Crítica | A Bela e a Fera (1991)

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estrelas 5,0

Poucas são as animações tão amadas quanto A Bela e a Fera, que consegue se destacar mesmo dentro do invejável acervo da Disney. Estamos falando do primeiro longa-metragem animado a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme, que acabou perdendo para O Silêncio dos Inocentes. Parte da terceira renascença do estúdio, que fora iniciado com A Pequena Sereia, em 1989, o desenho representa não somente uma forma de entretenimento para a família, como uma obra-prima atemporal, que dialoga com públicos de todas as idades, através de sua história tão antiga quanto o tempo em si, que facilmente se configura como uma das melhores adaptações do conto de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont.

Para aqueles que viveram em uma caverna durante toda a vida, a trama acompanha Bela (Paige O’Hara), uma jovem moradora de uma pequena vila que se diferencia de todos os outros aldeões: ela anseia por uma vida além daquela provinciana e é apaixonada por aventuras, algo que ameniza através de sua paixão por livros. Sua vida é virada de cabeça para baixo quando seu pai é aprisionado por uma criatura em um castelo e, para salvá-lo, a garota oferece tomar seu lugar. Lá ela encontra objetos com vida e a Fera (Robby Benson), que demonstra ser mais gentil do que aparenta.

A Bela e a Fera nos aprisiona em sua narrativa desde os segundos inciais, com a história da Fera sendo contada através de belos vitrais com arte no estilo medieval, garantindo o tom de ancestralidade desse conto. A trilha de Alan Menken demonstra toda sua força de imediato, garantindo a atmosfera de mistério com toques de melancolia, que se mantém por grande parte da obra. O príncipe é estabelecido de imediato como uma pessoa de beleza exterior, mas não interior, temática que permeia todo o longa-metragem.

Curiosamente, Bela é a personagem no qual a beleza interna e externa se encontram, mas é vista como estranha por ser à frente de seu tempo, quando comparada aos outros moradores da vila. No caso, o que é enxergado por todos é justamente sua aparência, mas a essência da protagonista é o seu desejo por conhecer o mundo e se aventurar. Por não ser entendida por aqueles à sua volta, ela é tão prisioneira quanto a Fera, que não pode sair de seu castelo em razão de sua aparência. Com isso, o ponto de identificação entre ambos é introduzida imediatamente, abrindo espaço para o posterior relacionamento de ambos.

Uma das maiores qualidades dessa animação é a forma como constrói a figura do príncipe transformado. Suas primeiras aparições são aterrorizantes, ele é selvagem e violento e os traços não tentam amenizar esse conceito. Os animadores fazem o ótimo trabalho de colocá-lo andando, em algumas cenas, nas quatro patas, sugerindo seu teor selvagem e nos entregando o quanto tempo ele permanecera exilado em sua condição. Em seu olhar, porém, enxergamos os resquícios de humanidade, de bondade que apareceriam mais tarde. O foco em seus olhos permanece uma constante durante todo o filme e, aos poucos, Bela começa a enxergar o homem por baixo de todo aquele pelo.

Embora conte com apenas oitenta e quatro minutos de projeção, o roteiro de Linda Woolverton, que marcara sua estreia nos cinemas, sabe estabelecer um ótimo ritmo na relação entre os dois personagens principais, ao ponto que em momento algum sentimos como se tudo fosse apressado demais. Evidente que as canções são essenciais para o funcionamento disso, elas criam uma maior sensação de passagem de tempo, algo que é complementado pelos cortes para o preto, precisamente inseridos ao longo da narrativa. O que é descrito durante as músicas soa como um evento contínuo e não um acontecimento isolado.

Cada uma das sequências musicais são verdadeiras obras-primas. Criando a ilusão de movimentos de câmera, unido ao full-animation, padrão dos desenhos em longa-metragem da Disney desde Branca de Neve e os Sete Anões, temos cenas fluidas, dinâmicas, que aproveitam da bela profundidade de campo presente durante todo o longa. Cada cenário é maravilhosamente detalhado a tal ponto que não sabemos se olhamos para os personagens ou a tudo aquilo ao seu redor – isso já podemos observar na primeira canção cantada pela protagonista, que apresenta quadros com dezenas de personagens em movimento, um verdadeiro espetáculo visual. O auge, porém, é a icônica canção Beauty and the Beast, com a dança no salão, que usa elementos em CGI perfeitamente inseridos dentro da proposta da obra, permitindo uma movimentação da imagem que nos transporta diretamente para a harmonia do musical.

O melhor é que nenhuma dessas canções no meio da obra soam como barrigas desnecessárias, mesmo Human Again, que fora acrescentada no relançamento da obra para IMAX em 2002. Cada uma consegue catapultar a história para frente e nos traz melodias verdadeiramente cativantes, desde Belle até Gaston, que certamente consegue arrancar risadas até hoje. Aliás, a figura desse vilão é magistralmente construída, com sua ameaça sendo gradativamente aumentada ao longo do filme a tal ponto que enxergamos nele a verdadeira antítese da Fera, sendo Gaston o verdadeiro monstro ali. Ele é o homem que visa tirar a liberdade de Bela para chamá-la de sua, enquanto a Fera devolve a liberdade da garota assim que começa a se apaixonar por ela.

A Bela e a Fera é uma obra que enaltece a beleza interior, a colocando acima das simples aparências que são tomadas como o auge da importância por algumas pessoas. Com técnicas de animação refinadas ao longo dos anos, com um uso pontual do CGI a fim de nos transportar direto para a tela, personagens profundos e cativantes e canções originais que permanecem conosco por anos e anos, temos aqui um longa-metragem de animação verdadeiramente eterno, que jamais poderá ser reproduzido ou copiado, uma genuína obra-prima da Disney, que certamente ainda atingirá milhões de pessoas nos próximos anos.

A Bela e a Fera (Beauty and the Beast) — EUA, 1991
Direção:
 Gary Trousdale, Kirk Wise
Roteiro: Linda Woolverton
Elenco: Paige O’Hara, Robby Benson, Jesse Corti, Rex Everhart,  Angela Lansbury, Jerry Orbach, Bradley Pierce, David Ogden Stiers, Richard White
Duração: 84 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.