Crítica | A Bela Adormecida

“Pai, você está vivendo no passado. Esse é o século XIV!”

Contém spoilers.

Os contos de fadas são uma das mais bem sucedidas vertentes no histórico de animações produzidas pela Disney. Enquanto, em tempos mais antigos, um criticismo para essas histórias se encontrava no fato dos contos serem suavizados em relação aos materiais “originais”, tanto as diferentes versões escritas por inúmeros autores quanto as histórias que se passavam de boca em boca, como, por exemplo, troca de finais tristes por finais felizes, hoje a pontuação é completamente diferente. A Bela Adormecida, último conto de fadas a ser produzido por Walt Disney e última peça do tipo a ser feita nas eras de ouro/prata do estúdio, era, até este ponto, com mais de quinze filmes produzidos pela Walt Disney Animation Studios, só o quarto protagonizado por uma mulher, sendo que apenas um não era um conto de fadas. Acabou-se que tais produções mais antigas, sendo carros-chefes da representatividade feminina para crianças, ganharam um fardo com o passar do tempo. A crítica, nos dias de hoje, é em decorrência do papel da mulher nas tais obras de ficção; a busca pelo amor verdadeiro, a dependência de um homem. Mas, contos de fadas se passam em tempos distantes, formulados no decorrer de épocas tão antigas quanto o tempo (aquele toque exagerado, porém charmoso, não poderia faltar neste texto) e, inexoravelmente, vão trazer sentimentos e pensamentos distantes da atualidade. Se Frozen: Uma Aventura Congelante também é uma adaptação de um conto de fadas, contudo, que desconstrói diversos estereótipos do papel da mulher (sendo anacrônico ou não, funciona) é porque Frozen é uma produção de um novo século, e não de meados de um passado datado.

Por outro lado, é verdade que para as crianças nascidas em um pós-guerra e que assistiram Branca de Neve e os Sete AnõesCinderela e só, décadas antes de qualquer Moana: Um Mar de Aventuras existir para duelar com tais filmes e permitir que os sonhos fossem além do amor verdadeiro, não impossibilitando necessariamente a existência de sonhos como esse, mas possibilitando uma infinitude de pensamentos a mais, quebrando com padrões comportamentais de quem mulheres e homens devem ser e de quem mulheres e homens serão, A Bela Adormecida não deve ser muito diferente. A influência dessas animações em construções identitárias é clara. No caso, o espelho da vez, para garotinhas de todo o mundo, é Aurora (Mary Costa), uma “protagonista” que se ausenta em boa parte de seu próprio filme, dormindo até que o amor verdadeiro, um salvador em forma de homem, a acorde, beijando-a durante seu sonho profundo. Contudo, no final das contas, mesmo ambas sendo salvas “da mesma forma”, há diferenças entre essa história e a de certa garota aprisionada entre a vida e a morte após ter comido certa maçã envenenada. Mesmo em passos de tartaruga, mostra-se uma evolução existente em vinte anos de um filme para outro. Uma evolução que, em termos narrativos, também permitiu que personagens mais interessantes fossem construídos e relacionamentos mais críveis fossem estabelecidos. A Bela Adormecida é, em determinadas comparações com Branca de Neve e os Sete Anões, um longa-metragem mais sofisticado, com uma história completamente funcional e encantadora, se é que se seja permitido por você se encantar por contos sobre sonhos de outros, por mais idealistas que estes sejam.

Desta forma, se o príncipe de Branca de Neve e os Sete Anões era um artifício narrativo extremamente pobre, uma espécie de deus ex machina, apresentado no início do filme, mas esquecido integralmente até que fosse necessário reintroduzi-lo no final, o de A Bela Adormecida não sofre do mesmo problema. Phillip (Bill Shirley) tem um papel de muito mais destaque, indo além de dar um único beijo na sua mulher amada. Em determinado momento, o personagem contraria o seu pai, não querendo se casar com a mulher que lhe foi predestinado casar – coincidentemente, ela é Aurora, mas a intenção discursiva ainda é válida. Nota-se, portanto, o real interesse dele na garota. A mulher amada é realmente amada. O fato da personagem principal ser beijada inconsciente, nesse caso em específico, não é realmente problemático quando os dois já nutrem o amor, exposto pela música cantarolada durante uma dança, além de que o herói sabe que precisa beijá-la para salvá-la. Já em Branca de Neve e os Sete Anões, a cena do beijo e todo o contexto – ou falta dele -, enquanto considerado romântico em outros tempos, hoje é considerado um tanto invasivo. No mais, apesar do casal receber muito pouco tempo em cena juntos, apenas um encontro na floresta, muito da relação e do amor, utópico pelo seu irrealismo, se apresenta pela música Once Upon a Dream. Tal canção, emblema do longa-metragem, busca criar uma conexão entre tais almas que vai além do contato físico, em encontros que aconteceram fora de cena, em sonhos sonhados em noites de sonhos. A bela é adormecida não apenas literalmente, mas figurativamente, em razão da cabeça dela estar amarrada a figuras que apenas pode alcançar, até agora, no onírico.

