Crítica | A Abolição do Homem, de C.S. Lewis

estrelas 4

(…) para cada aluno que precisa ser resguardado de um leve excesso de sensibilidade, existem três que precisam ser despertados do sono da fria vulgaridade. O dever do educador moderno não é o de derrubar florestas, mas o de irrigar desertos.

Clive Staple Lewis é mais um daqueles que dispensa apresentações, ainda que seu livrinho A Abolição do Homem (1943) não marque uma necessária presença entre os fãs de Nárnia ou das demais ficções do autor. Mais do que um alicerce para muitos que se dizem conservadores atualmente, o livro a ser conversado neste pequeno texto mantém uma vitalidade sólida quando a velha discussão sobre valores – ou melhor, sobre o valor dos valores – perpassa nosso cotidiano. Concordando ou não com a totalidade das posições expostas, ser tomado pelas poucas páginas deste ensaio filosófico é, inexoravelmente, ampliar a própria visão para certos perigos educacionais contemporâneos, entendendo-os dentro de uma tradição que Lewis eleva com convicção e clareza.

Orientando o leitor por uma trilha bem delineada, Lewis, irlandês cristão, inicia sua crítica com calma e paciência. Elegendo um tal de Livro Verde, escrito por Caio e Tício – para não dizer os nomes verdadeiros de obra e autores, que são, respectivamente, O Controle da Linguagem: uma abordagem crítica à Leitura e Escrita, de Alec Rei e Martin Ketley, publicado em 1939, segundo Benjamin Wiker – o escritor logo derrama sua acidez em uma pedagogia relativista que trata com um ceticismo tão extremo qualquer valor objetivo que acaba por incutir um pressuposto na cabeça dos jovens alunos: qualquer lei natural, Verdade objetiva, com esse V maiúsculo, qualquer essência moral, tudo isso não passa de pura balela.

Castramos e ordenamos que os castrados sejam férteis

O inimigo não foi apenas eleito a esmo. Foi pinçado com clareza e fundamentação que colocam Lewis de um lado escancaradamente óbvio daquele que talvez seja o problema mais idoso da história da filosofia: o homem é, afinal, a medida de todas as coisas? Para Lewis, Sócrates, Platão, Aristóteles, Kant, estoicos, cristãos e, enfim, religiosos das mais diversas nuances, não. Para sofistas, niilistas, existencialistas, relativistas e céticos – ainda que haja uma diferença brutal entre Protágoras e Pirro, Nietzsche e Foucault, Sartre e Camus – sim. Lewis se apressa a se colocar ao lado dos primeiros por um motivo relacionado ao problema da educação. Se a Verdade não existe – ou se Deus morreu, para investir no jargão literário e evitar o marqueteiro termo da Pós-Verdade – um professor deixa de propagar uma Sabedoria para fazer, como diz o próprio Lewis, propaganda de sabedorias sem quaisquer fundamentações, posto que à tradição não se pode mais recorrer.

Em suma, a escola torna-se marketing, o professor torna-se um papagaio da moda, os pais e os diretores tornam-se cínicos quanto à realidade dos fatos e os alunos tornam-se nada, pois ficam como peões rodando no mesmo lugar, sem o mínimo de orientação por qualquer lado que se olhe.

Eu preferiria jogar cartas contra um homem que fosse inteiramente cético em relação à ética, mas que tivesse sido criado para acreditar que um ‘cavalheiro não trapaceia’, do que contra um irrepreensível filósofo moral que tenha crescido entre vigaristas.

Tal teoria de um valor objetivo e de uma lei natural terá o nome, aqui, de Tao, por simples praticidade em mostrar que há um único Caminho. Já os homens que, além de se oporem ao Tao, o destroem ao propagar essa pseudo-educação, na visão de Lewis, serão batizados pelo singelo termo de Homens sem Peito – ou sem Fibra, dependendo da tradução – pelo autor, ainda que sejam vistos como intelectuais pela sociedade.

