Crítica | A Batalha do Planeta dos Macacos (Marvel Comics – 1976 / 1977)

estrelas 4

Encerrando a magnífica série de adaptações dos cinco filmes clássicos da franquia Planeta dos Macacos, Doug Moench faz de A Batalha do Planeta dos Macacos sua mais longa versão de um filme da série em HQ, com sete partes no lugar das usuais cinco ou seis. E, como se isso não bastasse, ele ainda cria um prelúdio em duas partes que faz a conexão entre os acontecimentos de A Conquista do Planeta dos Macacos e A Batalha, intitulado Quest for the Planet of the Apes ou, como traduzido aqui no Brasil pela Editora Bloch, A Disputa pelo Planeta dos Macacos. Com isso, temos uma longuíssima história de quase trezentas páginas que Moench usa para parcialmente suprir as faltas dos filmes, especialmente no tocante aos seus orçamentos.

Em A Disputa, vemos Caesar comandando sua ainda incipiente cidade símia com mão de ferro, com os humanos, incluindo seu aliado MacDonald, servindo como escravos, em uma reversão vingativa de papéis dois anos depois dos acontecimentos de A Conquista. Nessa “ponte” narrativa, descobrimos que o ex-governador Breck também é um dos prisioneiros e que ele, juntamente com os demais humanos – menos MacDonald – se aproveitam de uma disputa sobre a liderança da cidade entre o gorila Aldo e Caesar, para tentar subjugar os símios. O interessante, aqui, é ver os detalhes que são mais profundamente abordados em A Batalha, como a descoberta de que o mundo acabou depois de uma guerra nuclear causada pelo homem aproveitando-se do desequilíbrio de forças a partir da revolta de Caesar (algo que nunca fica bem explicado nos filmes), a origem do paiol de armas guardado pelo orangotango Mandemus e o começo da compreensão de Caesar que escravizar os humanos em mímica ao que os humanos faziam com os símios não é a melhor solução para o futuro da Terra, além da denominação da cidade destruída pela guerra como Zona Proibida. O único problema – que é inevitável por constar do filme – é a inteligência e a fala dos símios comuns tão pouco tempo depois dos acontecimentos de A Conquista. Se já erá difícil aceitar isso na obra anterior, aqui o problema ganha contornos ainda mais absurdos, exigindo uma boa dose de suspensão da descrença.

A disputa em si é um repetição do que vemos em A Batalha, mas sem a tragédia que se abate no seio da família de Caesar. Há, apenas, o fortalecimento da liderança de Caesar e a multiplicação da raiva que Aldo sente por ele. De toda forma, Moench é cuidadoso ao criar elementos de encaixe preciso entre os acontecimentos de dois anos antes e os de 10 anos depois de A Batalha, construindo um elo de ligação que, se não é essencial, expande de forma eficiente a mitologia da série e cria uma bela introdução para a adaptação seguinte. Aliás, bela é efetivamente a palavra-chave, pois, para esse trabalho, o sensacional Rico Rival, artista filipino responsável por Fuga do Planeta dos Macacos, vem novamente emprestar seus lápis e tintas. Embora sua arte, aqui, não seja tão inspirada quanto em Fuga, sua qualidade se faz sentir fortemente, com personagens expressivos e momentos de ação belíssimos que deslumbram em preto e branco.

A adaptação de A Batalha do Planeta dos Macacos, então, encaixa-se perfeitamente com o que é revelado em A Disputa pelo Planeta dos Macacos, com o sempre raivoso Aldo liderando seu grupo de gorilas, apesar do controle geral da agora bem maior cidade símia ficar ao encargo de Caesar. Assim como no filme, a narrativa é enquadrada e narrada pelo Lawgiver, séculos no futuro, que conta a história para uma plateia que, ao final descobrimos, é formada por crianças símias e humanas aparentemente vivendo em perfeita harmonia, apesar de um esperto final que levanta uma dúvida sobre essa paz que, vale notar, não existe na versão cinematográfica.

