Crítica | A Bela e a Fera (2017)

Por que ansiamos em ganhar de presente versões cinematográficas dos nossos heróis de quadrinhos, nossos videogames queridos ou nossas obras literárias mais adoradas? Muito poderia se dissertar sobre, mas vamos partir do princípio que isto se dá, resumidamente, porque há uma mudança crucial de uma mídia para outra. Quando falamos em remake dentro do cinema, as coisas começam a ficar mais confusas. Para muita gente, o Ben-Hur, de 1959, é um dos melhores épicos de todos os tempos e, olha, ele é um remake. A forma de contar histórias em 1959, porém, era consideravelmente diferente da forma de contar histórias em 1925, seja pela mudança na narrativa, seja pela evolução da tecnologia. Acima de tudo, há a questão estética, primordial para um novo público (que não suporta ver um filme preto e branco, mas suporta ver Transformers), e a pontuação de visões autorais diferenciadas. Animações, no entanto, são bastante diferentes de filmes “regulares”. A Bela e a Fera, de 1991, poderia muito bem ser lançada nos dias de hoje que, tecnologicamente falando, continuaria excepcional. Sim, desenhos computadorizados estão muito mais em voga atualmente, mas o público não possui preconceito com a animação mais tradicional. Ninguém vai falar que não vai ver Pinóquio porque é antigo. Já O Mágico de Oz, é uma outra história.

Mesmo que, levando por esta linha de raciocínio, seja até um desrespeito com o próprio filme original e com a arte da animação as pessoas ficarem ansiando por assistir O Rei Leão em live-action, quando, na verdade, elas tem a disposição um filme maravilhoso que capta tudo que tem que captar, sem soar nem um pouco datado, tais pessoas ainda querem assistir O Rei Leão em live-action, e isso é fortemente dúbio. A nostalgia é poderosa, e, ao invés de ansiarmos por fabricar novas experiências cinematográficas mágicas, que nos conquistará como pessoas adultas, preterimos a assistir o “antigo” (aspas por esse ser o caso das animações), falsamente idealizado com uma nova roupagem, quando no final, é tudo a mesma coisa, e a animação, como gênero, vai servir como holofote inicial dos filmes e não o verdadeiro formato da consagração. Eu, por exemplo, afeiçoei-me fortemente com Mogli: O Menino Lobo, de 2016. Mas ali, o trabalho de Jon Fraveau trazia um frescor ao original, não necessariamente inédito. Definitivamente o trabalho de computação gráfico é algo sem precedentes que merecia e muito ganhar espaço a ser visto. Afinal, por que não refilmar um filme de 1967 que explorava animais como personagens e que daria espaço para uma produção técnica desse nível? Não enxergando a cópia pela cópia, então, como um demérito por completo, porém, também não a olhando com bons olhos, mas devidamente desconfiados, esta incursão da Disney a mais um de seus clássicos inquestionáveis vai agradar a massa dos “fãs” do filme original. Já cheio de reclamações e devaneios rabugentos? Reitero o que disse anteriormente e buscarei me ater à obra pela obra, indignado, comparando ambos, mas sem desmerecer por completo a refilmagem “só” porque eu acho que está tudo errado com a indústria e com nós. A realidade é que sempre esteve, e fica mais simples olharmos filme por filme.

A recomeçar a análise, revisitar uma história da mesma forma como ela foi contada “originalmente” (tendo em vista que os originais dos clássicos da Disney tendem a encontrar forma, de verdade, na literatura) não é algo muito atrativo para aqueles que prezam originalidade ou criatividade. Para embarcar em uma aventura dessa, é realmente necessário que a mente do espectador consiga se sustentar em visualizar com encanto algo que já foi passado para ele anteriormente. As animações, aliás, carregam um quê cinematográfico apenas delas, algo que, no live-action, se perde. Na tentativa de tornar tudo realista quando, na verdade, a obra e seus personagens ficam toscos se imaginados fora do gênero animado. Imagina ver um desenho do Pernalonga em live-action. Imagina ver Pica-Pau em live-action. Não ficou nem um pouco bom o resultado daquele filme de 2017, ficou? Diferentemente desses casos, mas na mesma linha deles, e adotando o pensamento de que se é possível criar uma criatura “real” como a do original de 91 (o que, definitivamente, é), o design da Fera (Dan Stevens) é uma daquelas coisas que ficaria melhor se não buscasse emular o que o personagem é na animação, mas fazer algo autoral, criando uma criatura palpável. Enquanto as mobílias do castelo, antigos serventes deste, são extremamente críveis, e mágicos na medida certa, a criação da Fera buscou trazer uma mistura que encontra erros ao não saber modelar o lado triste, menos ameaçador do personagem, com o seu lado mais assustador, vilanesco. O segundo nunca aparece de verdade, por falha gigantesca do trabalho de computação gráfica, enquanto o primeiro é amenizado devido o fato de nunca termos experienciado uma relação mais temerosa em relação ao monstro, apenas o sorrisinho abobalhado.

