Crítica | A Bela e a Fera (2017)

estrelas 2,5

É mais do que evidente o potencial lucrativo de remakes das obras clássicas da Disney, afinal, quem não nutre calorosas lembranças de filmes como A Pequena SereiaAladdin, ou O Rei Leão? Sabendo disso, em 2014, o estúdio começou a transformar seus grandes sucessos ao longo dos anos em live-actions, começando pelo fraco Malévola, que apesar de sua qualidade duvidosa ainda contava com originalidade, realmente ousando acrescentar algo a mais do que vimos em A Bela Adormecida. O sucesso de bilheteria do longa-metragem logo motivou ainda mais outras produções e em 2016 ganhamos Mogli: O Menino Loboque se manteve mais fiel ao desenho de 1967. Chega, então, a hora de A Bela e a Fera ganhar sua releitura, nos deixando com a questão sobre o seu valor cinematográfico, afinal, estamos falando da primeira animação a ser nomeada ao Oscar de Melhor Filme.

O roteiro de Stephen Chbosky e Evan Spiliotopoulos adapta o original de Linda Woolverton praticamente à risca. Iniciamos a projeção com a história de como o príncipe se tornou a Fera (Dan Stevens), substituindo os belos vitrais da animação por atores desempenhando seus papéis. Amaldiçoado pela feiticeira, a Fera é condenada a viver como tal até que seja capaz de amar e ser retribuído, antes que a última pétala de uma rosa encantada caia. Partimos, pois, para Bela (Emma Watson), uma jovem considerada estranha em seu vilarejo em virtude de sua mentalidade à frente de seu tempo e sua paixão pela leitura. Tendo de desviar dos avanços de Gaston (Luke Evans), que deseja a tomar como esposa, a vida da menina é virada de cabeça para baixo quando seu pai é aprisionado pela Fera durante uma de suas viagens – cabe a Bela resgatá-lo, mas, para isso, precisa tomar seu lugar.

Em inúmeros momentos sentimos como se estivéssemos diante de uma recriação plano por plano do original de 1991, com até a trilha sonora e, é claro, as canções originais sendo recriadas. O problema disso é que, invariavelmente, começamos a comparar o desenho ao live-action, o que apenas prejudica nossa percepção desse novo longa-metragem. Do início ao fim da projeção sentimos como se algo estivesse faltando, o longa carece de alma, soando como um processo automatizado, no qual nem mesmo Emma Watson consegue se destacar. A atriz se apresenta ausente de carisma, nos entregando uma atuação apática, que apenas cumpre sua função, sem realmente nos cativar. Nossa imersão, portanto, é imediatamente colocada em xeque, visto que, em momento algum, conseguimos nos identificar com a protagonista que parece sem vida. Não que Watson não consiga desempenhar as canções durante todo o filme – ela é uma atriz completa, mas que não se entregara totalmente ao papel.

A Fera, por sua vez, conta com sérios problemas de design, especialmente seu rosto que parece chapado, com feições mais humanas que propriamente da criatura que se tornara. Na maior parte do filme o rosto do ser parece transmitir um ar de confusão do que o de ameaça tão necessária para sua persona, ao ponto que jamais acreditamos que qualquer um na obra tenha medo dele. Para piorar, o roteiro tenta amenizar sua personalidade ao torná-lo uma pessoa traumatizada pela morte da mãe e os maus-tratos do pai. A Fera deixa de ser a criatura que precisa se redimir pelas suas ações e se torna mais uma vítima nessa história, destruindo a própria essência desse conto de fadas. Realizado através de captura de movimento, em conjunto com efeitos práticos de maquiagem e cabelo, o personagem soa amplamente artificial, tanto no já mencionado rosto, quanto em sua própria movimentação. O auge, porém, ou, no caso, o fundo do poço, está na pelugem curta de seu corpo e nos chifres, que atravessam os travesseiros enquanto ele está deitado, como um vídeo-game mal finalizado.

Os outros moradores do castelo também possuem seus problemas. Lumière (Ewan McGregor) e Cogsworth (Ian McKellen) são o ponto alto, apresentando belos designs que se encaixam com sua personalidade e respeitam o modelo dos originais, com algumas modificações que se encaixam com a proposta do longa-metragem, como o fato de Lumière agora ter pernas. Isso sem falar no excelente trabalho de dublagem tanto de McGregor quanto McKellen, que verdadeiramente se entregam a seus personagens, a tal ponto que mal conseguimos reconhecer a voz de Ewan (Ian, por sua vez, é impossível não identificarmos em qualquer filme que participa, visto sua imponência). Ambos nos entregam muitos dos necessários alívios cômicos, que se encaixam organicamente na narrativa, não se estabelecendo de maneira forçada e respeitando a atmosfera criada até então.