Em um outro plano, o longa-metragem conta com bastante humor, preenchendo-o em não muito mais que uma hora de filme; uma curtíssima duração. Os roteiristas poderiam ter esticado o filme, adicionando mais encontros entre Aurora e Phillip naquela floresta lindíssima, rica em detalhes, uma adição que não passaria de mais dez minutos e resultaria em uma conexão mais densa. Dessa forma, o relacionamento ganharia uma credibilidade maior, além de meramente apegado à suspensão de descrença, funcional, mas exigente. O direcionamento principal dado pelo roteiro é para as personagens que nos encantam acima de todas as outras, as verdadeiras protagonistas da obra, que cuidam de Aurora de seu nascimento até o seu décimo-sexto aniversário. A Bela Adormecida tem nas três fadas não apenas os nossos guias pela história como os seus alívios cômicos, o que dá para o público um senso de espirituosidade magnífico. Acompanhamos pela maior parte do tempo seres mágicos divertidos de assistir, que interagem de um modo tão humano quanto incrível. Dos laços entre o trio e sua criação, temos a concepção de uma família não-tradicional, com nenhuma figura paterna. Do humor do filme, temos uma comédia de momentos quase satíricos, com incontáveis tiradas cômicas, como quando Aurora vai de um “nunca” para “esse entardecer” em poucos segundos. Em outras situações, a piada é mais descompromissada, exemplificando-se, para esses casos, o “diálogo” de Aurora com uma coruja emitindo um som parecido com “who” (quem, em inglês). Acerca dos personagens menores, o cavalo de Phillip, o Rei Hubert (Bill Thompson) e o Rei Stefan (Taylor Holmes) também são coadjuvantes volumosos em jocosidade.

O único demérito na simplicidade da narrativa, bem redondinha, encontra-se nas motivações de Malévola (Eleanor Audley); nas causas que a faria amaldiçoar a filha do rei. A vilã, todavia, continua a funcionar sem qualquer espécie de background e muito disso é provido tanto pelo trabalho de voz da atriz quanto pela criação visual da antagonista, extremamente ameaçadora. Algumas das aparições da personagem são capazes de assustar as mais corajosas das crianças, visto que os seus olhos amarelos nefastos são amedrontadores. No clímax, com a transformação inesperada da vilã em dragão, forças completamente desproporcionais ao nosso herói se opõem a ele. Nos minutos antes do fim, um estupendo quadro amarelado, com Phillip segurando sua espada em direção a criatura, comprova o apuro técnico da obra. A animação de A Bela Adormecida é belíssima, sendo parte de um conjunto audiovisual esteticamente impecável, visto que soma-se a tantos cenários deslumbrantes uma apurada trilha sonora: arranjos e adaptações do balé composto por Pyotr Tchaikovsky. Com quase sessenta anos de idade, o clássico de Disney é uma obra “conformista” em diversos aspectos, anterior a movimentos importantes como a contracultura, mas que não é hostil aos que desejam seguir sonhos distintos. Na realidade, Aurora e Phillip contrariam, mesmo caindo na ironia da vida, os anseios em se casar com aqueles que estavam predestinados a se casar; um não-conformismo de outro tempo. Que todos possam sonhar os sonhos que quiserem sonhar, acordados ou adormecidos, e que sejam possibilitados a escolher os destinos que quiserem traçar, lutar por nações inteiras, embarcar em aventuras por relíquias e até mesmo casar com um príncipe encantado.

A Bela Adormecida (Sleeping Beauty) – EUA, 1959
Direção: Clyde Geronimi
Roteiro: Erdman Penner, Joe Rinaldi, Winston Hibler, Bill Peet, Ted Sears, Ralph Wright, Milt Banta. baseado no conto de Charles Perrault
Elenco: Mary Costa, Bill Shirley, Eleanor Audley, Verna Felton, Barbara Luddy, Barbara Jo Allen, Taylor Holmes, Bill Thompson
Duração: 75 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.