Crítica | A Aldeia dos Amaldiçoados

estrelas 4

A Aldeia dos Amaldiçoados é uma das mais sutis abordagens da paranoia anticomunista e o medo da guerra fria comum aos anos 1960 nos Estados Unidos. A situação geopolítica da época não foi das melhores e o cinema foi um ótimo espaço de canalização para estas preocupações. Sem as parafernálias típicas do campo da ficção científica, o filme escolhe uma abordagem discreta e alegórica para tratar de questões complexas.

Baseado no livro The Midwich Cukkoos, de John Wyndham, o filme trata de um conflito insólito numa cidade interiorana da Inglaterra, local onde certo dia, de maneira súbita, todos os moradores desmaiam ao mesmo tempo e ficam assim por algumas horas, até que estranhamente todos despertam. O caso, tamanha a sua estranheza, é tomado pelo exército, núcleo militar que após intensas pesquisas, percebe a complexidade da situação e resolve ocultar dados para a opinião pública, tendo em vista evitar o pânico social.

O problema é que mais adiante, todas as mulheres do local aparecem grávidas. Isso inclui no tenebroso pacote as virgens e as mulheres casadas, situação que estabelece desconforto além das relações sociais, mas dentro da dinâmica interna das famílias e de seus valores elididos diante dos acontecimentos. As coisas avançam na seara do tenebroso quando os fetos estranhamente começam a se desenvolver em “velocidade máxima”.

Mais adiante, somos apresentados aos novos habitantes de Midwich: crianças que possuem características semelhantes: são inteligentes aos extremos, platinadas e não demonstram sentimentos por ninguém, exalando frieza diante de seus olhares penetrantes e posturas manipuladoras.

Interessado em evitar os olhares e focado na educação destas crianças, George Sanders (Gordon Zelloboy) abre uma escola para elaboração de propostas educacionais específicas, mas logo perceberá que estes seres diferenciados não estão interessados em socializar. Com seus poderes paranormais e capacidade de controlar as vontades alheias, as crianças de Midwich conseguem ler mentes e também possuem a habilidade de previsão do futuro.

Em 1964 ganhou uma continuação ainda mais desconhecida que este, A Estirpe dos Malditos, além da refilmagem de 1995, A Cidade dos Amaldiçoados, com Christopher Reeve sob a direção de John Carpenter. Com parcos, mas ideais 77 minutos, A Aldeia dos Amaldiçoados é um suspense eficaz e interessa ainda ao contexto contemporâneo, dirigido com competência por Wolf Rilla.

Qualquer semelhança com X-Men, lançado três anos depois (1963) é mera coincidência. Ou não. Nunca se sabe, não há nada declarado nos registros sobre o filme e sobre a HQ, mas se tratando de produções culturais, num mundo em processo de expansão global, tudo é possível e qualquer relação entre as obras pode ganhar um viés de releitura ou ingrediente metalinguístico. Por enquanto, fiquemos na seara da intertextualidade e da literatura comparada, não é mesmo?

A Aldeia dos Amaldiçoados (Village of the Damned) – Reino Unido/1960.
Direção: Wolf Rilla
Roteiro: Ronald Kinnoch
Elenco: George Sanders, Barbara Shelley, Martin Stephens, Michael Gwynn, Jenny Laird, Laurence Naismith, Richard Warner, Sarah Long, Thomas Heathcote, Pamela Buck, Peter Vaughan.
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.