Crítica | A Assombração da Casa da Colina, de Shirley Jackson

Assombração da Casa da Colina é um livro clássico e respeitado no campo da literatura em língua inglesa. Até mesmo o exigente crítico literário Harold Bloom, polêmico especialista do campo dos estudos literários, homem que vê Shakespeare não apenas como o centro do cânone ocidental, mas praticamente o criador do mundo, teceu considerações elogiosas ao romance de Shirley Jackson, adaptado numerosas vezes para o cinema.

Considerada uma obra com traços góticos, o romance traz alguns paralelos com a tradição fundada por Horace Walpole em O Castelo de Otranto. Vamos aos detalhes: dimensões espaciais antiquadas (castelo, cemitério, mansão), cercadas por segredos obscuros que ameaçam a integridade física e psicológica dos personagens, numa mixagem nem sempre equilibrada de elementos sobrenaturais e realistas. No romance, o Dr. John Montague, estudioso da área de Antropologia, fascinado pelas questões que envolvem o mundo da paranormalidade, decide escrever um livro sobre presenças sobrenaturais no mundo físico.

Para contemplar o seu projeto, aluga a mansão Hill House, tendo como projeto residir por três meses. O interesse é observar acontecimentos que estejam fora do eixo da “normalidade”, material que provavelmente possa contemplar seus estudos. Junto com as assistentes Eleanor e Theodora, mulheres que ao passo que a narrativa avança, ganham importância no desenvolvimento dos conflitos, ele leva Luke Sanderson, o herdeiro da casa. Todos passarão pelas experiências mais macabras de suas vidas, numa aproximação com elementos sobrenaturais que vão mexer com seus respectivos estados psicológicos.

Eleanor, em especial, é convidada para promover a intensificação dos elementos sobrenaturais e o campo energético da casa assombrada, mas o problema é que nem tudo ocorre como o planejado e a ambientação intensifica a sua instabilidade psicológica, situação que coloca a vida de todos em risco. Descobriremos que a casa fora construída por Hugh Crain, um homem que perdeu a sua esposa num acidente. O corpo, levado para a mansão durante os processos de ordem funerária, não descansou imediatamente. Há ainda o conflito entre as duas filhas de Crain, jovens que depois de adultas, duelaram constantemente pela posse da casa, acontecimentos que aumentaram a carga de energia que gravitavam em torno do local.

Diante do exposto, torna-se transparente o desfecho trágico e fantasmagórico do romance, uma obra que versa sobre o sobrenatural que se espalha tal como um rizoma pelas paredes e corredores da mansão amaldiçoada, personificada em meio aos elegantes jogos de linguagem presentes no texto literário de Shirley Jackson. Um quarto mais frio que o outro, portas descentralizadas que parecem se mover sozinhas, objetos que parecem ter vida, dentre outros detalhes inquietantes.

Mensagens escritas misteriosamente pelas paredes, temperatura que abaixa velozmente em questão de segundos e emissão de sons de passos, choros e risadas diabólicas. A descrição do espaço físico é uma versão verbal do trabalho dos designers de produção e de som para cinema e televisão. A escritora é perspicaz ao delinear cada cômodo da casa, nos transmitindo as devidas sensações por meio de descrições bastante eficientes, afinal, o caráter ameaçador da habitação é o que alavanca toda angústia e desconforto oriundos da natureza assombrosa do espaço. Em determinado trecho, a autora diz que “se não fossem os fios de eletricidade, não haveria conexão com o mundo”.

Quem, em sã consciência, teria interesse em habitar um ambiente como este? A Sra. Dudley, responsável pela manutenção e limpeza do local, personagem importante, apesar de aparecer em poucas passagens, sempre deixava o terreno antes do anoitecer, apontada, inclusive, como corajosa, segundo os habitantes da cidade que evitavam falar ou passar próximo da casa. Em termos comparativos, a casa assombrada de Shirley Jackson lembra bastante a mansão que Henry James descreve em Outra Volta do Parafuso, de 1898.

Em Introdução à Literatura Fantástica, Todorov diz que uma das personagens femininas da obra de Henry James é a única a enxergar as aparições sobrenaturais, o que coloca em xeque a sua capacidade de discernimento do que é “real” ou “não”, algo que encontra algumas semelhanças com a trajetória de Eleanor. O que nós sabemos, comprovadamente, é a extensão destas narrativas no imaginário coletivo, principalmente nas narrativas audiovisuais ao longo do século XX, com abertura para o século XXI, época ainda interessada nas possibilidades das casas assombradas como premissa para produções ficcionais.

Além de ter ganhado ressonâncias na maioria dos filmes de terror sobre casas assombradas que surgiram depois de seu lançamento em 1959, Assombração da Casa da Colina foi adaptado oficialmente para o cinema em Desafio do Além (1963), A Casa Amaldiçoada (1999) e A Maldição da Residência dos Hill, série do serviço de streaming Netflix, lançada em 2018. Interessante observar que ambientes assim ganharam essa simbologia opressora diante dos castelos medievais que tipicamente representavam a “morada do vilão”.

Tais locais eram o que distinguiam os lordes e poderosos dos integrantes da população pobre e servil, moradias opulentas que buscavam se distanciar da “massa”, o que deu origem ao caráter opressor e mal visto dos castelos que nas narrativas ficcionais, foram se adaptando para as mansões e casas assombradas que marcaram a literatura, o cinema e as demais artes visuais.

Assombração da Casa da Colina (The Haunting of Hill House, Estados Unidos – 1959)
Autor: Shirley Jackson
Editora no Brasil: Francisco Alves – Coleção Mestres do Horror e da Fantasia
Tradução: Edna Jansen de Mello
Páginas: 148

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.