Mais do que tudo, é essencial se frisar a aparência da besta, visto que o funcionamento da computação gráfica era crucial para que nos apegássemos ao personagem. Sem isto, cenas de cunho dramático caem para um melodrama de texto falado, vide o aparente descompromisso da atuação de Dan Stevens, que é, na realidade, demasiadamente prejudicado pelo CG. Aliado a isso, Bela (Emma Watson) não parece ter um apego real ao monstro, o que desmonta boa parte do romance, embora o conto de fadas clássico continue ali e funcione para a maioria de nós por uma outra questão: essa é uma história que conhecemos, seja fãs do filme de 1991 ou até meros apreciadores do conto do século retrasado. A maior parte do público alvo deste filme tem alguma familiaridade com a história da garota que se oferece como prisioneira de uma Fera amaldiçoada, no lugar de seu pai, preso após pegar uma rosa de um castelo esquecido pelo tempo. Por isso, muito da relação do público com a obra vem de uma carga antecedente a esta, que diz, enfim, pouco em relação ao amor entre Bela e a Fera por si só. O pouco não está necessariamente no roteiro, mas sim na condução dramática, no tom, no ritmo e principalmente, na atuação, ou no caso, na falta dela, escondida debaixo de um rosto de cachorrinho fofo pouco crível. Isso não é algo que pode ser compensado, mas no mínimo, pinceladamente manejado para que não destrua o longa por completo. Sendo assim, sobre os pontos positivos, o mesmo dito agora não pode-se dizer dos serviçais do castelo, os quais possuem vozes muito bem encaixadas. Lumière (Ewan McGregor) e Horloge (Ian McKellen) transparecem química e são excelentes alívios cômicos. A maldição que lhes foi atribuída tem ainda mais peso do que na obra original, criando cenas de mais apelo trágico, como no caso da Madame Samovar (Emma Thompson) e de Zip (Nathan Mack). Por fim, a adição de casais românticos é outra pontuação que funciona, tanto como sacadas cômicas quanto como maneiras extras de nos apegarmos a personagens, alguns novos, como Cadenza (Stanley Tucci).

No geral, A Bela e a Fera também possui consideráveis adições de narrativa em relação à base. Tanto Bela quanto a Fera recebem doses extras de background, garantindo, no caso da francesa, vigor na relação da filha com Maurice (Kevin Kline), seu pai. Emma Watson, aliás, está bem, e se entrega na maior parte das vezes, como na sequência da canção Belle, a qual denota toda a sua leveza em encarar a vida e a sua força em enfrentar os percalços dela, como quando, mais para frente, lhe zombam de suas atitudes literárias subversivas. Falta, todavia, mais encantamento da jovem em relação ao mundo de magia que lhe é apresentado. Enquanto a Bela do desenho estava fascinada e engajada na apresentação surrealista de Be Our Guest, a Bela de Emma Watson está apática e isso é problemático. Das mudanças que já podemos perceber de início, uma das mais agradáveis é a introdução de personagens negros à trama, o que é bem-vindo, mesmo que seja temporalmente impreciso (é um conto de fadas, ora). Trata-se de uma decisão consciente do diretor Bill Condon em assumir atitudes afirmativas no filme, como no caso de “escancarar” de vez a sexualidade de Le Fou (Josh Gad). Gad, aliás, está engraçadíssimo em seu papel, e o que Condon faz é utilizar a sutileza para fornecer uma conclusão sábia, justa para o que o personagem demonstrou ser no filme, não sendo, portanto, um queerbaiting. É papel de Gaston (Luke Evans), todavia, roubar todas as cenas em que aparece. Um antagonista que recebe um acertado tratamento no que se refere a sua instabilidade maleficente, enquanto Le Fou é uma racionalidade relegada a não ser ouvida, assim como os seus sentimentos também não são entendíveis por parte do personagem de Evans, um canastrão de primeira linha, que assim demonstra ser em todos os momentos mas, principalmente, na divertidíssima Gaston.