Na dissecação do famigerado Livro Verde, a posição conservadora de Lewis – não só dele, evidentemente – torna-se transparente. Ao niilista festivo da vontade de poder, da revolta, da solução estética, alerta o autor: a emoção deve ser treinada para que um elemento intermediário entre ela e a razão possa se solidificar. O pano de fundo desse “moralismo” é claro: geralmente é do tal inovador, aquele que só quer ajudar a humanidade, o tipo que transvalora os valores vigentes da sociedade opressora, moralista, patriarcal e hipócrita, que vem à vida o totalitarismo instintivo até então abscôndito ou inibido. Mas como esta espécie de redentor da humanidade, santo por definição – pobrezinho, ele só quer deixar o mundo melhor – perceberá a fera que mora em suas veias sempre puras? Para Lewis, a contradição da figura do inovador niilista é tão pueril que só uma figura pode retratá-la com precisão: trata-se da rebeldia dos galhos contra a árvore.

Ainda que o escritor sempre volte ao Tao – o que pode ser cansativo mesmo para um conservadorismo que beba de uma nascente cética inglesa – seu alvo era relevante em 1943 e permanece relevante até hoje, já transformado pelo aparato tecnológico. É ao identificar o processo eugênico que os manipuladores da inovação não conseguem conter em seu peito que Lewis se insere em uma longa lista de autores que afirmam um contraponto, ao estilo de Huxley. Seu ceticismo, como dito, sempre repousa, no fundo, em uma conceituação bem definida de Bem e Mal, algo que o afasta, repito, do ceticismo conservador clássico. Isso não torna, todavia, sua crítica menos feroz. Lewis antecipa uma tonelada de reflexões do século XX sobre o progresso repousado na desorientação da técnica pela técnica, ou seja, do puro e simples impulso, algo a ser realizado somente pelos que se contrapõem ao Tao com otimismo ensurdecedor ou pelos que, feito o parricídio karamazoviano, acreditam que tudo ser permitido é um bom sinal.

Uma ética baseada no instinto vai dar ao Inovador tudo o que ele quer e livrá-lo de tudo o que não quer

O caminho de tal crítica nas últimas décadas tomou variadas bifurcações. A abolição do homem se mostra irmã ou prima da derrota do pensamento da qual fala Alain Finkielkraut, ou do eclipse da razão frankfurtiana, ou ainda do Homo Deus da moda, de Yuval Harari. Todos, de uma forma distinta, com focos diferentes, discordâncias importantes e em épocas separadas, tocam na oferta de bruxo citada por Lewis, sobre trocar a alma por um poder que, no fim, não pertencerá ao próprio homem, mera matéria bruta a partir do momento em que se trata como uma.

Lewis não funda tal reflexão nem é, de longe, pioneiro de qualquer reflexão a respeito. Sua percepção neste ensaio é contida e, por vezes, binária. Ou se é do Tao ou se é da massa a ser manuseada. Ainda que possa incomodar leitores que criaram um espaço aconchegante ao niilismo diário, daquele que te deixa patologicamente cético em vez de bobo otimista, pouco importa tal incômodo. Pouco importa se o valor das coisas é consagrado pela sua longevidade – como o é para um autor mais cético, como o citado Finkielkraut – ou se é consagrado por um Absoluto – o Tao de Lewis. Aqui, uma coisa é inegável: o poder do autor em focar na questão do esforço científico filhote desse niilismo ascendente o faz uma leitura obrigatória para refletir sobre o problema com seriedade. Seu manejo com tal tema, comparando-o à sabedoria minguante dos sábios antigos – virtude, conhecimento, autodisciplina – ou à bruxaria da Idade Média é o que se espera de um mestre literato de olhar perspicaz o suficiente para perceber que “o processo que pode abolir o Homem transcorre igualmente entre comunistas, democratas e fascistas”.

Se Lewis não mergulha no nada e trata seus mergulhadores de forma generalizada em face ao dogmatismo que prega, a aspereza de seu percurso permanece intacta, poderosa e precisa. Deste ponto, conservadores ou progressistas, niilistas ou religiosos, dogmáticos ou zetéticos, todos são brindados com um brilhante e curto ensaio.

A Abolição do Homem (The Abolition Of Man) — Reino Unido, 1943
Autor: C.S. Lewis
Tradução: Remo Mannarino Filho
Editora original: Oxford University Press
Editora no Brasil: WMF Martins Fontes
Páginas: 95

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.