Portanto, a estrutura de flashback é usada para contar como MacDonald, agora melhor amigo humano de Caesar, revela que as fitas dos interrogatórios de seus pais provavelmente ainda estão intactos na cidade radioativa e que é importante que o líder símio conhece sobre o futuro da Terra diretamente por seus pais, algo que ele prontamente concorda, montando uma expedição dos dois e mais o jovem orangotango Virgil para recuperar esse material. Esse acontecimento, porém, catalisa dois problemas: de uma lado, na Zona Proibida, a presença de Caesar e amigos desperta a raiva do ex-governador Breck, agora um monstro deformado – o precursor dos mutantes que vemos em De Volta ao Planeta dos Macacos – que, ato contínuo, monta um ataque à cidade símia e, de outro, Aldo aproveita a vacância de Caesar para montar sua própria rebelião.

A grande vantagem de Moench, porém, é o espaço que ele tem para trabalhar a narrativa. Diferente do filme, que toma alguns atalhos, a adaptação em quadrinhos usa as páginas para lidar com a política símia em detalhes, lidando com a evolução do raciocínio de Caesar sobre o papel dos humanos em toda essa estrutura: se escravos, se meros seres inferiores aos símios ou se uma espécie em pé de igualdade com os símios. Esse tempo é bem utilizado por Moench para desenvolver o protagonista, assim como MacDonald e Aldo, estabelecendo mais propriamente a panela de pressão que acabaria por estourar com o ataque mutante à cidade.

O referido ataque, aliás, tem uma abordagem particularmente feliz. Livre das amarras orçamentárias óbvias do filme, Moench consegue detalhar os ataques e os contra-ataques, separando a milícia de Aldo da formada hesitantemente pelos demais símios. Com isso, ele constrói uma verdadeira e convincente guerra entre espécies, com demonstrações de valor de um lado ao outro. Além disso, o confronto final entre Caesar e Aldo tem o mesmo tratamento compassado e detalhado, sem pressa. E o melhor é que nada fica parecendo arrastado ou artificialmente ampliado. Há um cuidado muito grande de Moench com o ritmo e ele acerta constantemente.

O grande problema da adaptação é a enorme oscilação na qualidade da arte de uma parte para outra. Sem Rico Rival, a adaptação de A Batalha ficou ao encargo de seis diferentes artistas que se revezaram ao longo dos sete capítulos. Alfredo Alcala, já veterano na série a essa altura, faz um belíssimo e detalhadíssimo trabalho, com uma pegada particularmente sombria que combina demais com o tom da história. E o mesmo se pode dizer de Vicente Alcazar, Virgilio Redondo e Sonny Trinidad. No entanto, Yong Montano e Dino Castrillo, que desenham a terceira edição e Castrillo que sozinho desenha a quarta, têm estilos que destoam que destoam demais de tudo o que veio antes, com símios com feições humanas por demais e que entre si se parecem, além de um descuido com os detalhes que tanto enriquecem os panos de fundo e que tanto marcaram a série.

No entanto, mesmo com a arte em alguns pontos bastante fraca, o resultado final, considerando tanto o curto prelúdio quanto a adaptação em si é mais um triunfo da Marvel Comics nessas clássicas adaptações. O conjunto da obra não só empresta mais significado ao próprio filme, como amplifica sua qualidade, até mesmo fazendo-nos esquecer dos saltos de lógica que o roteiro dos Corrington nos obriga a dar.

A Disputa pelo Planeta dos Macacos / A Batalha do Planeta dos Macacos (Quest for the Planet of the Apes / Battle for the Planet of the Apes, EUA – 1976/7)
Roteiro: Doug Moench
Arte: Rico Rival, Vicente Alcazar, Sonny Trinidad, Alfredo Alcala, Yong Montano, Dino Castrillo, Virgilio Redondo
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: julho de 1976 (A Disputa pelo Planeta dos Macacos, em Planet of the Apes #22), agosto de 1976 a janeiro de 1977 (A Batalha do Planeta dos Macacos em Planet of the Apes #23 a #28)
Editora no Brasil: Editora Bloch
Data de publicação no Brasil: 1976 (A Disputa em Planeta dos Macacos #6) e 1977 (A Batalha em Planeta dos Macacos #17)
Páginas: 60 (A Disputa), 210 (A Batalha)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.