Crítica | A Barraca do Beijo

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Foi através do Wattpad, aos 15 anos de idade, que Beth Reekles começou a publicar sua “historinha típica de adolescente” chamada The Kissing Booth, que mais tarde chamaria a atenção da Penguin Random House e ganharia sua versão em livro. A Barraca do Beijo (2018), versão escrita e dirigida por Vince Marcello e distribuída pela Netflix, não foge nada ao padrão das comédias românicas adolescentes, com os mesmos dilemas coming of age, os diálogos clichês, os pares formados do nada, os impasses colegiais, a formatura e a linha divisória traçada entre estágios diferentes da vida, onde o amadurecimento — como era de se esperar — vem cobrando um alto preço.

Com isso em mente, sempre que vemos uma obra que flerta com tal proposta, esperamos todos os bens e males que esse Universo pode nos oferecer. Faz parte do gênero e é a proposta da fita, certo? Agora, o que não faz parte da proposta é o roteiro mal escrito para as situações em questão, sendo este justamente o problema de A Barraca do Beijo. Na trama, Ellie (Joey King), entra e se perde em uma crise fraterna e amorosa quando se vê apaixonada pelo irmão (Jacob Elordi) de seu melhor amigo Lee (Joel Courtney). Já no trailer do filme é possível perceber todos os imagináveis caminhos que a obra irá seguir, e o texto de Vince Marcello parece não querer frustrar nenhuma dessas expectativas, o que não é uma coisa boa.

SPOILERS! Em um primeiro momento, durante a apresentação dos personagens, existe aquela simpatia e simplicidade que nos prende ao filme. Bobagens da juventude têm o seu apelo, mesmo nos mais rabugentos dos adultos maduros, elemento nostálgico que explica uma série de coisas aqui. Isso fica ainda mais forte quando o filme realiza, em momentos distintos, referências aceitáveis a obras cinematográficas como A Noviça Rebelde (chuva e beijo no coreto), 10 Coisas Que Eu Odeio Em Você (festinha com gente bêbada dançando sugestivamente na mesa), Um Lugar Chamado Notting Hill (declaração de amor na formatura) e uma hilária referência visual e literal ao excelente Cisne Negro (2010). FIM DOS SPOILERS!

Com isso, vale dizer que A Barraca do Beijo tem aqueles momentos “bonitinhos e acalentadores”, mas, como é de praxe em filmes ruins com essa mesma premissa, diálogos e construções questionáveis de personagens fazem com que a qualidade construída a duras penas e a paciência do espectador caiam por terra com imensa velocidade. O perdão de Shelly para o garoto que bateu em sua bunda, como se não fosse nada demais (e nem para o texto tentar contornar a situação, dando a entender que era uma “brincadeira corrente entre amigos”, o que tornaria tudo compreensível); praticamente todos os diálogos românticos entre Shelly e Noah — piorados pela baixa qualidade dramatúrgica dos dois atores –; a linha dramática entre os irmãos Lee e Noah, que não têm o mínimo de empatia, escolha absolutamente questionável por parte do roteiro, dentro da proposta do filme; e, por fim, a absurda “surpresa final”, uma das cenas mais mal escritas e mal atuadas que eu já vi na vida.

É possível se divertir minimamente com algumas piadinhas e torcer para que algumas coisas aconteçam com os pombinhos, mas não há nada que realmente salve A Barraca do Beijo. Aliás, o roteirista parece ter tido dúvida se o público entenderia ou não qual era a temática do filme, por isso resolveu repetir não uma, não duas, não três, mas quatro vezes o mesmo modelo de solilóquio à laestou refletindo sobre a vida o Universo e tudo mais“, todos eles dizendo com todas as letras para o espectador que “isso só aconteceu por causa da barraca do beijo”, quando qualquer pessoa que tenha assistido pelo menos ao trailer do filme sabe que não é verdade. Pois é. Isso já diz absolutamente tudo o que precisamos saber sobre a qualidade da obra. E, novamente, isso não é uma coisa boa.

A Barraca do Beijo (The Kissing Booth) — EUA, 2018
Direção: Vince Marcello
Roteiro: Vince Marcello (baseado na obra de Beth Reekles)
Elenco: Joey King, Joel Courtney, Jacob Elordi, Carson White, Hilton Pelser, Judd Krok, Sanda Shandu, Joshua Daniel Eady, D. David Morin, Bianca Bosch, Jessica Sutton, Nathan Lynn, Frances Sholto-Douglas, Molly Ringwald, Morné Visser, Meganne Young
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.