É perceptível, porém, que o diretor não soube trabalhar bem as performances musicais e as cenas de ação do longa-metragem. Em Beauty and the Beast, por exemplo, falta planos mais longos, que acompanhem a música. A dança, sem isso, fica artificial e desapegada do grande significado que ela tem dentro da narrativa e dentro da cultura popular. Condon teria tido mais êxito nesta, e em outras sequências, se deixasse a câmera fluir, não permitindo que o trabalho de edição ficasse tão presente, com direito a vários cortes redundantes. Acontece que o momento que é para ser o ápice do amor entre bela e fera soa vazio. O mesmo pode-se dizer do início e do final do filme, ambos possuindo novidades em relação ao trabalho de época se comparado com a obra original, mas faltando em coreografias edificantes, épicas. A última, aliás, abusa de um apego à música título do filme bastante manipulativo, sem entregar completamente a conclusão poderosa esperada. Dentre as outras partes musicais, Evermore, nova canção escrita para a obra, é muito boa, mesmo que Condon faz nós a apreciarmos mais como uma possibilidade para um espetáculo teatral do que funcional cinematograficamente dentro do longa. Apesar de tudo, é inegável que a trilha sonora ainda continue como um ponto positivo, embora nem um pouco trabalhada tão bem quanto no filme de 1991. O maior centro das atenções desta nova produção de A Bela e a Fera, no final, é o design de produção e o figurino. Sarah Greenwood aposta em uma obra luxuosa, retomando novamente o mesmo senso de majestade e mistério nas composições interiores do castelo mal-assombrado. O que se faz com os figurinos, no entanto, é surpreendente, em uma mistura do que se é real com o que se é baseado no trabalho de animação original, vide o caso de Gaston, lúdico, fiel, mas não impreciso no tom, algo que poderia acontecer e tornaria o seu traje cafona.

Com todos os percalços, há de se retomar o contexto desse remake. Bela e a Fera foi a primeira animação indicada a Melhor Filme no Oscar, um passo gigantesco para um gênero bastante desmerecido, nas suas devidas proporções, pela Academia e pela indústria em geral. O amor enorme de fãs por um filme que é, na ideia, exatamente igual ao anterior diz, nas entrelinhas, que animação não é tão considerada como cinema quanto live-actions, quando deveria, na verdade, estar no mesmo nível. Esta é, propositadamente, uma cópia “fiel” à animação, ainda falha em ser uma cópia, que recebe aplausos e aplausos de pessoas que, consumindo uma realização do tipo e a glorificando por ser, teoricamente, tudo o que a original já é, desmerece o trabalho de uma equipe de animadores extraordinários. No intrínseco de tudo, isso é um “auto-plágio” desonesto, a fim de lucrar facilmente com que já é seu, a base da memória afetiva dos seus “fãs”. Se tal termo existisse, e a Disney não tivesse o inventado, definitivamente a situação de hoje na empresa seria usada como exemplo. Dado o compromisso criado com vocês, nos meus dois primeiros parágrafos, busquei não deixei levar a minha opinião pessoal, a qual não se caracteriza como verdade absoluta de nada, e é até predisposta a adentrar muitas discussões, influenciar significativamente no que achei de A Bela e a Fera, de 2017. Mesmo buscando copiar passo a passo uma obra-prima, adicionando meia hora de filme que não existia originalmente, esta é uma obra razoável, que, ironicamente, perde todos os seus encantos maiores se comparados com aqueles do filme original de 91. O sentimento foi reciclado, o filme também, mas a qualidade, curiosamente, nem tanto.

A Bela e a Fera (Beauty and the Beast) — EUA, 2017
Direção:
Bill Condon
Roteiro: Stephen Chbosky, Evan Spiliotopoulos
Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Hattie Morahan,  Haydn Gwynne, Ewan McGregor, Ian McKellen,  Emma Thompson, Nathan Mack, Audra McDonald, Stanley Tucci
Duração: 129 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.