Crítica | À Beira do Caminho

estrelas 3

Na trilha do abandono paterno, da separação familiar e do deslocamento como fuga de uma realidade dolorosa, À Beira do Caminho (2012) passa longe de ser um filme original, de sua concepção aos caminhos percorridos para realizar-se; no entanto, a obra teve uma atenção tão cuidadosa da equipe de produção, especialmente do glorioso Lula Carvalho na direção de fotografia, e um elenco tão afiado, que mesmo o roteiro cambaleante de Patrícia Andrade se torna palatável e o filme mantém-se um tanto acima da média.

A história do caminhoneiro João e de Duda, um garoto órfão, é acompanhada por uma expressiva trilha sonora, tendo as músicas de Roberto Carlos como referências dramáticas. Destaca-se também a bela Nossa Canção, de Vanessa da Mata, que representa o passado do protagonista, a fonte de sua dor. Esse é o único aspecto louvável do roteiro, que dá a oportunidade para o ótimo João Miguel trazer à tona um João carrancudo e triste, produto de uma tragédia que o fez abandonar a única coisa que o faria se lembrar da esposa morta. Mas o impacto emotivo vem quando esse homem amargurado se vê diante de um garoto abandonado pelo pai. É como se o passado lhe chamasse de volta, ou como se o presente lhe mostrasse o resultado de uma atitude do passado. Eis aí um dos pontos altos da obra, o trabalho com a memória, a transformação do sofrimento em lembrança e a oportunidade de se retratar a tempo.

A solidão é um tema que pode gerar obras realmente deliciosas. Recentemente comentei sobre o sul-coreano O Dia em que ele Chegar (2011), um filme que também nos traz um homem solitário, que apesar de amar uma mulher, afasta-se dela para não sofrer. Seja por reflexo do passado, seja por medo de um sofrimento futuro, tanto o filme de Hong Sang-soo quanto o filme de Breno Silveira apontam para uma única direção, memórias mal digeridas impedem qualquer pessoa de seguir uma vida plena, com um mínimo de felicidade e realizações. O peso do passado e a sensação de que ainda se pode fazer alguma coisa torna a existência desses protagonistas algo extremamente doloroso, e no caso de À Beira do Caminho, temos a agravante do compartilhamento da dor. Duda é apenas uma criança, mas também sofreu desventuras na vida, e acabou lidando muito melhor com elas do que o nosso viajante adulto.

Ao fim, o diretor faz uso de elementos emotivos, consegue guiar o filme razoavelmente bem, mas opta por caminhos há muito conhecidos e não faz questão alguma de adicionar coisas novas ou pegar um atalho para contar a mesma história de outro jeito. O órfão que se afeiçoa a um adulto carrancudo e marcado por sofrimentos não é algo novo no cinema brasileiro, especialmente se ambos viajam à procura de alguma coisa; o adulto, de si mesmo, o órfão, de uma família.

Os méritos da produção de À Beira do Caminho vão especialmente para a já citada fotografia, para alguns momentos da montagem, que conseguiu fazer um bom trabalho de ligação entre as cidades percorridas pelos dois viajantes, e os figurinos, que marcaram bem cada fase da vida do protagonista. Entre a emoção e o chavão, À Beira do Caminho é um filme que pode agradar a muitos, primeiro, porque não é um filme ruim, apesar dos problemas já citados; segundo, porque é inquestionavelmente um filme terno sobre a amizade, o companheirismo, a diferença entre as gerações e a superação de problemas, e não há quem não se veja capturado por essa receita, que por pior que seja a sua versão, ainda consegue suscitar encantos em seus apreciadores.

À Beira do Caminho (Brasil, 2012)
Direção: Breno Silveira
Roteiro: Patrícia Andrade
Elenco: Ângelo Antônio, João Miguel, Vinícius Nascimento, Dira Paes, Ludmila Rosa
Duração: 100 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.