Crítica | A Bela Adormecida

estrelas 5

I know you, I walked with you once upon a dream

O último filme baseado em contos de fadas produzido por Walt Disney adapta o conto homônimo de Charles Perrault. A Bela Adormecida foi o primeiro longa-metragem do estúdio a ser rodado em Super Technirama 70, um dos processos de filmagem em Widescreen e também o último a ter sido colorido à mão. A obra, contudo, se destaca dentre os clássicos da Disney por diversos outros motivos, adotando não só uma narrativa diferenciada como pelo estilo de animação em si.

Abrem os créditos iniciais, com fontes em estilo medieval e somos apresentados a Once Upon a Dream, um arranjo da valsa de Tchaikovsky, já nos introduzindo ao ritmo que persevera durante o longa-metragem. Após uma breve introdução, somos levados à festa de nascimento da princesa Aurora. Cidadãos de todo o reino, ricos ou pobres, seguem até o castelo ao som de Hail to The Princess Aurora, fazendo uma clara menção ao trovadorismo.

A idade média, porém, não se limita à música, aparecendo claramente no estilo da animação, que utiliza traços mais estilizados, fazendo uso de camadas bidimensionais sobrepostas. A intenção de Disney em aproximar seus planos à arte medieval é óbvia e bem sucedida em todos os aspectos. Não só a retratação de cada personagem, como os cenários e composição de cores nos remetem ao período em questão, imergindo-nos em sua distinta narrativa.

Aliando-se a tais diferenças na imagem, a trilha sonora de A Bela Adormecida acompanha a imagem em todos os momentos, ressaltando cada mudança de tom do roteiro. A música não diegética somente é interrompida durante algumas canções de personagens, enquanto que, em outras, se mantém no fundo. Devido a este fator, o ritmo da obra rapidamente se molda em uma espécie de balé, com a harmonia musical passando para os movimentos dos personagens que parecem seguir sutis coreografias em cada sequência.

Voltando para a história, já estamos no castelo do Rei Stefan, pai de Aurora. Vemos a aparição das três fadas, figuras importantes que compõem o perfeito contraponto para a imponente vilã que dá as caras na mesma cena. Enquanto Flora, Fauna e Primavera contam com cores vivas e aparência mais cheia, Malévola é composta em tons escuros de verde, roxo e, é claro, o preto, de mesma importância. Ainda, temos seus traços mais finos que denotam a frieza da figura. Disney constrói um de seus mais icônicos vilões não trazendo uma figura habitual da bruxa, que utiliza a feiura a fim de ressaltar sua maldade. Ao invés disso ganhamos uma personagem com traços mais belos que se convertem em maldade pelas próprias expressões faciais aliadas ao ótimo trabalho de dublagem de Eleanor Audley. Ao fim da sequência, a famosa maldição dá as caras, abrindo portas para a progressão da trama.

O contraste entre o bem e o mal também é focado pela arte de cada cenário. Enquanto vemos castelos majestosos de um lado, temos ruínas, corredores e escadarias tortuosas de outro. Mais uma vez o trabalho de cor se destaca, utilizando, na fortaleza de Malévola, tons de verde escuro, que iluminam de forma fantasmagórica as paredes cinza escuras. Vemos o mesmo na bem construída sequência de Aurora caindo em seu sono profundo, que transmite uma nítida tensão através do transe da princesa em conjunto com o jogo de luzes e melodia dramática.

A fragilidade exposta nessa cena, contudo, não é evidente nas aparições anteriores da personagem. Apesar de, ainda estar à mercê da maldição de Malévola, Aurora tem sua força destacada pela voz de Mary Costa, em especial na performance de Once Upon a Dream, na floresta. Tal sequência conta com o mérito de nos fazer acreditar em uma paixão que, de fato, se desenrola em poucos instantes. A dança na cena retoma a valsa de Tchaikovsky, trazendo a mesma função de uma elipse temporal.

Neste ponto, temos a entrada do importante personagem Philip, que age como um distinto ponto de identificação do público masculino. Não se limitando a uma ponta no filme, o príncipe é a principal figura do inesquecível clímax da história, que junta elementos dos contos de cavalaria e até mesmo mitologia, se desenrolando em uma única sequência de tirar o fôlego. É a penúltima parte de uma sinfonia de 75 minutos que teria seu desfecho logo em seguida, com o despertar da princesa.

A Bela Adormecida funciona como uma obra musical única, trazendo uma narrativa fluida, decorrente de sua harmonia audiovisual. A aposta de Walt em um visual destoante de suas obras anteriores é certeira e nos remete, com exatidão, ao período medieval. No fim, ganhamos uma obra repleta de romance, heroísmo e tensão, trazendo uma das mais inesquecíveis melodias da música clássica e a transformando na icônica Once Upon a Dream, que, por muito tempo, permanecerá na mente do espectador.

A Bela Adormecida (Sleeping Beauty – EUA, 1959)
Direção: Clyde Geronimi
Roteiro: Erdman Penner, Joe Rinaldi, Winston Hibler, Bill Peet, Ted Sears, Ralph Wright, Milt Banta – baseado no conto de Charles Perrault
Elenco: Mary Costa, Bill Shirley, Eleanor Audley, Verna Felton, Barbara Luddy, Barbara Jo Allen, Taylor Holmes, Bill Thompson.
Duração: 75 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.