Crítica | A Assassina (2015)

estrelas 3

O cinema sempre pode surpreender, seja para o bem ou para o mal, claro, ou em um meio termo entre ambos. O último caso é o do filme A Assassina, longa do diretor Hsiao-Hsien Hou, que, vendido como uma história de artes marciais passada em terras orientais, no século VIII, de ação oferece muito pouco.

Trata-se de uma produção voltada quase que inteiramente para a contemplação da imagem. O conflito de Yin-Niang, levada na infância por uma monja para longe dos pais de sangue nobre, treinada nas artes marciais e, já moça, incumbida de retornar ao lar e matar o próprio primo, que ama, por exemplo, apenas é explicitado quando o roteiro parece não poder mais fugir de tal exposição.

O mesmo se passa com a retratação da tensão política entre dinastias. Se não fosse por um texto explicativo na abertura do longa e por um diálogo ou outro, sequer ficaria clara a sua existência. Tal abordagem se explica, porque o filme não se preocupa com o todo, com uma exposição panorâmica daquele contexto, mas, sim, com o indivíduo, com o detalhe, com a simplicidade, o minimalismo e o naturalismo pela visão de cada personagem, como dito, principalmente a partir da imagem. Por um lado, tal ousadia confere à produção sua melhor qualidade: quebrar padrões convencionados, voluntariamente ou não, para um gênero, ao apresentar combates rápidos, simples, mas precisos, embates como que repudiando a banalização do confronto e, com isso, de certo modo, engrandecendo-o ainda mais.

Com seu ritmo lento, que muitos, na certa, rotularão como pura monotonia, por vezes fixando-se numa mesma imagem segundos a fio, o diretor não só é eficaz em instigar a reflexão quanto ao critério de suas escolhas imagéticas, como também consegue criar um constante clima de tensão, com o qual a trilha sonora de personalidade, muito pontual e precisa, com seus eventuais “bums” incessantes, contribui decisivamente – a intenção do longa de causar desconforto parece evidente.

O problema é que, ao focar tanto no exterior, o interior implícito em emoções, para além dos sentidos, fica em segundo plano, quase inexistente, no que as motivações e emoções das figuras em tela não são captadas. Somando-se tal abafamento emocional com a parca ação e a um número exagerado de intrigas, dada a pouca importância conferida a elas próprias para o andamento da trama, tem-se uma obra um tanto ilógica e muito particular, de absorção bastante segmentada.

A Assassina, portanto, tem como mérito a provocação acerca dos padrões de um gênero. Em sua execução, porém, peca na construção de seu formato narrativo, fixando-se em demasia no exterior e não adequando melhor a história à sua proposta minimalista.

A Assassina (Nie yin niang, Taiwan/China/Hong Kong/França – 2015)
Direção: Hsiao-Hsien Hou
Roteiro: Cheng Ah, T’ien-wen Chu, Hsiao-Hsien Hou, Hai-Meng Hsieh (baseado em obra de Xing Pei)
Elenco: Chen Chang, Qi Shu, Yun Zhou, Satoshi Tsumabuki, Dahong Ni, Mei Yong, Zhen Yu Lei, Nikki Hsin-Ying Hsieh, Ethan Juan, Fang-yi Sheu
Duração: 105 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.