O mesmo, todavia, não pode ser dito de outros dos serviçais do castelo, como Mrs. Potts (Emma Thompson) e Chip (Nathan Mack), cujas caracterizações parecem coisa de desenho animado, com os rostos estampados na superfície da porcelana, não condizendo nem um pouco com o restante do design da obra. Enquanto os outros personagens tem suas feições criadas utilizando as características dos objetos nos quais se transformaram, a chaleira e a xícara não seguem esse modelo, se destacando dos demais, quebrando constantemente nossa imersão, visto que enxergamos nada mais que um rosto em CGI. Isso tudo piora quando os pratos começam a voar de um lado para o outro, como se fosse a coisa mais normal do mundo, enquanto que os outros objetos tem de obedecer suas limitações físicas. Vale ressaltar que algo que funciona na animação, não necessariamente é bem vista quando se trata de live-action que, apesar de ser fantasia, ainda conta com um pé firmado na realidade.

Luke Evans, como Gaston, por sua vez, é um dos que mais rouba nossa atenção. Embora seja canastrão, isso não é tido como um defeito, já que dialoga perfeitamente com seu personagem. É interessante observar como de um homem ridículo ele passa a ser um verdadeiro vilão, se contrapondo idealmente à figura da Fera, assim como no desenho. O maior destaque, porém, vai para o LeFou de Josh Gad, que surpreendentemente se estabelece como a voz da razão conforme o filme progride. Sua paixão por Gaston é óbvia desde o início e combina com o personagem, considerando a forma como enxerga o capitão do exército. A questão da homossexualidade aqui não é forçada à trama, servindo como elemento de construção de sua personalidade, explicando sua reverência a seu companheiro. Infelizmente o personagem permanece como um mero coadjuvante durante a maior parte do filme, com sua única função de importância sendo desempenhada durante a ótima canção no bar.

Aqui entramos em um dos pontos altos da obra: sua trilha sonora. Não somente as letras das canções do desenho de 1991 são mantidas praticamente intocadas, como são maravilhosamente realizadas, mérito não somente dos arranjos de Alan Menken, que novamente assina as músicas do longa, como dos próprios atores que as cantam, cada um surpreendendo pelo fato de o fazerem com a maior naturalidade e nesse ponto Watson consegue se destacar, com uma voz que verdadeiramente combina com as melodias que a acompanha. Evans também não desaponta, recriando Gaston perfeitamente a tal ponto que é impossível não rir com o exagero de sua “macheza”. A direção de Bill Condon favorece tais sequências, com movimentações que as tornam dinâmicas, especialmente Be Our Guest, que apesar de abandonar o realismo totalmente se estabelece como um verdadeiro espetáculo visual. The Mob Song também é perfeitamente funcional, criando o clímax que não funcionaria apenas através da imagem, que carece do espírito presente na música. Infelizmente o mesmo não pode ser dito da icônica Beauty and the Beast, que é atrapalhada pelo visual da Fera. A fluidez da narrativa também é atrapalhada por determinadas “barrigas” desnecessárias, como a presença da feiticeira ao longo da projeção, completamente desnecessária para a trama., ou as canções originais que soam desconexas e não acrescentam em nada ao que já fora mostrado.

Portanto podemos dizer que, embora seja uma recriação quase exata da animação original, A Bela e a Fera não conta com a alma do desenho de 1991, soando como uma cópia fajuta, que não conta com qualquer valor cinematográfico, visto que sempre podemos recorrer à versão animada, um clássico eterno que se mantém infinitamente superior a esse remake. Por mais que sua trilha sonora seja fácil de escutar repetidas vezes, assistir Emma Watson como uma desmotivada Bela não é nada engajante, sendo capaz apenas de atingir ao saudosismo dos fãs e nada mais. Mais um exemplo perfeito do bonito, mas vazio.

A Bela e a Fera (Beauty and the Beast) — EUA, 2017
Direção:
Bill Condon
Roteiro: Stephen Chbosky, Evan Spiliotopoulos
Elenco: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad,  Kevin Kline, Hattie Morahan,  Haydn Gwynne, Ewan McGregor, Ian McKellen,  Emma Thompson, Nathan Mack, Audra McDonald, Stanley Tucci
Duração: 129 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.