nos EUA. Espero que o próximo documentário de DuVernay possa abordar as soluções obtidas a partir deste. Mas talvez isso seja apenas um desejo impossível…

A 13ª Emenda (13th, EUA – 2016)
Direção: Ava DuVernay
Roteiro: Spencer Averick, Ava DuVernay
Com: Melina Abdullah, Michelle Alexander, Cory Booker, Dolores Canales, Gina Clayton,  Jelani Cobb, Malkia Cyril, Angela Davis, Craig DeRoche, David Dinkins, Baz Dreisinger
Duração: 100 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.