Crítica | A Autópsia

estrelas 3,5

Para a surpresa de todos, o gênero terror tem nos entregado alguns belos exemplares de filmes nesses últimos anos, com destaque para Invocação do Mal 1 e 2, O Homem nas TrevasA Bruxa e, mais recentemente, A CuraA Autópsia, terceiro longa-metragem do diretor André Øvredal, mais conhecido por O Caçador de Troll, é mais uma obra que consegue se configurar como um belo filme do gênero, ainda que esteja longe de ser perfeito, já que o realizador cai em velhos problemas comuns a esse tipo de filme.

A trama acompanha Austin (Emile Hirsch) e Tommy Tilden (Brian Cox) filho e pai, respectivamente, que trabalham como legistas em uma pequena cidade americana. Em um dia como outro qualquer, prestes a encerrarem o expediente, o xerife local, Burke (Michael McElhatton), chega no local com o corpo de uma mulher não identificada. Antes da noite terminar os dois precisam descobrir a causa da morte dessa “Jane Doe”, o que não esperavam, contudo, é que estranhos acontecimentos ocorreriam a partir daí, ao mesmo tempo que o mistério acerca desse cadáver aumenta. Não demora para que tudo se torne uma luta por sobrevivência.

Durante a primeira hora de A Autópsia, André Øvredal consegue criar um instigante clima de suspense, que imerge o espectador na narrativa, ao passo que ficamos cada vez mais curiosos para descobrir o que há de diferente nessa mulher desconhecida. O roteiro de Richard Naing e Ian B. Goldberg insere diálogos mais técnicos entre o pai e filho, de forma que não canse o espectador pelo excesso de vocabulário médico – pelo contrário, através das constatações desses legistas entendemos que há algo de errado com aquele corpo na frente dos dois e isso somente aumenta a nossa perplexidade, visto que tentamos entender o que ocorre ali.

Conforme as coisas estranhas começam a acontecer, o longa claramente tem sua narrativa alterada, mas isso não prejudica sua progressão, já que tudo dialoga com as descobertas de Austin e Tommy. Sabiamente, Øvredal não mostra demais ao espectador, deixando muito a cargo de nossa imaginação, o que, claro, funciona muito bem quando se trata desse gênero. Com uma decupagem que não nos permite criar um mapa mental daquele cenário, aos poucos nos sentimos mais claustrofóbicos, a tal ponto que queremos fugir dali tanto quanto os personagens em si. Curiosamente, isso entra em oposição à nossa vontade de descobrir mais sobre a “Jane Doe”.

Ironicamente, o grande problema da obra é justamente a necessidade que sente de explicar tudo. Veja, evidente que grande parte dos espectadores vão querer ter a resposta para tudo, mas isso nem sempre é o melhor caminho a ser seguido no terror, gênero que depende tanto de nosso imaginário para a construção do gênero. Dito isso, o caráter superexpositivo do ato final funciona como um banho de água fria depois de toda a tensão criada pela trama até aqui. Para piorar, temos ainda um epílogo completamente desnecessário e cliché. Igualmente dispensável é a presença da namorada de Austin, Emma (Ophelia Lovibond), que não desempenha qualquer papel ativo na narrativa.

Felizmente, os esforços de Brian Cox e Emile Hirsch nos distanciam desses problemas, embora não os apaguem por completo. Ambos trazem reações perfeitamente plausíveis, aliados, é claro, de um roteiro que não trata seus personagens como estúpidos, fazendo-os se portarem da maneira que, na realidade, alguém poderia se portar. Dito isso, é muito fácil se aproximar dos personagens principais, especialmente considerando que o longa não perde tempo com conflitos internos desnecessários, focando no que deve.

A Autópsia, portanto, se configura, sim, como um belo exemplar do gênero, por mais que deslize em determinados pontos ao longo da projeção, fazendo com que a narrativa fique levemente dilatada, por mais que tenha apenas oitenta e seis minutos. Com uma direção que sabe exatamente o que mostrar e um roteiro que somente erra mais consideravelmente nos trechos finais, temos aqui um filme envolvente que merece seu lugar na lista de bons filmes de terror lançados nos últimos anos.

A Autópsia (The Autopsy of Jane Doe) — Reino Unido/ EUA, 2016
Direção: André Øvredal
Roteiro: Richard Naing, Ian B. Goldberg
Elenco: Brian Cox, Emile Hirsch, Ophelia Lovibond, Michael McElhatton, Olwen Catherine Kelly,  Jane Perry, Parker Sawyers
Duração: 86 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.